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    Crédito caro e renda pressionada levam inadimplência a recorde no país

    Especialistas alertam que se problema perdurar, país deve enfrentar cenário adverso com mercado de trabalho e economia esfriando

    CNN Brasil
    29 de agosto de 2026 às 06:57
    Crédito caro e renda pressionada levam inadimplência a recorde no país
    Foto: CNN Brasil

    A literatura econômica mostra que o crescimento do endividamento se dá em um período onde a taxa de juros costuma estar mais baixa, não mais alta — pois esta última inibe a contração de dívida —, ponderou o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, em evento na última semana.

    A autoridade monetária comparou a alta na concessão de crédito pelas instituições e o consequente peso no bolso da população, dizendo que “não dá para ficar contente com uma notícia de que o crédito cresceu e depois reclamar que o endividamento [também] cresceu” .

    De fato, quando o BC derrubou a taxa básica de juros do país, a Selic, durante a pandemia, o custo do empréstimo pelos bancos ficou mais barato e o público buscou aproveitar o momento para sacar dinheiro.

    Consequências do choque estão só começando, avaliam os economistas ouvidos pela reportagem • Ilustração gerada por IA · • Ilustração gerada por IA
    Consequências do choque estão só começando, avaliam os economistas ouvidos pela reportagem • Ilustração gerada por IA · • Ilustração gerada por IA — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil

    “A forte expansão do crédito foi gestada no momento em que os receios quanto aos desdobramentos da pandemia levaram a um forte afrouxamento na política monetária”, relembra Everton Gonçalves, diretor de Economia, Regulação e Produtos da ABBC (Associação Brasileira de Bancos)

    “Naquele momento tinha uma crise global, de retração econômica, tudo paralisado. Para estimular a economia era necessário”, ressalta Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating.

    Em seguida do barateamento, veio o choque. A inflação provocada pela pandemia forçou o Banco Central a voltar a apertar os juros, que chegaram a ficar no patamar de 13,75% por mais de um ano.

    Milhas por dinheiro: o que muda nos pontos se projeto passar no Senado
    Milhas por dinheiro: o que muda nos pontos se projeto passar no Senado — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil

    Após um afrouxamento entre meados de 2023 e de 2024, a Selic voltou a subir, chegando a 15% ao ano em junho de 2025.

    Na esteira do crédito mais caro, subiu a inadimplência no país. As métricas do BC consideram inadimplidos aqueles que possuem pelo menos uma parcela com atraso superior a 90 dias.

    Em julho, a inadimplência atingiu 4,88% da carteira de crédito do Sistema Financeiro Nacional, recorde da série histórica iniciada em março de 2011 .

    UBS BB mantém recomendação para Brasil, citando impactos de petróleo e juro
    UBS BB mantém recomendação para Brasil, citando impactos de petróleo e juro — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil

    “A origem do problema está ali naquele período de juros excessivamente baixos. Tinha até razões, mas tem tanta coisa que não se sabia naquele momento, e aí veio uma expansão da demanda por crédito”, explica Marcelo Fonseca, economista-chefe da CVPar Investimentos.

    Outro fator levantado foi o avanço acelerado de linhas emergenciais para pessoas físicas, que apresentam taxas de juros e riscos mais elevados, aponta Gonçalves.

    Olhando só para as operações das pessoas físicas, a inadimplência alcançou 5,81%, patamar que também é o maior da série, apesar dos esforços do governo federal para conter o endividamento da população com o Novo Desenrola Brasil .

    Análise: Maré do endividamento já avança sobre porto seguro do crédito
    Análise: Maré do endividamento já avança sobre porto seguro do crédito — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil

    “O Desenrola recupera o canal de crédito das famílias, que vão se endividando de novo”, pontua Agostini.

    O economista-chefe da Austin reforça ainda que o problema é ainda “mais estrutural por uma má distribuição de renda”.

    “Não é que o brasileiro não tem educação financeira, ele não tem renda, e aí os canais de crédito se tornam vias para suprir essa necessidade”, conclui.

    Milhas por dinheiro: o que muda nos pontos se projeto passar no Senado
    Milhas por dinheiro: o que muda nos pontos se projeto passar no Senado — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil

    Augusto Parente, sócio da AW Capital, acrescenta que “a renda do trabalhador não tem crescido de forma expressiva nos últimos anos, enquanto inflação e juros impactam no orçamento das famílias”.

    Para estimar o endividamento das famílias, o BC considera a relação entre o valor correspondente aos pagamentos esperados para o serviço da dívida com o Sistema Financeiro Nacional e a renda mensal delas. Nos últimos meses, o indicador tem se mantido em patamar recorde .

    E as consequências do choque estão só começando, avaliam os economistas ouvidos pela reportagem.

    UBS BB mantém recomendação para Brasil, citando impactos de petróleo e juro
    UBS BB mantém recomendação para Brasil, citando impactos de petróleo e juro — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil

    Apesar do crédito apertado, o cenário macroeconômico ainda é de mercado de trabalho e PIB (Produto Interno Bruto) aquecidos no país.

    “A preocupação maior, entretanto, está adiante”, enfatiza Thaís Zara, economista-chefe da 4intelligence.

    “Caso o processo de desaceleração da atividade econômica e do emprego se intensifique nos próximos trimestres, como parte do esforço para controlar a inflação, poderemos observar uma deterioração mais significativa da capacidade de pagamento das famílias. Essa é a principal fonte de preocupação olhando para frente”, indaga.

    Análise: Maré do endividamento já avança sobre porto seguro do crédito
    Análise: Maré do endividamento já avança sobre porto seguro do crédito — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil

    A demanda vinha sustentada pelo estímulo fiscal do governo, mas uma vez que mais empresas também estão sofrendo com a deterioração do quadro, elas começam a cortar a oferta e custos, e isso impacta o mercado de trabalho, aponta Fonseca.

    “A gente ainda está num quadro em que a economia vinha crescendo. E isso é muito preocupante, estão só começando as consequências desse choque. A onda está se formando, não quebrou ainda”, reflete.

    A alta da inadimplência chamou atenção nos balanços de grandes bancos brasileiros. O Bradesco reconheceu o “ambiente de inadimplência pressionada” e que o “mercado de crédito [está] com mais riscos” em sua apresentação de resultados do segundo trimestre. Contudo, afirmou que a “carteira cresce em segurança” e que o indicador cresce “dentro das estimativas”.

    É difícil resolver o endividamento com juro alto, diz Aod | FECHAMENTO DE MERCADO
    É difícil resolver o endividamento com juro alto, diz Aod | FECHAMENTO DE MERCADO — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil

    Heverton Peixoto, CEO de Omni&Co, avalia que as instituições financeiras brasileiras continuam sólidas, bem capitalizadas e provisionadas. Mas aponta que o problema vai além da inadimplência em si.

    “O risco é que a inadimplência persistente eleve o prêmio de risco exigido na concessão de novos financiamentos, travando a capacidade do mercado de estender crédito produtivo para mover a economia”, afirma.

    Considerando o cenário, “as instituições financeiras devem manter políticas de crédito cautelosas e diligentes, tanto na avaliação da qualidade dos empréstimos quanto no apetite de risco”, segundo Everton Gonçalves, da ABBC.

    Um dos problemas apontados pelos analistas é que o governo é um grande concorrente na tomada de crédito. Com um financiamento da dívida altamente rentável, o custo para o consumidor acaba crescendo, uma vez que tem maior risco de inadimplência ou de desemprego.

    “O verdadeiro gargalo é que o Brasil convive há anos com um déficit fiscal recorrente, que exige um financiamento massivo do setor público. Esse endividamento estatal absorve boa parte do capital disponível (crowding-out) e mantém a curva futura de juros (DI) estressada, o que encarece a captação dos bancos e eleva o custo final do crédito para consumidores e empresas”, explica Peixoto.

    Desse modo, quem quer ganhe as eleições vai ter que fazer uma política fiscal contracionista em 2027, “é isso ou crise profunda”, finaliza Marcelo Fonseca, da CVPar.

    É difícil resolver o endividamento com juro alto, diz Aod | FECHAMENTO DE MERCADO

    Publicado originalmente por CNN Brasil. Leia a matéria completa em https://www.cnnbrasil.com.br/economia/money/macroeconomia/credito-caro-e-renda-pressionada-levam-inadimplencia-a-recorde-no-pais/.

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