Contando histórias com Fábio Porchat em Cabo Verde
A ética da narrativa pode contrariar a saturação da opinião

Historiador, deputado na Assembleia da República de Portugal e ex-deputado no Parlamento Europeu; autor de 'Agora, Agora e Mais Agora'
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Mindelo, ilha de São Vicente, Cabo Verde . Esta é uma cidade onde coisas destas ainda podem acontecer: na segunda (31), no Café Mindelo , lamentávamos que Fábio Porchat, em digressão pelo país , não tivesse um show aqui, na segunda maior cidade de Cabo Verde que é, para muitos, a sua capital cultural.
Nesta terça (1º), graças a António Tavares, diretor do Centro Cultural do Mindelo, tenho de sair correndo a terminar a coluna para participar dessa conversa. Sim, porque esse é o primeiro problema: tive de pagar a impertinência aceitando subir ao palco também. O segundo problema é que não tínhamos a menor ideia do que iríamos falar.
Mas há pouco, enquanto esperávamos para apanhar o barco de volta da ilha de Santo Antão , chegamos a uma ideia central. Eu sou historiador, o Fábio é comediante, mas ambos não só não fugimos de ser chamados de contadores de histórias, como nos orgulhamos disso.

Vivemos num tempo que é de saturação da opinião. Toda a gente tem de ter uma, sobre tudo, o tempo todo. Mais do que uma opinião, é preciso ter uma posição, muitas, várias, sobre tudo, o tempo todo . Ser contra. A favor. Odiar. Adorar. Entretanto, as redes sociais obrigam a que essa posição seja distintiva.
Se toda a gente diz um disparate grande, a única forma de a gente se distinguir é dizer um disparate maior. Se o absurdo de ontem não rendeu cliques, o absurdo de hoje terá de ser pior. E assim sucessivamente.
Cada um escolhe quando levar à letra ou quando levar a sério uma opinião, conforme lhe dá jeito: o candidato X disse que as mulheres não podem votar? Sim, mas veja bem, o verdadeiro escândalo é quem quer cancelar o homem, etc. No fim de contas, quem liga? Ninguém. É como digo: a sobrevalorização de ter sempre opinião leva a uma desvalorização de cada opinião em si.

Felizmente, há uma alternativa. É aquela que fez de nós humanos: começar por contar uma história. Em tempos, nas caravanas, com uma fogueira acesa, era assim que se combatia o frio nas noites do deserto .
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Diz-se que os contadores de histórias desses tempos interrompiam as suas narrações no meio, levantavam-se, e iam embora, para gerar mais expectativa ao dia seguinte. Em "Mil e Uma Noites" uma mulher, Xerazade, interrompe de madrugada uma história para salvar outras mulheres da fúria de um homem durante pelo menos um dia.
Como é evidente, eu gosto de ter opinião. Não sou "nem de esquerda nem de direita", sou de esquerda mesmo . Segundo dizem, por vezes adoro detestar. E estou certo de que o Fábio também. O que temos em comum, contudo, é que não é preciso começar por aí. Antes, podemos contar uma história.
Os historiadores com complexos não gostam de ser chamados de contadores de histórias, e talvez nem de ser comparados com comediantes. Eu gosto. As regras de cada um são diferentes, mas há uma ética comum no contar de histórias que pode salvar a humanidade: põe-te só por um pouco no lugar de outra pessoa e guarda a tua opinião para depois.
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Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/colunas/rui-tavares/2026/09/contando-historias-com-fabio-porchat-em-cabo-verde.shtml.

Fábio Porchat em seu show de stand-up - @ajulianadasfotos · @ajulianadasfotos — Foto: UOL
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