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    Congresso se fortaleceu afetando previsibilidade e transparência, diz estudo da Fundação FHC

    Texto da entidade avalia que movimento foi apoiado em regras informais que concentraram poder na presidência das Casas

    UOL
    8 de agosto de 2026 às 02:00
    Congresso se fortaleceu afetando previsibilidade e transparência, diz estudo da Fundação FHC
    Grupo de deputados em plenário com expressões de comemoração, muitos com punhos erguidos. Um deputado segura placa amarela com texto "Piso para profissionais 6x1". Mesa principal com três deputados sentados, dois deles com microfones e docu — Foto: UOL

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    O recente fortalecimento do Congresso Nacional ocorreu apoiado em regras informais que concentraram o poder nas presidências de cada Casa, esvaziando o trabalho de outras instâncias, como as comissões , e reduzindo a previsibilidade e a transparência. É esse o diagnóstico de documento divulgado pela Fundação Fernando Henrique Cardoso nesta semana.

    Parlamentares em comemoração pela aprovação do fim da escala 6x1 na Câmara dos Deputados - Gabriela Biló - 27.mai.26/Folhapress · Gabriela Biló - 27.mai.26/Folhapress
    Parlamentares em comemoração pela aprovação do fim da escala 6x1 na Câmara dos Deputados - Gabriela Biló - 27.mai.26/Folhapress · Gabriela Biló - 27.mai.26/Folhapress — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Esse é o segundo "policy paper" de uma série produzida pela instituição a respeito dos desafios institucionais e da formulação de propostas para o aprimoramento da democracia brasileira. O primeiro, publicado em outubro do ano passado, teve como foco o STF ( Supremo Tribunal Federal ). Esse tipo de documento consiste em um texto técnico que analisa um problema e propõe soluções.

    Nesta análise, a pesquisadora Beatriz Rey, da Universidade de Lisboa, e Sergio Fausto, diretor da fundação FHC, partem do princípio de que, nas últimas duas décadas, o Congresso passou a exercer "maior protagonismo na definição da agenda pública e das políticas governamentais". Isso é observado, segundo os autores, tanto no aumento da produção legislativa como na diversificação dos temas que passaram a ser objeto das leis.

    Eles ressaltam, porém, que o fortalecimento do Congresso por si só não deve ser visto com desconfiança —o problema foi a maneira pela qual isso ocorreu. "Este documento sugere que parcela importante desse fortalecimento ocorreu precisamente por vias informais, o que produziu distorções que afetam desde o funcionamento das comissões permanentes até o uso das emendas orçamentárias e a organização da agenda legislativa", diz o texto.

    Eleição na Câmara dos Deputados, em 2025
    Eleição na Câmara dos Deputados, em 2025 — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Um exemplo é o sistema de votação híbrido, que permitiu a participação remota em meio à pandemia da Covid-19 , mas que acabou mantido em algumas sessões mesmo com o fim da emergência sanitária. Em 2021, escrevem os autores, a PEC dos Precatórios foi votada com a participação remota de parlamentares que estavam em Glasgow, na Escócia, para a COP26.

    "Essa discricionariedade da Presidência da Câmara é muito preocupante, pois permite que a deliberação remota continue sendo utilizada, em muitos momentos, de maneira informal", diz Rey à Folha .

    Com a dispensa da biometria, afirma, o presidente da Casa pode facilitar a obtenção do quórum em votações nas quais está interessado.

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    Foto: UOL · Fonte: UOL

    Outro exemplo é o colégio de líderes, instância formada pela liderança dos partidos e que ajuda a organizar a agenda que será levada ao plenário. No documento, os pesquisadores indicam que, nas últimas legislaturas, o grupo passou a existir "em uma zona intermediária entre a formalidade e a informalidade", se reunindo, inclusive, em instalações fora da Câmara.

    Rey afirma que na gestão do ex-presidente Arthur Lira (PP-AL) não se sabia sequer se a reunião do colégio de líderes estava acontecendo. Um dos líderes contou a ela que, ao chegar para o encontro, foi perguntado por Lira sobre o que estava fazendo ali.

    "Não à toa, Hugo Motta [atual presidente da Câmara] deixou as reuniões públicas porque era uma insatisfação dos próprios parlamentares. Se você fica sem as regras respeitadas, a personalidade do presidente da Câmara vai influenciar como os trabalhos serão conduzidos."

    BRASILIA, DF,  BRASIL,  05-07-2024, 12h00: Fachada do Congresso Nacional, em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress, PODER)
    BRASILIA, DF, BRASIL, 05-07-2024, 12h00: Fachada do Congresso Nacional, em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress, PODER) — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Para produzir o diagnóstico e propor recomendações, Rey e Fausto contaram com um grupo de discussões que envolveu figuras como o ex-presidente da Câmara Rodrigo Maia e o ex-deputado Marcus Pestana.

    Entre as recomendações, estão a retomada da deliberação presencial como regra geral, o fortalecimento das comissões, a definição de critérios mais rígidos para o apensamento de proposições, o restabelecimento das comissões mistas para análise de medidas provisórias e a formalização do Colégio de Líderes.

    A questão das emendas orçamentárias , pauta mais sensível entre as que envolvem o Congresso neste momento, aparece no documento na seção sobre os temas para uma futura agenda de reforma. "A gente pensou que é um tema tão importante que merece um documento à parte", diz Rey.

    Os autores recomendam que as emendas passem a ser formuladas pelas respectivas comissões e que o limite financeiro "deixe de estar vinculado à receita corrente líquida ou ao orçamento do exercício anterior corrigido pela inflação".

    Na conclusão, Rey e Fausto afirmam que as mudanças dependem da capacidade do Congresso de construir "um movimento de autorregulação institucional à altura dos desafios que enfrenta".

    A pesquisadora diz que a esperança é que os parlamentares leiam o documento e que ele sirva como fonte de inspiração para a apresentação de projetos que mudem o atual regimento.

    "Estou esperançosa porque sei que tem insatisfação dentro do Congresso em relação a isso. Acho que é um problema menos sensível do que o das emendas orçamentárias, por exemplo. Quanto a isso, estou bastante pessimista. Quando se ganha mais poder, é difícil ceder", afirma.

    Rey conta que estava na Câmara na ocasião da eleição do presidente Hugo Motta (Republicanos-PB) e que ouviu de parlamentares, da direita à esquerda, que "estava difícil trabalhar porque o processo estava ficando imprevisível".

    "É difícil para os parlamentares, para a imprensa, para nós, do meio acadêmico, para o cidadão. Essas são decisões sobre políticas públicas. Uma política que é decidida quando se diminui o espaço de deliberação vai ser empobrecida."

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    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/08/congresso-se-fortaleceu-afetando-previsibilidade-e-transparencia-diz-estudo-da-fundacao-fhc.shtml.

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    Parlamentares em comemoração pela aprovação do fim da escala 6x1 na Câmara dos Deputados - Gabriela Biló - 27.mai.26/Folhapress · Gabriela Biló - 27.mai.26/Folhapress — Foto: UOL

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