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    Como livro sobre assassinato de Tupac Shakur levou autor a julgamento décadas depois

    Mais de duas décadas após o assassinato do rapper Tupac Shakur , um livro de memórias publicado de maneira independente por uma figura à margem do hip-hop prometia contar a história "real" de um caso que há muito fascinava o público e frustrava as autoridades policiais. Leia mais (08/11/2026 - 10h11)

    Folha de S.Paulo
    11 de agosto de 2026 às 13:11
    Como livro sobre assassinato de Tupac Shakur levou autor a julgamento décadas depois
    O rapper Tupac Shakur durante o MTV Music Video Awards, em Nova York, em 1996 — Foto: Folha de S.Paulo

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    Mais de duas décadas após o assassinato do rapper Tupac Shakur , um livro de memórias publicado de maneira independente por uma figura à margem do hip-hop prometia contar a história "real" de um caso que há muito fascinava o público e frustrava as autoridades policiais.

    O rapper Tupac Shakur durante o MTV Music Video Awards, em Nova York, em 1996 - Reuters · Reuters
    O rapper Tupac Shakur durante o MTV Music Video Awards, em Nova York, em 1996 - Reuters · Reuters — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    "Sou uma das únicas testemunhas oculares ainda vivas do assassinato de Tupac", dizia a introdução do livro de Duane Keith Davis , publicado em 2019.

    Intitulado " Compton Street Legend ", o livro retratava Davis como um dos chefões dos South Side Compton Crips, uma das gangues envolvidas na rivalidade entre as costas leste e oeste que marcou o hip-hop na década de 1990. Davis, conhecido pelo apelido de Keffe D , é identificado nas páginas como o homem que conseguiu a arma e perseguiu Shakur num ato de vingança que culminou em um ataque a tiros cometido por um de seus comparsas, perto da Las Vegas Strip, em setembro de 1996.

    No início, o livro, publicado com um coautor, atraiu pouca atenção fora dos círculos online dedicados às histórias do hip-hop e a crimes reais. Mas um detetive do Departamento de Polícia Metropolitana de Las Vegas, designado para reexaminar o caso arquivado, percebeu sua importância.

    Conheça o rapper americano Tupac Shakur
    Conheça o rapper americano Tupac Shakur — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Discretamente, o detetive trabalhou para montar o caso. Em 2023, leu em voz alta trechos do livro para um grande júri, que acabou indiciando Davis por uma acusação de homicídio pela morte de Shakur. Davis, de 63 anos, declarou-se inocente e negou qualquer envolvimento.

    Agora, com o início da seleção do júri para o julgamento de Davis, o livro está no centro de um caso em que investigadores não conseguiram localizar outras provas fundamentais, como a arma do crime ou o carro em que o atirador estava.

    Os trechos do livro são, como afirmam os promotores, uma confissão feita porque Davis acreditava, equivocadamente, ter imunidade total contra processos? Ou, como a defesa deverá argumentar, seriam um relato fictício inventado para dar lucro?

    Entenda a linha do tempo do caso de Sean 'Diddy' Combs
    Entenda a linha do tempo do caso de Sean 'Diddy' Combs — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Os advogados de Davis provavelmente destacarão até que ponto o exagero e a autopromoção fazem parte do ecossistema do hip-hop, em que a credibilidade nas ruas muitas vezes se traduz em lucros e um entrevistado de podcast pode ganhar dezenas de milhares de dólares.

    Rappers frequentemente assumem, em músicas, a autoria de atos violentos que não cometeram, disse Lucius Outlaw III, professor de Direito da Universidade Howard que trabalha para impedir o uso indevido de letras de rap em processos criminais. Mas um livro de memórias promovido como inteiramente autêntico provavelmente será encarado de maneira muito diferente, afirmou.

    "Acho que Davis e seus advogados estão em uma situação realmente difícil", disse Outlaw, "porque há uma grande diferença quando se afirma que este é um livro de memórias baseado nas experiências da própria vida."

    Coroa dourada de Notorious B.I.G. é vendida no primeiro leilão dedicado ao hip-hop
    Coroa dourada de Notorious B.I.G. é vendida no primeiro leilão dedicado ao hip-hop — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    "Compton Street Legend", cujas páginas trazem marcas-d’água de buracos de bala, foi promovido como uma espécie de thriller de gângster sobre a vida de alguém que conviveu com gigantes do hip-hop da década de 1990, entre eles dois magnatas do rap que se tornaram rivais: Sean 'Diddy' Combs e Marion Knight , conhecido como Suge.

    O livro aborda duas das maiores tragédias da história do hip-hop: o assassinato de Shakur, seguido, meses depois, pelo assassinato de Notorious B.I.G.

    E, para os investigadores, que não conseguiram encontrar a pistola Glock calibre .40 usada para matar Shakur nem o Cadillac branco em que Davis e três comparsas supostamente estavam, o livro tornou-se uma prova essencial.

    Duane Davis durante o primeiro dia da seleção do júri que irá julgar a morte do rapper Tupac Shakur, que aconteceu em 1996, no Tribunal Distrital de Clark, em Las Vegas, nos Estados Unidos - David Becker - 7.set.26/AFP · David Becker - 7.se
    Duane Davis durante o primeiro dia da seleção do júri que irá julgar a morte do rapper Tupac Shakur, que aconteceu em 1996, no Tribunal Distrital de Clark, em Las Vegas, nos Estados Unidos - David Becker - 7.set.26/AFP · David Becker - 7.se — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Os outros três homens, que inicialmente se recusaram a colaborar com a polícia ou negaram envolvimento, morreram desde então.

    Quando o livro de 215 páginas veio à tona, os investigadores passaram a ter o que Davis apresentava como sua lembrança do papel central que desempenhara no assassinato de Shakur. O livro diz que "os fogos de artifício começaram" depois que ele viu Shakur abaixar-se para pegar o que imaginou ser uma arma.

    "Um dos meus caras no banco de trás pegou a Glock e começou a mandar bala de volta", diz o livro na página 105.

    Mural com desenho em homenagem a Tupac Shakur, na Califórnia, nos Estados Unidos - Mike Blake - 10.ago.26/Reuters · Mike Blake - 10.ago.26/Reuters
    Mural com desenho em homenagem a Tupac Shakur, na Califórnia, nos Estados Unidos - Mike Blake - 10.ago.26/Reuters · Mike Blake - 10.ago.26/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O advogado de Davis tentou, sem sucesso, impedir que o livro fosse admitido no julgamento. Em uma tentativa de afastar Davis da pessoa retratada nas páginas, a defesa citou uma entrevista feita pela polícia com o homem identificado como coautor, Yusuf Jah.

    Jah disse aos investigadores que havia escrito o livro inteiro, com base em conversas com Davis, segundo uma transcrição da entrevista. Em alguns momentos, afirmou Jah, Davis relatava informações que tinha ouvido de outras pessoas. Jah reconheceu que havia "improvisado" algumas partes.

    Quando enviou os rascunhos a Davis antes da publicação, disse ele, o biografado não sugeriu nenhuma alteração. "Sinceramente, acho que ele nem leu", disse Jah aos investigadores.

    Homem negro de meia-idade com camisa azul clara e gravata azul com padrão, sentado e com a mão direita na cabeça, olhando para o lado em ambiente interno.
    Homem negro de meia-idade com camisa azul clara e gravata azul com padrão, sentado e com a mão direita na cabeça, olhando para o lado em ambiente interno. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Em um julgamento que deverá durar cerca de um mês no Tribunal Distrital do Condado de Clark, em Las Vegas, os jurados ouvirão relatos sobre a rivalidade entre gravadoras e as hostilidades entre gangues que serviram de pano de fundo para a morte de Shakur, em 1996.

    Naquele verão, as tensões entre a Bad Boy Records , gravadora de Combs sediada em Nova York, e a Death Row Records , de Knight, em Los Angeles —com a qual Shakur acabara de assinar um contrato— chegaram ao ponto de ebulição. Ambas recorriam a gangues rivais para fazer sua segurança na Costa Oeste, e a rivalidade acabou se misturando às disputas entre os Crips e os Bloods da região.

    Em setembro, quando os dois lados foram parar em Las Vegas para uma luta profissional de Mike Tyson , o que deveria ser um fim de semana de festa transformou-se em violência. Enquanto o público deixava a arena, Shakur e um grupo de Bloods atacaram Orlando Anderson, sobrinho de Davis, dando-lhe socos e chutes em público.

    Mural em tons de cinza na parede externa de um prédio mostra retratos realistas dos rappers Snoop Dogg e Tupac Shakur, com um carro clássico estilizado abaixo. Um veículo branco está estacionado em frente ao mural, parcialmente bloqueando a
    Mural em tons de cinza na parede externa de um prédio mostra retratos realistas dos rappers Snoop Dogg e Tupac Shakur, com um carro clássico estilizado abaixo. Um veículo branco está estacionado em frente ao mural, parcialmente bloqueando a — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Mais tarde naquela noite, Shakur estava em uma BMW preta dirigida por Knight quando outro carro emparelhou e alguém em seu interior abriu fogo. Shakur, de 25 anos, foi atingido quatro vezes e morreu no hospital dias depois.

    Após o ataque, espalhou-se a notícia de que o sobrinho de Davis, em busca de vingança, havia matado Shakur. Anderson, porém, negou repetidamente, e poucas testemunhas aceitaram colaborar com a polícia.

    Em 2008 e 2009, os investigadores convenceram Davis a falar em detalhes sobre o que havia acontecido. Davis já havia passado anos na prisão por condenações relacionadas a entorpecentes, e a polícia o persuadiu a falar —e, posteriormente, a tornar-se informante confidencial— sob a ameaça de novas acusações.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Davis disse aos investigadores que o assassinato de Shakur não havia sido apenas um ato de retaliação entre gangues, mas resultado de um pedido de Combs, que cumpre pena de prisão por uma condenação voltada à prostituição e há muito nega ligações com a morte de Shakur.

    Os investigadores não tentaram processar Davis porque haviam concordado que as informações fornecidas por ele não poderiam ser usadas contra ele no futuro.

    Mas uma nova equipe de investigadores adotou uma posição diferente depois que Davis concedeu uma entrevista para uma série documental da BET, em 2018, e depois publicou e promoveu o livro de memórias. Nele, Davis afirmou sentir um "profundo remorso" e, ao mesmo tempo, vangloriou-se: "Tupac era um peixinho que foi engolido por tubarões ferozes."

    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor
    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

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