Crime organizado e bancada da bala se abrigam nos mesmos partidos
Em artigo publicado em 2025 , Isabella Montini e eu analisamos padrões eleitorais em territórios controlados por milícias no Rio de Janeiro. Em áreas sob domínio miliciano, a concentração de votos dispara. Um policial civil envolvido com extorsão na zona oeste carioca recebeu 13,36% dos votos para deputado estadual em seu território. Natalino, ex-policial e então um dos maiores milicianos do Rio, obteve 3,92% em suas áreas. O candidato médio a deputado estadual recebeu 0,26% por local de votação na cidade do Rio. Candidatos eleitos, em torno de 0,81%. Em nosso estudo, apenas um entre seis polí

Esta coluna é uma parceria da Folha com o Centro de Política e Economia do Setor Público da Fundação Getúlio Vargas (FGV Cepesp).
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Em artigo publicado em 2025 , Isabella Montini e eu analisamos padrões eleitorais em territórios controlados por milícias no Rio de Janeiro. Em áreas sob domínio miliciano, a concentração de votos dispara. Um policial civil envolvido com extorsão na zona oeste carioca recebeu 13,36% dos votos para deputado estadual em seu território. Natalino, ex-policial e então um dos maiores milicianos do Rio, obteve 3,92% em suas áreas. O candidato médio a deputado estadual recebeu 0,26% por local de votação na cidade do Rio. Candidatos eleitos, em torno de 0,81%. Em nosso estudo, apenas um entre seis políticos analisados era filiado a um partido de esquerda.
Embora a infiltração do crime na política seja difícil de mensurar, uma análise recente de Allan de Abreu na revista piauí revelou que, nas eleições realizadas de 2016 a 2024, 78% dos políticos identificados pelas autoridades como vinculados às milícias e facções pertenciam a partidos de direita e centro-direita, com destaque para PP, Republicanos, União Brasil, PSD e PL. Os irmãos Brazão, condenados pela morte de Marielle Franco, foram filiados aos atuais Avante, União Brasil, MDB e PL. Hoje, a chamada "bancada da bala" se abriga, com poucas exceções, exatamente nesses partidos. O sistema de votação proporcional pode, portanto, fazer com que um voto para "matar vagabundo" acabe elegendo um.
Hoje sabemos que facções ligadas ao tráfico também participam de arranjos eleitorais escusos em todo o país. Seu objetivo central é converter território em poder político. No mesmo país em que o presidente anterior é acusado de demitir o "superministro" Sergio Moro para obstruir a justiça e blindar seu filho, apoiar eleitoralmente candidatos gera retornos mais importantes do que dinheiro.

A pesquisadora Jessie Trudeau, em tese de doutorado defendida na Universidade Harvard, demonstrou que os candidatos que recorrem a alianças com grupos criminosos são justamente aqueles que estão na margem, tendo votações relevantes, mas não o bastante para se elegerem. Esses políticos costumam apresentar-se como "amigos da comunidade", enquanto participam de tenebrosas transações, buscando acesso aos votos inseridos nas cadeias de clientelismo dos criminosos, assim como acesso privilegiado de suas campanhas a comunidades onde candidatos que não pagam, não entram.
Contudo, tratar o processo como troca monetária não conta toda a história. No Brasil, membros de coalizões políticas escolhem delegados e coronéis para liderarem esforços policiais em seus "currais eleitorais". Uma tese defendida por Gabriel Funari na Universidade de Oxford documentou como políticos envolvidos com o crime em Belém promoviam a violência como solução na segurança pública e protegiam policiais que usavam da violência estatal para criar territórios milicianos. É por isso que a chamada bancada da bala vive falando em matar, em vez de discutir, por exemplo, como tornar nossas instituições policiais mais meritocráticas .
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/voto-a-voto/2026/09/crime-organizado-e-bancada-da-bala-se-abrigam-nos-mesmos-partidos.shtml.

Pichações do Comando Vermelho (CV) na entrada do bairro Gardênia, na zona oeste do Rio de Janeiro - Eduardo Anizelli/Eduardo Anizelli - 29.jun.23/Folhapress · Eduardo Anizelli/Eduardo Anizelli - 29.jun.23/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo
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