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    Congelamento de tecido ovariano preserva fertilidade de meninas com câncer e mira adiar menopausa

    Método oferece alternativa rápida antes da quimioterapia

    UOL
    15 de agosto de 2026 às 08:00
    Congelamento de tecido ovariano preserva fertilidade de meninas com câncer e mira adiar menopausa
    Pessoa vestindo roupa cirúrgica azul, touca e máscara observa amostra em microscópio. Computador ao lado exibe imagem ampliada com pontos verdes. — Foto: UOL

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    Existe hoje um procedimento que ambiciona conseguir atrasar a menopausa em um futuro não tão longínquo. Por enquanto, ele dá uma chance de fertilidade antes inexistente para crianças que descobrem o câncer antes da puberdade e para pacientes oncológicas que não têm tempo suficiente para congelar os óvulos antes de iniciar a quimioterapia.

    Esta foto, tirada com um celular, mostra uma técnica do banco de criopreservação do Hospital de Obstetrícia e Ginecologia de Pequim manipulando tecido ovariano no hospital, em Pequim, capital da China, em 27 de fevereiro de 2025. - Shen Ann
    Esta foto, tirada com um celular, mostra uma técnica do banco de criopreservação do Hospital de Obstetrícia e Ginecologia de Pequim manipulando tecido ovariano no hospital, em Pequim, capital da China, em 27 de fevereiro de 2025. - Shen Ann — Foto: UOL · Fonte: UOL

    A técnica, chamada de congelamento de tecido ovariano, retira, congela e devolve ao corpo pedaços do próprio ovário —que se revasculariza para produzir óvulos. É diferente do congelamento de óvulos , em que o material extraído já é o óvulo maduro, pronto para fertilização futura.

    A base da técnica foi estabelecida nos anos 1990, com experimentos em ovelhas no Reino Unido. O primeiro nascimento humano a partir dele ocorreu em 2004, na Bélgica, após reimplante do tecido, preservado antes de tratar um linfoma de Hodgkin.

    Mais conhecido na Europa, o procedimento começa a se popularizar aos poucos no Brasil. Em 2019, a Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva deixou de considerá-lo uma modalidade experimental.

    Hospital da Mulher de SP oferece FIV 100% gratuita
    Hospital da Mulher de SP oferece FIV 100% gratuita — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Ainda assim, o método segue menos difundido que o congelamento de óvulos, padrão ouro para preservar a fertilidade, segundo o ginecologista Carlos Alberto Petta, integrante da Comissão Nacional Especializada em Endometriose da Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia).

    Em parâmetros gerais, fora de situações específicas, especialistas ainda recomendam o congelamento de óvulos a quem quer preservar a fertilidade, diz Petta.

    O congelamento de óvulos exige estímulo hormonal e leva pelo menos 20 dias até a coleta. Muitas pacientes com câncer não têm esse tempo.

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    Foto: UOL · Fonte: UOL

    "Às vezes chegam mulheres e a gente ouve que a quimioterapia começa em três dias", diz Petta. Nesses casos, a alternativa é retirar fragmentos do ovário durante uma cirurgia rápida e congelá-los antes do tratamento.

    Já as crianças com câncer que ainda não menstruaram não têm outra saída, pois não produzem óvulos maduros. Para essas pacientes, afirma o ginecologista Edvaldo Cavalcante, da Clínica Genics, de reprodução assistida, a criopreservação de tecido ovariano é a única alternativa para preservar a fertilidade.

    Mulheres com endometriose que já vão passar por cirurgia no ovário também costumam aproveitar para congelar fragmentos com folículos, segundo Petta.

    A técnica também é indicada para histórico familiar de menopausa precoce, para quem fará transplante de células-tronco hematopoiéticas e para quem trata doenças autoimunes, como lúpus, com remédios que comprometem os ovários.

    A retirada acontece durante cirurgia, geralmente por videolaparoscopia, mas também pode ser feita por laparotomia ou cesárea. Os médicos removem cerca de um terço do ovário e preservam o restante.

    No laboratório, o tecido é separado em fragmentos pequenos, de cerca de um centímetro por um centímetro, e congelado por vitrificação, técnica rápida que reduz danos às células, diz o especialista em reprodução assistida Philip Wolff, da Clínica Genics. Já no congelamento de óvulos, a coleta é feita por punção guiada por ultrassom, sob sedação leve, sem necessidade de cirurgia.

    Quando a paciente decide usar o tecido ovariano, os fragmentos são reimplantados perto do ovário remanescente ou em outra região do corpo. Depois de revascularizado, ele volta a produzir hormônios e a liberar óvulos. Isso costuma ocorrer cerca de 19 semanas após o transplante, segundo diferentes estudos.

    O que os médicos esperam em breve, diz Cavalcante, é que após essa etapa a mulher consiga engravidar de forma espontânea, sem necessidade de fertilização in vitro . Atualmente, em parte, os médicos estimulam a ovulação e coletam os óvulos para fertilização.

    Uma revisão científica de 2022, publicada na revista Human Reproduction Update, reuniu dados de 568 mulheres e mostrou que a taxa de gravidez foi de aproximadamente 37%, e a taxa de nascimento com vida, de 28%. Cerca de 69% das gestações ocorreram sem fertilização in vitro.

    O tempo de funcionamento do tecido varia. A mediana foi de cerca de dois anos e meio, e tende a ser maior quanto mais jovem for a paciente na coleta.

    Um pequeno grupo de cinco mulheres que tiveram o material retirado antes dos 22 anos manteve atividade ovariana por seis a sete anos após o reimplante.

    Além da fertilidade, os médicos apostam que a técnica também poderá, no futuro, adiar a menopausa. A ideia é congelar tecido ovariano de mulheres jovens e reimplantá-lo décadas depois, próximo à idade em que a menopausa costuma ocorrer.

    Parte da motivação vem do aumento da expectativa de vida das mulheres. No passado, diz Cavalcante, a menopausa chegava perto dos 50 anos e a mulher vivia relativamente pouco tempo depois disso. Hoje, segundo ele, ela pode passar décadas nessa fase. "Eu preciso ter uma mulher ativa, funcional, tanto na cabeça quanto no físico", diz o médico.

    "A gente sonha com esse futuro. Se eu atraso essa menstruação de cinco a dez anos, imagina o ganho dela", diz Cavalcante. A vantagem, segundo ele, seria produzir hormônios de forma natural, sem reposição hormonal sintética.

    Um estudo de modelagem matemática de 2024 projetou atraso significativo da menopausa para mulheres com menos de 40 anos. Mas os autores tratam de simulação, não de ensaio clínico em mulheres saudáveis. Ou seja, essa é uma hipótese promissora, mas não comprovada clinicamente.

    Ainda não há dados robustos sobre efeitos de longo prazo na saúde óssea, no risco cardiovascular ou na cognição, afirma Cavalcante.

    No Brasil, a técnica ainda está em fase inicial e concentrada em poucos centros. O procedimento é regulado pela Anvisa por normas sobre congelamento de tecidos germinativos, as mesmas que valem para óvulos, embriões e espermatozoides, explica Petta.

    Já o uso da técnica para adiar a menopausa em mulheres saudáveis segue restrito à pesquisa clínica. Segundo parecer do CFM (Conselho Federal de Medicina) de 2021, isso só pode ocorrer dentro de protocolos aprovados pela rede brasileira de ética em pesquisa com seres humanos.

    Por enquanto, afirmam os especialistas, a criopreservação de tecido ovariano ainda não é o método mais recomendado para quem quer preservar a fertilidade sem urgência.

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    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/equilibrio/2026/08/congelamento-de-tecido-ovariano-preserva-fertilidade-de-meninas-com-cancer-e-mira-adiar-menopausa.shtml.

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    Esta foto, tirada com um celular, mostra uma técnica do banco de criopreservação do Hospital de Obstetrícia e Ginecologia de Pequim manipulando tecido ovariano no hospital, em Pequim, capital da China, em 27 de fevereiro de 2025. - Shen Ann — Foto: UOL

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