Como eu me tornei a velha do legado
Em 2025 gravei um vídeo para o Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) sobre "Legados que transformam". Leia mais (09/28/2026 - 23h00)

Antropóloga e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é autora de "A Invenção de uma Bela Velhice"
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Em 2025 gravei um vídeo para o Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) sobre "Legados que transformam".
No roteiro havia uma pergunta que acabou mudando a minha vida: "Por que falar de legado? Porque estamos vivendo mais, e com essa longevidade vem também a oportunidade de construir algo que seja impactante para a gente e para a humanidade. Viver mais, mudar o mundo: como a longevidade nos convida a deixar um legado".
No meu vídeo, destaquei que milhões de crianças e adolescentes que o Unicef apoia no Brasil serão os velhos de amanhã.

No dia 21 de julho de 2026, fui convidada para ser Apoiadora de Alto Perfil do Unicef. Aceitei imediatamente, com muita alegria e empolgação. Quero, junto com o Unicef, lutar para que as crianças e adolescentes brasileiros tenham direitos, oportunidades e a possibilidade de construir a própria "bela velhice".
Naquela noite, sonhei que estava grávida. Feliz e orgulhosa, caminhava segurando, com muita delicadeza, a barriguinha que começava a desabrochar.
No sonho, perguntei para mim mesma: "Mirian, agora, além de ser uma velha sem vergonha , uma antropóloga malcomportada e a primeira representante da Mônica 60+ , você vai ser também a velha do legado?"

Quando acordei, tive uma pequena epifania: eu estava grávida do meu legado.
Depois da pergunta "Por que falar de legado?", comecei a organizar meu patrimônio material e imaterial. Além dos muitos livros, diários, colunas, vídeos, entrevistas, aulas, palestras e conferências, estou construindo a Casa da Bela Velhice.
Ainda tenho muito mais perguntas do que respostas: qual é o meu legado? Minha paixão pela antropologia? Minha arte de pesquisar? Meus alunos e alunas? Meus livros? Meus diários? Minha luta contra a velhofobia? Minha obsessão de inventar uma "bela velhice"? Meu amor incondicional pelas "crianças de mais idade"?

Uma frase de Rubem Alves me ajudou a pensar no meu legado: "Lutam melhor os que têm sonhos belos. Somente aqueles que contemplam a beleza são capazes de endurecer ‘sem nunca perder a ternura’. Guerreiros ternos. Guerreiros que leem poesia. Guerreiros que brincam como crianças."
Como uma guerreira que brinca como criança , o que mais me rouba o sono é não saber se o meu legado irá transformar o mundo das crianças de hoje, que serão os velhos de amanhã.
No meu legado, quero deixar o desejo de criar, escrever, pesquisar, pensar, ensinar, aprender, inventar, escutar, brincar, cuidar das nossas crianças e também dos nossos velhos.
Quero deixar a ideia de que não há um único caminho para ser criança, ser adolescente, ser jovem, ser adulto, ser velho. E de que é preciso ter coragem e autonomia para não obedecer às prisões que limitam como devemos viver em cada idade.
Quero deixar a certeza de que envelhecer não é chegar ao fim, mas uma brincadeira a ser inventada no dia a dia. E que é possível construir uma "bela velhice", com o saber e o sabor de sua invenção.
Discussões, notícias e reflexões pensadas para mulheres
Quero deixar meu amor incondicional pelas "crianças de mais idade".
Quero deixar a Casa da Bela Velhice: um lugar para ensinar a amar, brincar e "escutar bonito", mostrando que é possível envelhecer sem perder a criança que nunca deixamos de ser.
Estou construindo um legado para manter vivos meus projetos e sonhos de mudar o mundo. Se isso permanecer, terei encontrado a forma mais bonita de não desaparecer.
Neste 1º de outubro, Dia Internacional das Pessoas Idosas, acabou de nascer a velha do legado.
Qual é o mundo que você quer deixar para os velhos de amanhã?
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/miriangoldenberg/2026/09/como-eu-me-tornei-a-velha-do-legado.shtml.

Claudia Liz/Folhapress · Claudia Liz/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo
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