Brasil

    Cuidado, a matemática não vota

    Quem passou a última segunda-feira (5) atualizando o home broker de cinco em cinco minutos sabe a sensação boa que é ver o Ibovespa saltando 7,7% no primeiro pregão após o primeiro turno. O índice, principal indicador da Bolsa, rompeu pela primeira vez a barreira dos 200 mil pontos e fez muito investidor se sentir um gênio.

    UOL
    12 de outubro de 2026 às 03:00
    Cuidado, a matemática não vota
    Gráfico de linha azul em fundo preto exibe queda rápida no início, seguida por variações menores e estabilização. Eixo horizontal com marcações temporais e dados financeiros desfocados na parte inferior. — Foto: UOL

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    Quem passou a última segunda-feira (5) atualizando o home broker de cinco em cinco minutos sabe a sensação boa que é ver o Ibovespa saltando 7,7% no primeiro pregão após o primeiro turno. O índice, principal indicador da Bolsa, rompeu pela primeira vez a barreira dos 200 mil pontos e fez muito investidor se sentir um gênio.

    Um painel eletrônico exibe informações sobre as flutuações recentes nos índices de mercado da B3, em São Paulo, um dia após o primeiro turno das eleições gerais no Brasil - Alexandre Meneghini - 5.out.26/Reuters · Alexandre Meneghini - 5.ou
    Um painel eletrônico exibe informações sobre as flutuações recentes nos índices de mercado da B3, em São Paulo, um dia após o primeiro turno das eleições gerais no Brasil - Alexandre Meneghini - 5.out.26/Reuters · Alexandre Meneghini - 5.ou — Foto: UOL · Fonte: UOL

    A tentação de muitos agora é fazer a conta mais perigosa: "Se o primeiro turno deu 7,7% ao mostrar uma leve liderança de Flávio Bolsonaro (PL) sobre Lula (PT), uma eventual confirmação de seu nome no dia 25 há de dar outro tanto". A história discorda.

    O mercado não lê o seu grupo de WhatsApp. Ele funciona do jeito dele, e o jeito dele costuma se repetir. Não faço previsão, nem quero botar água no chope de ninguém. Mas é bom conhecer os caminhos antes de se aventurar numa estrada.

    Fui olhar o primeiro pregão depois de cada turno das seis últimas eleições presidenciais, de 2002 a 2022. Depois do primeiro turno, a Bolsa subiu cinco das seis vezes, com alta média de 2,1%. Depois do segundo turno, entretanto, o Ibovespa caiu em quatro das seis eleições, com queda média de 1,3%.

    Imagem da matéria
    Foto: UOL · Fonte: UOL

    Só teve uma vez nesse período, em 2010, na primeira eleição de Dilma Rousseff (PT), que o dia seguinte à decisão final foi melhor que o da primeira votação. Foram pregões sem emoção: altas de 0,22% contra 1,26%. Ninguém estourou champanhe.

    Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha

    A eleição do pai de Flávio, Jair Messias Bolsonaro (PL), é um exemplo mais didático. Depois do primeiro turno, o Ibovespa subiu 4,57%. Confirmada a vitória, chegou a renovar o recorde pela manhã, mas fechou o dia em queda de 2,24%. Quem comprou na véspera esperando a festa pagou a conta do bufê.

    Não se trata de intenção de voto. É a realização de lucros de quem faz o mercado se movimentar. O velho "compre no boato, venda no fato". O primeiro turno é o momento da surpresa: é ali que se descobre quem está no páreo, qual Congresso foi eleito e quanto as pesquisas erraram. São feitas as apostas.

    Nas três semanas seguintes, as pesquisas vão sendo incorporadas às cotações. Quando a urna confirma o que já estava no preço, sobra pouca novidade para comprar e muito lucro para realizar.

    O mercado não é o vizinho animado nem o influenciador do Instagram. Os estrangeiros respondem por cerca de 63% do volume diário negociado na B3, segundo dados compilados pelo JPMorgan. Na segunda-feira (5), trouxeram R$ 10 bilhões em um único pregão, o maior ingresso diário da história da Bolsa. Grandes gestores internacionais não votam aqui e realizam lucro sem crise de consciência.

    Em 2026, há um agravante. A alta de 7,7% foi a maior reação a um primeiro turno da série. Quanto mais o mercado antecipa, menos combustível sobra para depois.

    Se a sua tese para a Bolsa é de longo prazo, as eleições são um capítulo, não o livro. Se seus planos dependem de uma segunda-feira, talvez sejam só um palpite. E investir com base em palpite não costuma ser boa pedida. Mais uma vez: não estou prevendo o futuro, nem pretendo fazer isso. Sigo acreditando na diversificação de investimentos para evitar sustos com o excesso de confiança.

    LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Na página Colunas da Folha você encontra opinião e crônicas de colunistas como Mônica Bergamo , Elio Gaspari , Djamila Ribeiro , Tati Bernardi , Dora Kramer , Ruy Castro , Muniz Sodré , Txai Suruí , José Simão , Thiago Amparo , Antonio Prata e muito mais.

    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marcos-de-vasconcellos/2026/10/cuidado-a-matematica-nao-vota.shtml.

    Imagem 1
    1 / 2

    Um painel eletrônico exibe informações sobre as flutuações recentes nos índices de mercado da B3, em São Paulo, um dia após o primeiro turno das eleições gerais no Brasil - Alexandre Meneghini - 5.out.26/Reuters · Alexandre Meneghini - 5.ou — Foto: UOL

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)