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    Crise no STF, nó fiscal e Trump: profusão de desafios aguarda próximo governo

    Uma profusão de desafios aguarda o próximo presidente da República em algumas das principais áreas de atuação do governo federal. Na lista, problemas históricos que afetam a população brasileira há décadas se misturam com novos obstáculos e questões pontuais. Em comum, a necessidade apontada por especialistas de incluir esses temas como prioridade na agenda nacional. Leia mais (10/03/2026 - 23h00)

    Folha de S.Paulo
    4 de outubro de 2026 às 02:00
    Crise no STF, nó fiscal e Trump: profusão de desafios aguarda próximo governo
    Vista em preto e branco do edifício do Supremo Tribunal Federal com passarela curva sobre espelho d'água. Céu carregado de nuvens escuras ao fundo. — Foto: Folha de S.Paulo

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    Uma profusão de desafios aguarda o próximo presidente da República em algumas das principais áreas de atuação do governo federal. Na lista, problemas históricos que afetam a população brasileira há décadas se misturam com novos obstáculos e questões pontuais. Em comum, a necessidade apontada por especialistas de incluir esses temas como prioridade na agenda nacional.

    Fachada do Palácio do Planalto - Gabriela Biló/Folhapress · Gabriela Biló/Folhapress
    Fachada do Palácio do Planalto - Gabriela Biló/Folhapress · Gabriela Biló/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Nas últimas semanas, a Folha publicou reportagens apresentando os principais gargalos que o novo chefe do Executivo terá em seu mandato. Em boa parte dos casos, o fracasso de políticas públicas do passado —criadas de forma reativa e isolada— explica o cenário atual. Em outros, o que pesa é a inércia de um Estado marcado por ineficiências.

    Há também questões que refletem crises em Poderes vizinhos ou que surgem de mudanças em arranjos geopolíticos, mas que também devem atravessar o caminho do novo governo.

    Veja alguns dos desafios que o próximo presidente terá em áreas consideradas estratégicas.

    Alunos de colégio paulistano, durante simulado para o vestibular - Jardiel Carvalho/Folhapress · Jardiel Carvalho/Folhapress
    Alunos de colégio paulistano, durante simulado para o vestibular - Jardiel Carvalho/Folhapress · Jardiel Carvalho/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Especialistas alertam para a dificuldade de sustentar o financiamento do SUS diante de uma crise fiscal iminente. Esse é um desafio que deve se tornar mais premente com o envelhecimento populacional e o avanço das doenças crônicas.

    Hoje, os gastos públicos com saúde estão na faixa de 4% do PIB (Produto Interno Bruto). Michelle Fernandez, professora do Instituto de Ciência Política da UnB, destaca o avanço das emendas parlamentares impositivas como fonte de custeio da área da saúde. Esse é um ingrediente que reduz a margem discricionária do Executivo e exige negociação permanente com o Congresso.

    "Ao mesmo tempo, vemos elementos que estão esvaziando esse financiamento", afirma.

    Detentos ligados à facção criminosa Primeiro Grupo Catarinense tomam banho de sol em presídio de Joinville - Avener Prado/Folhapress · Avener Prado/Folhapress
    Detentos ligados à facção criminosa Primeiro Grupo Catarinense tomam banho de sol em presídio de Joinville - Avener Prado/Folhapress · Avener Prado/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O plano de governo de Lula ( PT ) não equaciona o embate entre o arcabouço fiscal e o piso constitucional da saúde. O de Flávio promete corrigir a tabela do SUS e migrar para pagamento por desempenho, sem detalhar custo ou fonte de recursos.

    Mas os gargalos vão além e passam por questões de desenho institucional, destacando-se a ausência de um responsável por coordenar o percurso do paciente entre serviços de entes federativos diferentes. A lista inclui ainda o fortalecimento da atenção primária e a incorporação de riscos climáticos ao planejamento do sistema.

    Superar o atraso na alfabetização e reverter a estagnação do aprendizado nos anos finais dos ensinos fundamental e médio estão entre os principais desafios para o próximo presidente.

    O presidente americano Donald Trump em evento em Durant, Oklahoma - Kent Nishimura/AFP · Kent Nishimura/AFP
    O presidente americano Donald Trump em evento em Durant, Oklahoma - Kent Nishimura/AFP · Kent Nishimura/AFP — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Em 2025, o país atingiu a marca de 66% de crianças alfabetizadas ao final do 2º ano. Em 2016, o índice de 45% de alfabetização só era alcançado ao final do 3º ano.

    Naercio Menezes Filho, professor do Insper e da USP, diz que o Brasil expande investimentos em educação há duas décadas, mas o desempenho continua baixo. De 2005 a 2025, o gasto por aluno na educação básica aumentou 4,5 vezes. Nesse mesmo intervalo, a nota média dos estudantes da rede pública nos anos finais do ensino fundamental subiu só 20%.

    De acordo com seis autoridades em educação, o caminho para acelerar a alfabetização passa por melhorar a atenção à primeira infância (da gestação aos 6 anos), além de aplicar reforço escolar e a oferta de escolas de tempo integral. Preparar professores por meio da formação presencial e prática e usar critérios técnicos para preencher cargos de gestão também são caminhos apontados pelos especialistas.

    Imagem de drone dos paineis solares flutuantes proximo a barragem de Sobradinho no rio São Francisco - Rubens Cavallari/Folhapress · Rubens Cavallari/Folhapress
    Imagem de drone dos paineis solares flutuantes proximo a barragem de Sobradinho no rio São Francisco - Rubens Cavallari/Folhapress · Rubens Cavallari/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    No plano de governo, Lula deixa de mencionar medidas que garantam nomeações de gestores baseadas no mérito. O presidente também não diz como reverter a excessiva formação de professores por meio de ensino a distância.

    Já Flávio Bolsonaro propõe criar mais escolas cívico-militares e respeitar o papel das famílias na formação de valores. Segundo os especialistas, são pautas sem respaldo técnico, com viés doutrinário.

    A falta de espaço orçamentário é apontada como gargalo transversal , que ameaça travar a capacidade de atuação do próximo presidente em todas as demais áreas. Hoje, o governo tem gastos recordes e a dívida pública chega a 82,9% do PIB , patamar sem precedentes além do período excepcional da pandemia.

    Fachada da sede da Ancine (Agência Nacional do Cinema), na região central do Rio de Janeiro - Lucas Tavares/Folhapress · Lucas Tavares/Folhapress
    Fachada da sede da Ancine (Agência Nacional do Cinema), na região central do Rio de Janeiro - Lucas Tavares/Folhapress · Lucas Tavares/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Esse estrangulamento limita a capacidade de investimentos básicos em infraestrutura e serviços públicos

    As razões da rigidez orçamentária passam por distorções históricas de um Estado empresário e corporativista, com a concessão de subsídios, privilégios e custos do funcionalismo. Tudo isso somado à pulverização do Orçamento pelas emendas parlamentares.

    Para conter a expansão do endividamento, serão necessárias medidas duras de redução de despesas ou aumento de receitas. Ambas são difíceis de aprovar no Congresso e potencialmente nocivas à popularidade do presidente.

    Montagem com o presidente Lula e o candidato Flávio Bolsonaro - Montagem · Montagem
    Montagem com o presidente Lula e o candidato Flávio Bolsonaro - Montagem · Montagem — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Do contrário, o risco é o agravamento de uma crise financeira capaz de elevar a inflação, encarecer o crédito e empurrar famílias e empresas para o endividamento.

    Diante do nó fiscal, os programas de Lula e Flávio Bolsonaro apresentam estratégias divergentes para controlar as contas e destravar o crescimento. O plano do petista defende a manutenção do arcabouço fiscal aliada ao investimento público como indutor do desenvolvimento, propondo uma nova edição do Novo PAC e o debate sobre a reformulação do sistema de emendas.

    Já o senador aposta no controle fiscal sob a bandeira do "tesouraço", prevendo o corte de ao menos dez ministérios, redução de cargos e despesas administrativas.

    Mão com anel preenchendo bolhas de resposta em gabarito de prova com caneta preta. Folha de papel com múltiplas opções de múltipla escolha visível.
    Mão com anel preenchendo bolhas de resposta em gabarito de prova com caneta preta. Folha de papel com múltiplas opções de múltipla escolha visível. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Na segurança pública, o novo governo estará diante de uma encruzilhada : combater o crime organizado do século 21 —que passou a operar em mercados lícitos, no sistema financeiro e no ambiente digital— enquanto problemas não resolvidos do século passado persistem.

    Hoje, a atuação do Estado é marcada por baixa capacidade de investigação, polícias pouco integradas, sistema prisional superlotado e territórios dominados por grupos armados. A segurança pública é destacada como uma das áreas que mais preocupam os eleitores brasileiros.

    "O Brasil enfrenta um gargalo, comum a grandes federações como Estados Unidos e México, sobre como integrar e coordenar diferentes níveis de governo e de poder", diz Renato Sérgio de Lima, diretor-presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

    Detentos ligados à facção criminosa Primeiro Grupo Catarinense tomam banho de sol em presídio de Joinville
    Detentos ligados à facção criminosa Primeiro Grupo Catarinense tomam banho de sol em presídio de Joinville — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Especialistas apontam a ausência de um sistema integrado como o gargalo crucial da área, destacando que a criação do Sistema Único de Segurança Pública (SUSP), em 2018, não produziu a transformação esperada.

    Com o número de feminicídios em alta, a persistência da violência contra a mulher evidencia a dificuldade de articular redes de saúde, assistência social e proteção judicial, deixando vítimas sem o devido acolhimento e sem encaminhamentos adequados.

    Donald Trump . O presidente americano e seu modo de operar no tabuleiro geopolítico —não só frente a inimigos, mas a aliados também— são considerados pontos críticos para a diplomacia do novo governo .

    Homem de cabelos loiros e terno escuro com gravata vermelha está aplaudindo em frente a uma grande bandeira dos Estados Unidos desfocada ao fundo.
    Homem de cabelos loiros e terno escuro com gravata vermelha está aplaudindo em frente a uma grande bandeira dos Estados Unidos desfocada ao fundo. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O atual mandato de Trump termina em janeiro de 2029. Isso significa que, por pelo menos dois anos, o próximo presidente brasileiro deverá ter relações difíceis com Washington.

    Com histórico de atacar igualmente parceiros e adversários, o americano deve continuar pressionando o país para abrir espaço a seus interesses, segundo especialistas. A pressão para o Brasil se afastar da China representa um dos pontos mais sensíveis, considerando a dependência da economia em relação a Pequim.

    Paralelamente, o país estará no centro da corrida global por minerais críticos e terras raras, essenciais para a transição energética e a indústria de alta tecnologia. Hoje, se intensifica uma corrida global pelos vastos depósitos de terras raras do Brasil.

    Plataforma composta por painéis solares flutuantes sobre reservatório de água extenso, com céu azul e poucas nuvens ao fundo.
    Plataforma composta por painéis solares flutuantes sobre reservatório de água extenso, com céu azul e poucas nuvens ao fundo. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Na política internacional, outros temas ainda se destacam como desafios para um novo mandato presidencial. A pressão por menor regulação das big techs e o combate ao narcotráfico transnacional são alguns deles.

    A crise institucional que atravessa hoje o STF não dá sinais de que deve arrefecer com o início de um novo mandato presidencial. A relação com um Judiciário protagonista e conflituoso será um dos desafios do próximo chefe do Executivo .

    Mas problemas históricos como acúmulo de processos, morosidade e insegurança jurídica também compõem o horizonte.

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    0 — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Com 75,5 milhões de ações pendentes no final de 2025 e um fluxo contínuo de mais de 40 milhões de novos casos por ano, magistrados respondem a uma média de 2.366 decisões anuais. O cenário é de sobrecarga.

    "A era do juiz filósofo não existe mais. Hoje temos um juiz tecnocrata. É bom isso? Acho que não, mas é a realidade", diz Pedro Roderjan Rezende, juiz do TJ-PR (Tribunal de Justiça do Paraná) e doutorando na FGV Direito SP.

    A esse cenário se somam os custos astronômicos do sistema e a profusão de supersalários e penduricalhos, nos quais verbas indenizatórias turbinam os ganhos da carreira para além do teto constitucional e consomem bilhões de reais por ano.

    À esquerda, homem de cabelos brancos e barba, vestido com terno azul e faixa presidencial verde e amarela, faz gesto de positivo com as duas mãos. À direita, homem de cabelos curtos e escuros, veste camiseta amarela com verde e jaqueta pret
    À esquerda, homem de cabelos brancos e barba, vestido com terno azul e faixa presidencial verde e amarela, faz gesto de positivo com as duas mãos. À direita, homem de cabelos curtos e escuros, veste camiseta amarela com verde e jaqueta pret — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Essa elevada carga orçamentária contrasta com as barreiras históricas de acesso à Justiça, que relegam a população mais pobre a segundo plano e arrastam por anos o cumprimento de direitos básicos.

    O próximo presidente precisará resolver um paradoxo no setor de energia : embora o país tenha ampliado fortemente a oferta de fontes renováveis de baixo custo, convive com cortes compulsórios de geração e aumentos crescentes na conta de luz. Na raiz do problema está a falta de planejamento estratégico.

    Há um consenso entre especialistas de que as decisões passaram a ser tomadas de forma fragmentada, atendendo a lobbies pontuais sem considerar o impacto sobre o custo para o consumidor e a competitividade do Brasil.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A energia é um insumo relevante mesmo em produtos nos quais esse custo não é evidente. Representa 29,8% do preço final do pão francês e 18,7% do preço do café moído.

    Para a diretora-executiva do Instituto E+ Transição Energética, Rosana Santos, planejar o setor significa estabelecer uma conexão entre o avanço da infraestrutura e as atividades que o Brasil quer priorizar para crescer e gerar empregos nas próximas décadas.

    "A expansão se faz hoje por caneta, movimentos políticos, movimentos de pressão, não por instrumentos técnicos e econômicos", afirma o presidente da Frente Nacional dos Consumidores de Energia, Luiz Eduardo Barata.

    Trilili Urna Eletrônica
    Trilili Urna Eletrônica — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Os programas de governo de Lula e Flávio Bolsonaro defendem ampliar a exploração de petróleo e gás. Mas nenhum deles detalha como a renda gerada pelas novas reservas será usada para preparar a economia para um futuro menos dependente dos combustíveis fósseis.

    Apesar de diretrizes formais para a descentralização do fomento à cultura, persiste uma acentuada disparidade geográfica no repasse de verbas públicas . Só os estados de São Paulo e do Rio de Janeiro captaram quase 60% dos recursos do Fundo Setorial do Audiovisual, por exemplo, dificultando o desenvolvimento de polos regionais e o apoio contínuo às periferias e manifestações populares.

    Além disso, o setor audiovisual lida com a falta de políticas voltadas à etapa de distribuição dos filmes nacionais, acumulando investimentos quase exclusivamente na fase de produção.

    O setor também enfrenta um vácuo regulatório frente às transformações digitais. Projeto de lei para regulamentar o streaming tramita no Senado desde 2022, sem equacionar a proteção à indústria local.

    O cenário cultural ainda inclui a fragilidade na gestão de órgãos como Ancine, Iphan e Ibram, sujeitos a incertezas orçamentárias e disputas sobre o direcionamento de suas atribuições.

    O combate aos supersalários e penduricalhos que ultrapassam o teto constitucional figura como um dos principais desafios da administração pública, concentrado especialmente no Judiciário, em que verbas extras consomem bilhões de reais por ano.

    Embora políticas para mudar isso tenham amplo apoio popular, enfrentar a questão exige aprovar legislação rígida sobre verbas indenizatórias e criar comissões externas para impedir que os membros de um Poder definam seus próprios salários. O desafio é a forte resistência corporativa.

    Especialistas alertam que o verdadeiro gargalo da máquina pública vai além da quantidade de ministérios e cargos. A questão é avaliar quais programas têm relação ruim entre custos e resultados.

    A modernização passa pelo enfrentamento a lacunas historicamente negligenciadas, como a melhoria nos processos de seleção e nos estágios probatórios, o estabelecimento de metas de desempenho e a definição de diretrizes claras para carreiras, formação e avaliação continuada.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/10/crise-no-stf-no-fiscal-e-trump-profusao-de-desafios-aguarda-proximo-governo.shtml.

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    Fachada do Palácio do Planalto - Gabriela Biló/Folhapress · Gabriela Biló/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo

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