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    Como pequena cidade do Quênia virou o paraíso da corrida de longa distância

    Conhecida como a "casa dos campeões", Iten viu turismo de atletas profissionais e amadores explodir nos últimos anos, muitos em busca dos treinos na altitude e expertise dos locais

    CNN Brasil
    9 de outubro de 2026 às 07:00
    Como pequena cidade do Quênia virou o paraíso da corrida de longa distância
    Foto: CNN Brasil

    O empresário português Pedro Queirós poderia passar as férias descansando em uma praia com a família. Em vez disso, desde 2021, ele passa pelo menos um mês por ano em um centro de treinamento em uma pequena cidade do Quênia.

    Lá, ele corre algumas horas por dia a cerca de 2.400 metros de altitude. “Sou um corredor amador, não tenho patrocinadores, não sou pago”, disse à CNN o empresário de 45 anos.

    “Mas eu amo o esporte, e o Quênia é o único lugar que me dá a oportunidade de me tornar o atleta que sempre sonhei ser.”

    Influenciadora usa bicicleta durante Maratona de Berlim e é desclassificada
    Influenciadora usa bicicleta durante Maratona de Berlim e é desclassificada — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil

    A paixão de Queirós pela corrida é uma história que muita gente vai reconhecer. Ele correu sua primeira prova de 5 km há uma década e se apaixonou. Aumentou as distâncias, passou a ler sobre a história do esporte, pesquisou nutrição e comprou um relógio com GPS.

    No fim da pandemia de Covid, enquanto se preparava para a Maratona de Londres, ele ficou curioso com uma cidade queniana sobre a qual havia lido: Iten.

    Corredores quenianos somam 38 medalhas de ouro olímpicas, a maioria em provas de longa distância . Alguns dos melhores treinaram em Iten.

    Alison dos Santos concorre ao prêmio de Atleta do Ano pela World Athletics
    Alison dos Santos concorre ao prêmio de Atleta do Ano pela World Athletics — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil

    “Comecei a ficar curioso”, contou Queirós. “O que eles fazem de diferente na África? E o que é preciso para ser um campeão?”

    Bastou uma estadia no centro de treinamento para responder à pergunta. Segundo ele, após seis semanas no High-Altitude Training Center de Iten , seu desempenho melhorou drasticamente, e seu tempo na maratona caiu para respeitáveis 2h38.

    É o motivo pelo qual ele voltou oito vezes desde então, sempre antes de um desafio físico, seja uma prova de longa distância ou a escalada de alguns dos picos mais altos do mundo.

    Etíope sofre com cãibras e perde chance de bater recorde mundial em Berlim
    Etíope sofre com cãibras e perde chance de bater recorde mundial em Berlim — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil

    É esse tipo de impacto no desempenho que rendeu a Iten o apelido de “casa dos campeões”.

    Hoje, o High-Altitude Training Center é um pequeno campus com alojamento, academia, piscina, sauna, pista de asfalto privativa e natureza por todos os lados. Recebe até 90 pessoas na alta temporada, metade delas visitantes internacionais.

    É um dos cerca de doze centros de treinamento hoje existentes em Iten, mas, quando foi inaugurado, era pioneiro.

    Influenciadora usa bicicleta durante Maratona de Berlim e é desclassificada
    Influenciadora usa bicicleta durante Maratona de Berlim e é desclassificada — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil

    “Quando pensei em abrir o centro de treinamento, em 1997, não havia nada em Iten”, disse a fundista e três vezes olímpica Lornah Kiplagat sobre o antigo posto agrícola, a cerca de 320 km a noroeste de Nairóbi. “Nenhum hotel, nenhuma estrada e, certamente, nenhum turista.”

    Na época, a nativa do Vale do Rift tinha 23 anos e acabava de começar a competir no exterior. Naquele mesmo ano, venceu a Maratona de Los Angeles, os 25 km de Berlim, a Greifenseelauf de Zurique, a Boilermaker Road Race, nos EUA, e a Tilburg Ten Miles, na Holanda.

    Ela treinava em vários lugares, de Albuquerque, no Novo México, a Davos, na Suíça. “Percebi que, objetivamente, não havia lugar melhor para treinar do que em casa”, afirmou.

    Alison dos Santos concorre ao prêmio de Atleta do Ano pela World Athletics
    Alison dos Santos concorre ao prêmio de Atleta do Ano pela World Athletics — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil

    A altitude de Iten fica bem acima dos cerca de 1.800 metros de algumas das bases de treinamento em altitude mais famosas do mundo, o que força o corpo a se adaptar a menores níveis de oxigênio e melhora drasticamente a resistência e o fôlego.

    O clima tem média de cerca de 18 graus Celsius ao longo de todo o ano, e o terreno é desafiador, mas bonito.

    Em 1999, Kiplagat inaugurou o centro de treinamento e convidou alguns colegas locais para treinar com ela nas famosas estradas de terra vermelha de Iten.

    Etíope sofre com cãibras e perde chance de bater recorde mundial em Berlim
    Etíope sofre com cãibras e perde chance de bater recorde mundial em Berlim — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil

    Ela também abriu o centro a meninas quenianas, para incentivá-las a começar a correr, mesmo que de forma casual, em um espaço seguro.

    “Como grupo, estávamos vencendo grandes competições, e a mídia ocidental começou a se perguntar onde treinávamos”, contou. “É claro que mencionamos o High-Altitude Training Center. A maioria nunca tinha ouvido falar dele.”

    “Foi assim, passo a passo, que ficamos conhecidos mundialmente por produzir alguns dos melhores fundistas do mundo.”

    Desde 2004, o centro está aberto a atletas internacionais, incluindo a britânica Paula Radcliffe, três vezes vencedora da Maratona de Londres, e os medalhistas de ouro olímpicos Mo Farah e Sifan Hassan.

    Mas foi preciso uma pandemia global para transformar de fato o centro em um destino mundial. Os lockdowns da Covid-19 levaram a uma explosão de popularidade da corrida.

    Depois disso, as “runcations” e “race-cations” decolaram, com corredores viajando cada vez mais ao exterior especificamente para correr. Hotéis e negócios se adaptaram, e Kiplagat também.

    “A corrida ficou tão popular que recebíamos muitos pedidos também de corredores recreativos. Então decidimos abrir as portas para eles”, disse ela.

    O mesmo fez o resto da cidade. Comparada à época em que abriu o centro, Iten está irreconhecível hoje, segundo Kiplagat.

    Queirós acompanhou as mudanças nos últimos cinco anos: “A única coisa que não mudou é a altitude. A cidade é maior, mais movimentada, e as pessoas que vêm treinar são muito mais diversas.”

    Hoje, hospedar-se no HATC, com acesso à academia, à pista e à sauna, custa cerca de 50 euros (R$ 295) por dia. Alguns preferem seguir o próprio programa ou treinar gratuitamente com outros grupos de atletas.

    Pessoas como Queirós preferem pagar pelos treinadores e pelos pacers do centro, por cerca de 5 euros (R$ 30) por sessão. O local tem cinco treinadores em período integral e uma ampla rede de pacers pela cidade.

    Segundo números compilados pela ex-acadêmica e hoje oficial de meio ambiente Joyce Kenei, o número anual de turistas esportivos em Iten subiu de cerca de 300, em 2010, para mais de 3 mil em 2025.

    Em torno deles, cresceu toda uma economia de turismo esportivo: campos de treinamento, hospedagem, negócios e serviços de apoio.

    As marcas esportivas também descobriram o potencial de Iten. A Kiprun, marca de corrida da Decathlon, abriu a 42 House, uma estrutura residencial de treinamento que apoia corredores de elite.

    Metade dos centros de treinamento fundados em Iten desde a abertura do HATC foi criada por estrangeiros, disse Kenei à CNN.

    Kiplagat, porém, mantém os pés no chão em seu modelo, um dos únicos, segundo ela, que retribui algo à cidade. O centro já treinou quase 300 estudantes locais gratuitamente, muitos dos quais conquistaram bolsas integrais em universidades da Ivy League, nos EUA.

    “Construímos um sistema que é igualmente acolhedor para moradores locais e estrangeiros e que realmente leva todos a darem o melhor de si”, disse ela.

    “A mídia ocidental mostra a parte caótica do país”, acrescentou. “Mas tenho muito orgulho do Quênia e adoro o papel que o High Altitude Training Center desempenha ao mostrar o Quênia aos viajantes.”

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    Publicado originalmente por CNN Brasil. Leia a matéria completa em https://www.cnnbrasil.com.br/esportes/outros-esportes/como-pequena-cidade-do-quenia-virou-o-paraiso-da-corrida-de-longa-distancia/.

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