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    Conheça a feijoa, fruta brasileira esquecida que faz sucesso na Nova Zelândia

    Casca verde e dura, interior mole e cheiro de abacaxi . Assim é a feijoa, fruta nativa do sul do Brasil ainda desconhecida em território nacional. Apesar de ser parte da cultura alimentar de povos indígenas do país, a planta, também chamada de goiabeira-serrana, conquistou mais espaço no exterior. Leia mais (09/08/2026 - 05h00)

    Folha de S.Paulo
    8 de setembro de 2026 às 08:00
    Conheça a feijoa, fruta brasileira esquecida que faz sucesso na Nova Zelândia
    Várias frutas feijoa verdes, com formato oval e textura levemente rugosa, agrupadas lado a lado preenchendo toda a imagem. — Foto: Folha de S.Paulo

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    Casca verde e dura, interior mole e cheiro de abacaxi . Assim é a feijoa, fruta nativa do sul do Brasil ainda desconhecida em território nacional. Apesar de ser parte da cultura alimentar de povos indígenas do país, a planta, também chamada de goiabeira-serrana, conquistou mais espaço no exterior.

    Goiaba-serranas maduras; mesmo verdes, estão prontas para comer - Anastasia Yudin/Pexels · Anastasia Yudin/Pexels
    Goiaba-serranas maduras; mesmo verdes, estão prontas para comer - Anastasia Yudin/Pexels · Anastasia Yudin/Pexels — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Um dos maiores produtores do mundo, a Nova Zelândia cultiva a árvore para fazer geleias, bebidas e sorvetes. A Colômbia também tem tradição no plantio, nos Andes, onde os pés dão fruto o ano todo.

    Embora cientistas e pequenos agricultores do Brasil observem aumento no interesse pela espécie nos últimos dez anos, a produção brasileira é tão pequena que fica difícil medi-la com precisão.

    A jornada da feijoa pelo mundo começou no século 19, mas antes já era usada como alimento pelos povos xokleng, kaingang e guarani , que viviam nos territórios nativos da planta, como Santa Catarina , Paraná e Rio Grande do Sul, além do norte do Uruguai . Ainda hoje descendentes indígenas usam a planta para fins medicinais.

    Veja imagens da goiaba-serrana, também conhecida como feijoa
    Veja imagens da goiaba-serrana, também conhecida como feijoa — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Segundo Samira Moretto, pesquisadora da UFFS (Universidade Federal da Fronteira Sul) e especialista em história ambiental global, a goiabeira-serrana faz parte do conjunto de plantas estudadas por naturalistas que visitaram o Brasil depois de 1808, data da chegada da família real portuguesa .

    Entre os exploradores que vieram com a abertura dos portos estava o botânico alemão Friedrich Sellow, o primeiro a enviar amostras da fruta à Europa . Esse material foi depois catalogado por Otto Berg, em 1856, que nomeou a espécie como Feijoa sellowiana . Foi uma homenagem a Sellow e ao naturalista brasileiro José da Silva Feijó, nascido no século 18.

    O nome científico mostra que a árvore é diferente da quase xará goiaba ( Psidium guajava ), onipresente nos mercados do Brasil.

    Goiabas-serranas vendidas em mercado em Auckland, na Nova Zelândia - Prosperosity/Wikimedia Commons · Prosperosity/Wikimedia Commons
    Goiabas-serranas vendidas em mercado em Auckland, na Nova Zelândia - Prosperosity/Wikimedia Commons · Prosperosity/Wikimedia Commons — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Só 50 anos depois da descrição científica a goiaba-serrana seria cultivada no exterior, conta Moretto, que reconstituiu a história da fruta no doutorado. O primeiro plantio é atribuído ao arquiteto e botânico francês Édouard André, responsável por levar feijoas uruguaias para o sul da França .

    Aclimatada ao país europeu, a planta começou a dar frutos. Animado com o pontecial frutífero, o botânico escreveu um artigo anunciando a planta sul-americana ao mundo.

    A publicação criou interesse nas mudas do francês, principalmente nos Estados Unidos. Um dos pioneiros na importação foi Francesco Franceschi, italiano viveirista de plantas exóticas que passou a cultivar feijoa em Santa Bárbara, na Califórnia .

    Produção de fejioas de Adriano Costa, em São Joaquim (SC); o agricultor tem uma mascote em formato da fruta - Adriano Costa/Arquivo pessoal · Adriano Costa/Arquivo pessoal
    Produção de fejioas de Adriano Costa, em São Joaquim (SC); o agricultor tem uma mascote em formato da fruta - Adriano Costa/Arquivo pessoal · Adriano Costa/Arquivo pessoal — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Segundo Moretto, Franceschi ficou tão apaixonado pela planta que enviava para todos os seus clientes um folheto incentivando o cultivo. O italiano dizia que a polpa era branca, suculenta e doce, com um pouco de acidez no gosto, e que o perfume combinava abacaxi, amora e banana .

    Dos Estados Unidos , a goiabeira-serrana foi disseminada como árvore frutífera e ornamental para diferentes países, como Colômbia e Nova Zelândia, no começo do século 20. Nos dois locais, ela se adaptou bem ao clima. Ficou tão conhecida a ponto de parte da população acreditar que é da flora local.

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    "Cresci comendo feijoas de colher embaixo da árvore que meus pais tinham", conta Kate Evans, jornalista neozelandesa que vive em Raglan, autora do livro "Feijoa: A Story of Obsession and Belonging" (Feijoa: Uma História de Obsessão e Pertencimento, em tradução literal).

    Além de o país ter área de cultivo comercial de 116 hectares, muita gente tem a árvore no quintal. Por isso, quando frutifica, de fevereiro a abril, há uma abundância.

    "As entradas de algumas casas ficam com caixas cheias para os vizinhos se servirem. Não conheço outra fruta que cumpra esse papel social na Nova Zelândia", diz Evans.

    Personagem fantasiado de azeitona com laço rosa na cabeça está ao lado de caixas cheias de frutas verdes e uvas dentro da caçamba de uma caminhonete em área rural com árvores e céu nublado ao fundo.
    Personagem fantasiado de azeitona com laço rosa na cabeça está ao lado de caixas cheias de frutas verdes e uvas dentro da caçamba de uma caminhonete em área rural com árvores e céu nublado ao fundo. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Foi na Nova Zelândia também onde um composto da goiaba-serrana foi patenteado pela primeira vez. Trata-se de um suplemento ligado à prevenção de artrite reumatoide e diabetes tipo 2 , mas ainda sem estudos revisados por pares.

    No país originário da planta, a situação é diferente. "O desconhecimento da fruta no Brasil se dá por falta de estudos, de marketing e de cadeia produtiva estruturada", afirma Rubens Nodari, pesquisador de recursos genéticos agrícolas e florestais da Universidade Federal de Santa Catarina.

    Embora haja programas nacionais de pesquisa como o da Epagri (Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina), que cria variedades de feijoa mais resistentes a pragas e mais produtivas desde 1985, falta ainda conhecimento consolidado sobre o manejo da planta, segundo o pesquisador.

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    Esta lacuna técnica atrasa soluções para os desafios do cultivo, a começar pelo tempo para produzir. As mudas de feijoa levam de 3 a 5 anos para frutificar e ter o primeiro retorno econômico. E, diferentemente da Colômbia, que produz o ano todo, o cultivo brasileiro é sazonal.

    Além de exigir bastante trabalho de colheita por não mudar de cor quando amadurece —só cai do galho—, outros desafios são a durabilidade dos frutos, que perdem sabor rapidamente, e a preferência da planta por locais altos e de clima mais frio.

    "Pensemos no caso do açaí ", diz Nodari. "Ele se disseminou muito no Brasil, mas já existia uma cadeia produtiva estruturada na Amazônia antes de se espalhar. A goiaba-serrana ainda não tem consumo relevante nem na sua própria região de origem", diz Nodari.

    Mudanças climáticas poderão levar à predominância de espécies generalistas e não lenhosas nas comunidades de plantas da Caatinga
    Mudanças climáticas poderão levar à predominância de espécies generalistas e não lenhosas nas comunidades de plantas da Caatinga — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    "Sendo realista, é difícil visualizar uma expansão muito grande no curto prazo", completa o professor, que estuda a planta há 30 anos.

    O cenário muda aos poucos, com agricultores em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul aumentando a área plantada. Um deles é Adriano Costa, 54, de São Joaquim (SC) . Produtor de goiaba-serrana há 14 anos, ele está no processo de ampliar o seu cultivo para dois hectares, cada um com mil árvores

    Costa, que também produz maçã e uva, planta feijoas por diversificação, mas precisou construir o seu mercado aos poucos. Começou a comercializá-la de porta em porta até conseguir estabelecer locais de venda.

    Toda feijoa que produz fica na região. Neste ano, foram oito toneladas da fruta, vendidas in natura (R$ 12 a R$ 25 o quilo) e como sorvetes, sucos, cervejas e polpas congeladas. "Ela tem um sabor único que precisa ser conhecido pelo Brasil", diz o produtor.

    Para Samira Moretto, da UFFS, divulgar a fruta como um destaque da região significa também preservá-la, já que é uma espécie nativa associada às florestas de araucária, um dos ecossistemas mais degradados do país.

    "É uma valorização da biodiversidade brasileira que nos faz repensar nossa relação com alimentos locais, sazonais e regionais", finaliza a pesquisadora.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2026/09/conheca-a-feijoa-fruta-brasileira-esquecida-que-faz-sucesso-na-nova-zelandia.shtml.

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    Goiaba-serranas maduras; mesmo verdes, estão prontas para comer - Anastasia Yudin/Pexels · Anastasia Yudin/Pexels — Foto: Folha de S.Paulo

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