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    Conformismo formal limita drama ético do filme 'Precisamos Falar'

    Toda vez que uma frase começa por "precisamos falar", já sabemos que, em seguida, é enunciado um desarranjo que pode ser corrigido pela fala e pela escuta. Em "Precisamos Falar" existem, de fato, desarranjos -mas não são facilmente ajustáveis. Leia mais (09/23/2026 - 15h00)

    Folha de S.Paulo
    23 de setembro de 2026 às 18:00
    Conformismo formal limita drama ético do filme 'Precisamos Falar'
    A imagem mostra uma cena emocional entre três pessoas em um ambiente interno. Um jovem com cabelo cacheado e uma blusa cinza está de pé, olhando para baixo, enquanto uma mulher com cabelo longo e solto, vestindo uma blusa clara, coloca a mã — Foto: Folha de S.Paulo

    Expressa juízo de valor sobre a obra cultural comentada e destaca seus elementos positivos e negativos

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    Cena do filme 'Precisamos Falar', de Rebeca Diniz e Pedro Waddington - Divulgação Mostra Internacional de Cinema de SP · Divulgação Mostra Internacional de Cinema de SP
    Cena do filme 'Precisamos Falar', de Rebeca Diniz e Pedro Waddington - Divulgação Mostra Internacional de Cinema de SP · Divulgação Mostra Internacional de Cinema de SP — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Toda vez que uma frase começa por "precisamos falar", já sabemos que, em seguida, é enunciado um desarranjo que pode ser corrigido pela fala e pela escuta. Em "Precisamos Falar" existem, de fato, desarranjos —mas não são facilmente ajustáveis.

    Tudo começa por um grupo de adolescentes que, certa noite, no Rio de Janeiro, explode e, ao mesmo tempo, filma a cabine de um caixa eletrônico onde dormia uma mulher sem-teto , provocando sua morte.

    Já aí temos muito do que falar. Será que coisas como essa decorrem de falta de diálogo entre gerações? Mas logo vemos que essa é uma pergunta meio retórica.

    Veja cenas do filme 'Precisamos Falar'
    Veja cenas do filme 'Precisamos Falar' — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Há quase um século, desde "Juventude Transviada" , pelo menos, o conflito entre jovens e adultos é tão profundo que se reveste da impossibilidade de diálogo. Os pais não se perguntam como chegar aos filhos, mas em como controlá-los, de maneira a evitar que causem problemas, antes de tudo, a eles próprios.

    Existem aqui dois tipos de adolescentes. Michel, papel de Thiago Voltolini, é um playboyzinho desprezível, racista, egoísta e cretino. Já seus primos, Rick —Guilherme Cabral— e Jefferson —Cauê Campos—, crescem e experimentam a vida de maneira mais saudável.

    Michel é filho de Paulo — Alexandre Nero —, reacionário convicto, frustrado e inconformado com o próprio fracasso. Sua mulher, Sandra — Marjorie Estiano —, nutre pelo filho um amor meio desmedido e, quando o caso vira manchete de jornais, tudo que consegue fazer é imaginar um jeito de livrar a cara do menino.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Rick e Jefferson são filhos de Celso —Emílio de Melo—, um sujeito bem-sucedido e, por sinal, candidato ao governo do Rio, o que o coloca de cara numa sinuca. Se denunciar o fato, vai perder a eleição; se não denunciar, ficará mal com seus princípios e com sua mulher, Anna —Hermila Guedes.

    Digamos que o dilema entre ética e verdade, embora não seja novo, é bastante atual no país e que a abordagem de Pedro Waddington e Rebeca Diniz centra-se bem mais nele do que propriamente na ideia de que "precisamos falar". Até porque, nos dois casos, pais e filhos falam a mesma linguagem. Não existe grande desencontro entre eles.

    O que existe em comum é algo que os ultrapassa. Sejam de direita, de esquerda, todos ali pertencem a uma classe média alta, burguesa, que vive alienada do mundo que a cerca, que só concebe a existência de outro como apêndice —seus criados, por exemplo— ou anomalia —os sem-teto.

    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor
    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

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    Se têm um ponto de partida forte, o conformismo formal dos diretores, no entanto, parece se impor ao desejo de explorar questões decorrentes de uma sociedade quase de castas como a brasileira.

    O que se impõe a eles é a pouco ambiciosa ambição de simplesmente contar uma história direitinho, de dotar as personagens de um mínimo de verossimilhança, de dispô-las em cenários coerentes com sua idade e lugar, de criar o contraste entre casais, irmãos e primos de modo a deixar claro que falam em nome de princípios saudáveis —democráticos, antirracistas etc.

    Pode-se atribuir essa timidez formal às pressões próprias de uma estreia. Ao quase dever de buscar um público mais amplo, criando situações claras e acessíveis à compreensão de qualquer pessoa. Ou seja, à necessidade de ter seu filme distribuído.

    Com isso, a ênfase da direção parece ter ido menos às nuances capazes de desenvolver o potencial do argumento do que a valorizar o grupo de atores —de fato muito bem dirigido.

    O problema é que o que poderia ser um melodrama no sentido moderno da palavra — o de Fassbinder, por exemplo — acaba servindo às convenções cinematográficas, de que resulta uma mise-en-scène frouxa.

    Com razão, as mulheres poderão reclamar do lugar secundário que lhes reserva o filme. Dramas de mães e filhos envolvem sofrimento e grandeza. No caso, temos uma Anna frígida, que se move apenas pela razão protocolar, e uma Sandra que dedica a vida a um amor tão intenso quanto inconsequente por Michel, seu filho e jovem marginal.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/09/conformismo-formal-limita-drama-etico-do-filme-precisamos-falar.shtml.

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    Cena do filme 'Precisamos Falar', de Rebeca Diniz e Pedro Waddington - Divulgação Mostra Internacional de Cinema de SP · Divulgação Mostra Internacional de Cinema de SP — Foto: Folha de S.Paulo

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