Brasil

    Como eu me tornei a velha do legado

    Em 2025 gravei um vídeo para o Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) sobre "Legados que transformam". Leia mais (09/28/2026 - 23h00)

    Folha de S.Paulo
    29 de setembro de 2026 às 02:00
    Como eu me tornei a velha do legado
    Duas figuras femininas estilizadas em cores vibrantes estão próximas a uma árvore roxa com copa azul. Uma delas, à esquerda, segura um copo vermelho elevado; a outra, à direita, segura uma folha branca e uma caneta azul. Acima da árvore, há — Foto: Folha de S.Paulo

    Antropóloga e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é autora de "A Invenção de uma Bela Velhice"

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    Claudia Liz/Folhapress · Claudia Liz/Folhapress
    Claudia Liz/Folhapress · Claudia Liz/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Em 2025 gravei um vídeo para o Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) sobre "Legados que transformam".

    No roteiro havia uma pergunta que acabou mudando a minha vida: "Por que falar de legado? Porque estamos vivendo mais, e com essa longevidade vem também a oportunidade de construir algo que seja impactante para a gente e para a humanidade. Viver mais, mudar o mundo: como a longevidade nos convida a deixar um legado".

    No meu vídeo, destaquei que milhões de crianças e adolescentes que o Unicef apoia no Brasil serão os velhos de amanhã.

    Nova geração de idosos reinventa a velhice
    Nova geração de idosos reinventa a velhice — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    No dia 21 de julho de 2026, fui convidada para ser Apoiadora de Alto Perfil do Unicef. Aceitei imediatamente, com muita alegria e empolgação. Quero, junto com o Unicef, lutar para que as crianças e adolescentes brasileiros tenham direitos, oportunidades e a possibilidade de construir a própria "bela velhice".

    Naquela noite, sonhei que estava grávida. Feliz e orgulhosa, caminhava segurando, com muita delicadeza, a barriguinha que começava a desabrochar.

    No sonho, perguntei para mim mesma: "Mirian, agora, além de ser uma velha sem vergonha , uma antropóloga malcomportada e a primeira representante da Mônica 60+ , você vai ser também a velha do legado?"

    Ter um propósito de vida ajuda a envelhecer de maneira mais saudável
    Ter um propósito de vida ajuda a envelhecer de maneira mais saudável — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Quando acordei, tive uma pequena epifania: eu estava grávida do meu legado.

    Depois da pergunta "Por que falar de legado?", comecei a organizar meu patrimônio material e imaterial. Além dos muitos livros, diários, colunas, vídeos, entrevistas, aulas, palestras e conferências, estou construindo a Casa da Bela Velhice.

    Ainda tenho muito mais perguntas do que respostas: qual é o meu legado? Minha paixão pela antropologia? Minha arte de pesquisar? Meus alunos e alunas? Meus livros? Meus diários? Minha luta contra a velhofobia? Minha obsessão de inventar uma "bela velhice"? Meu amor incondicional pelas "crianças de mais idade"?

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Uma frase de Rubem Alves me ajudou a pensar no meu legado: "Lutam melhor os que têm sonhos belos. Somente aqueles que contemplam a beleza são capazes de endurecer ‘sem nunca perder a ternura’. Guerreiros ternos. Guerreiros que leem poesia. Guerreiros que brincam como crianças."

    Como uma guerreira que brinca como criança , o que mais me rouba o sono é não saber se o meu legado irá transformar o mundo das crianças de hoje, que serão os velhos de amanhã.

    No meu legado, quero deixar o desejo de criar, escrever, pesquisar, pensar, ensinar, aprender, inventar, escutar, brincar, cuidar das nossas crianças e também dos nossos velhos.

    Quero deixar a ideia de que não há um único caminho para ser criança, ser adolescente, ser jovem, ser adulto, ser velho. E de que é preciso ter coragem e autonomia para não obedecer às prisões que limitam como devemos viver em cada idade.

    Quero deixar a certeza de que envelhecer não é chegar ao fim, mas uma brincadeira a ser inventada no dia a dia. E que é possível construir uma "bela velhice", com o saber e o sabor de sua invenção.

    Discussões, notícias e reflexões pensadas para mulheres

    Quero deixar meu amor incondicional pelas "crianças de mais idade".

    Quero deixar a Casa da Bela Velhice: um lugar para ensinar a amar, brincar e "escutar bonito", mostrando que é possível envelhecer sem perder a criança que nunca deixamos de ser.

    Estou construindo um legado para manter vivos meus projetos e sonhos de mudar o mundo. Se isso permanecer, terei encontrado a forma mais bonita de não desaparecer.

    Neste 1º de outubro, Dia Internacional das Pessoas Idosas, acabou de nascer a velha do legado.

    Qual é o mundo que você quer deixar para os velhos de amanhã?

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/miriangoldenberg/2026/09/como-eu-me-tornei-a-velha-do-legado.shtml.

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    Claudia Liz/Folhapress · Claudia Liz/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo

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