Criar supervírus letal é fácil no papel e dificílimo na prática
Ideia de que IA desgovernada inventaria com facilidade patógeno genocida é no mínimo fantasiosa

Jornalista especializado em biologia e arqueologia, autor de "1499: O Brasil Antes de Cabral"
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"Qualquer forma suficientemente avançada de tecnologia é indistinguível da magia", dizia o britânico Arthur Charles Clarke (1917-2008), talvez o mais influente dos escritores de ficção científica do século 20 e um dos criadores de "2001: Uma Odisseia no Espaço". A frase é brilhante, não nego, mas tampouco resisto a estragá-la um pouco com as seguintes rasuras: qualquer tecnologia avançada parece mágica, e mais poderosa do que realmente é, para quem não tenta entender as limitações dela.
Digo isso por conta de algumas reações interessantes dos leitores à minha coluna anterior neste espaço. Como afirmei que não estava nem de longe claro como diabos uma inteligência artificial descontrolada seria capaz de simplesmente extinguir a nossa espécie , houve quem me respondesse que eu estava desconsiderando a possibilidade de que a IA criasse e disseminasse um vírus letal. Ele poderia ser muito mais hábil na arte de matar pessoas do que os vírus que conhecemos —portanto, capaz de nos dizimar a todos.
OK. Vamos pensar nas implicações desse tipo de hipótese, levando em conta o princípio que enunciei no primeiro parágrafo.

Em qualquer vírus de verdade, feito de proteínas e material genético e que precisa sequestrar o maquinário interno de uma célula viva para funcionar, existe uma tensão entre ser capaz de se assenhorar das engrenagens celulares para criar mais cópias de si mesmo, de um lado, e o de alterar a fisiologia (ou mesmo o comportamento) do hospedeiro para alcançar mais vítimas.
No fundo, é uma equação de custo-benefício (que o vírus, sendo só um amontoado de moléculas orgânicas que, a rigor, nem vivo está, "resolve" sem consciência alguma, pelas vias tortas da seleção natural).
O ponto de equilíbrio exato que o vírus vai encontrar para continuar se multiplicando depende de uma infinidade de coisas, mas tudo o que a gente sabe sobre como eles se comportam no mundo real —e não na fieira de zeros e uns virtuais de um software rodando na nuvem— sugere que não dá para priorizar, ao mesmo tempo, máxima letalidade e máxima transmissibilidade.
Um dos lados, no longo prazo, tem de ceder, o que sugere que a futura IA genocida terá de decidir se "quer" matar muita gente numa tacada só em pouco tempo e depois parar de matar, ou espalhar seu vírus para todo mundo ao longo de anos e ir matando aos poucos.
Repare que nem entramos no mérito de que a variabilidade genética de 8 bilhões de pessoas é grande o suficiente para dificultar a criação de um vírus que consiga infectar seres humanos, de um lado, e não encontre ninguém com algum nível de defesa natural contra ele, do outro. De novo, não há mágica que resolva esse dilema com 100% de eficiência para o lado do vírus (e do nosso também, é claro).
Fora tudo isso, vírus precisam se espalhar no mundo físico , não por fibra óptica. Não há garantia nenhuma de que uma única introdução, num só ponto do planeta , basta para criar uma extinção.
Seria preciso desenvolver uma infraestrutura de disseminação —um exército de seringas-robôs? Sei lá eu— que dificilmente passaria despercebida de uma espécie inteira que não estivesse dormindo no ponto feito Homer Simpson. (Imagine a cena: "Nossa, seu robô, porque o senhor tá cultivando esse monte de vírus aí nesse laboratório? E essa seringa voadora aqui, serve pra quê?").
Achar que coisas desse tipo poderiam acontecer sem mais nem menos é achar que a IA seria capaz de revogar as leis da física e da biologia.
Autor do blog Darwin e Deus, sobre ciência e religião, e especialista em história do catolicismo
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Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/colunas/reinaldojoselopes/2026/09/criar-supervirus-letal-e-facil-no-papel-e-dificilimo-na-pratica.shtml.

Ilustração da estrutura de partículas virais - VivekFx/Adobe Stock · VivekFx/Adobe Stock — Foto: UOL
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