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    Como estudante vítima de estupro fez vergonha virar luta por justiça nos EUA

    Em outubro de 2024, cerca de uma semana depois de uma festa da fraternidade Chi Phi na Universidade Cornell, a estudante do segundo ano que viria a ser conhecida como Jane Doe -nome genérico usado em processos judiciais para omitir a identidade de uma mulher nos EUA- navegava por um fórum online sobre fraternidades universitárias quando se deparou com uma publicação que a deixou paralisada. Leia mais (10/02/2026 - 04h00)

    Folha de S.Paulo
    2 de outubro de 2026 às 07:00
    Como estudante vítima de estupro fez vergonha virar luta por justiça nos EUA
    Casa branca com estrutura de madeira preta em estilo enxaimel, com porta de madeira central e pequena varanda coberta. Vegetação verde e árvores com folhas amarelas enquadram a imagem, indicando outono. — Foto: Folha de S.Paulo

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    Em outubro de 2024, cerca de uma semana depois de uma festa da fraternidade Chi Phi na Universidade Cornell, a estudante do segundo ano que viria a ser conhecida como Jane Doe —nome genérico usado em processos judiciais para omitir a identidade de uma mulher nos EUA— navegava por um fórum online sobre fraternidades universitárias quando se deparou com uma publicação que a deixou paralisada.

    Sede da fraternidade Chi Phi da Universidade Cornell em Ithaca, Nova York - Lauren Petracca - 29.set.2026/Reuters · Lauren Petracca - 29.set.2026/Reuters
    Sede da fraternidade Chi Phi da Universidade Cornell em Ithaca, Nova York - Lauren Petracca - 29.set.2026/Reuters · Lauren Petracca - 29.set.2026/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    "Os irmãos da Chi Phi são Crips ou Bloods? Porque ouvi dizer que eles andam fazendo um baita gang bang", escreveu alguém. "Eles usam drogas e estupraram uma estudante do segundo ano em grupo", disse outro usuário. "Denunciem."

    Desde a noite que começou em 19 de outubro de 2024, Jane Doe vinha relatando os acontecimentos às colegas de quarto sem se identificar como vítima de estupro . Havia trocado mensagens amistosas com homens que mais tarde acusaria de agressão sexual. E ouvira avaliações nada elogiosas sobre si mesma vindas de estudantes fofoqueiros.

    "Foi a primeira vez que ouvi a narrativa mudar: eu não era uma vadia, eu havia sido agredida", disse Jane Doe aos investigadores, segundo documentos de uma análise das acusações feita pela universidade e obtida pelo New York Times.

    Como denunciar casos de violência contra a mulher
    Como denunciar casos de violência contra a mulher — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

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    Esses registros, até então inéditos, ajudam a esclarecer um caso que horrorizou o país e mergulhou uma de suas instituições de elite em uma crise. Eles lançam luz sobre as três semanas cruciais entre a festa da fraternidade e a decisão de Jane Doe de levar seu relato à polícia do campus, acusando vários membros da fraternidade de agressão sexual e afirmando que foi coagida a consumir cetamina.

    Os fatos básicos do que ocorreu depois que ela fez as acusações já são bem conhecidos: o promotor do condado de Tompkins, em Nova York , Matthew Van Houten, analisou a denúncia e decidiu não apresentar acusações criminais, afirmando que não havia provas suficientes para isso.

    Estação de polícia no campus da Universidade Cornell, em Ithaca, Nova York - Spencer Platt - 29.set.2026/Getty Images via AFP · Spencer Platt - 29.set.2026/Getty Images via AFP
    Estação de polícia no campus da Universidade Cornell, em Ithaca, Nova York - Spencer Platt - 29.set.2026/Getty Images via AFP · Spencer Platt - 29.set.2026/Getty Images via AFP — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Jane Doe apresentou uma queixa que levou a pelo menos uma dúzia de audiências perante o comitê do Título 9 (legislação federal que proíbe discriminação sexual) da universidade, responsável por garantir o cumprimento das leis federais de direitos civis.

    Em 16 de setembro, Jane Doe também abriu um processo contra sete homens, acusando-os de agressão sexual. Advogados de pelo menos três dos acusados negaram, em linhas gerais, qualquer conduta criminosa; os demais ainda não se pronunciaram publicamente.

    O que não era de conhecimento público até agora eram os documentos detalhados reunidos durante as investigações sob sigilo. São centenas de páginas de e-mails, mensagens de texto, fotografias e entrevistas com Jane Doe, suas amigas e aqueles a quem ela acusou.

    Campus de Corneel, onde a estudante alegou ter sido drogada e vítima de estupro coletivo - Spencer Platt - 29.set.2026/Getty Images via AFP · Spencer Platt - 29.set.2026/Getty Images via AFP
    Campus de Corneel, onde a estudante alegou ter sido drogada e vítima de estupro coletivo - Spencer Platt - 29.set.2026/Getty Images via AFP · Spencer Platt - 29.set.2026/Getty Images via AFP — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Em conjunto, esse material bruto traça a trajetória de Jane Doe, de uma anônima estudante do segundo ano à personificação de mais um doloroso debate sobre agressão sexual e consentimento. (Embora Jane Doe seja identificada nos documentos, o New York Times optou por omitir seu nome.)

    Algumas mulheres próximas a ela, mostram os documentos, não demoraram a dizer que consideravam os acontecimentos da noite de 19 de outubro uma agressão sexual. Mas Jane Doe, revelam as entrevistas e mensagens de texto, a princípio pareceu lidar com vergonha, humilhação e preocupações com sua reputação antes de passar a se considerar vítima de agressão.

    "Não me lembro de ela ter mencionado em nenhum momento que havia dito sim a qualquer coisa que aconteceu", disse uma de suas colegas de quarto sobre as primeiras horas depois que Jane Doe voltou para casa na manhã de 20 de outubro, segundo os arquivos, compilados como parte do processo formal da universidade para investigar denúncias de assédio e agressão sexual.

    Alunos do colégio Pedro 2º protestam no RJ contra assédio e violência sexual
    Alunos do colégio Pedro 2º protestam no RJ contra assédio e violência sexual — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Página após página, os documentos são difíceis de ler, oscilando entre as conversas típicas dos universitários —comentários sobre academia, Snapchat e fraternidades— e os detalhes brutais de uma suposta agressão em grupo que a vítima parecia tentar assimilar em tempo real.

    Desde o início, o caso pareceu servir também como um referendo sobre tantas questões perturbadoras a respeito do que significa ser uma jovem mulher em um campus universitário, até mesmo em um campus de prestígio como o de Cornell: em quem se acredita e quem é protegido? Até que ponto o Título 9 ajudou? Alguma coisa realmente mudou?

    Para Jane Doe, sugerem os registros, a primeira tarefa foi compreender o que havia acontecido com ela.

    Placa iluminada com texto "CORNELL POLICE" em azul fixada em parede de pedra. Pessoa caminha em primeiro plano segurando celular.
    Placa iluminada com texto "CORNELL POLICE" em azul fixada em parede de pedra. Pessoa caminha em primeiro plano segurando celular. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Às 3h05 de 20 de outubro de 2024, uma das colegas de quarto de Jane Doe lhe enviou uma mensagem.

    "Você vem para casa hoje à noite?", perguntou. Quatro minutos depois, Jane Doe respondeu que não sabia.

    A colega foi dormir, contaria ela aos investigadores. Quando acordou, às 11h, publicou no Snapchat uma foto do quarto vazio. "Só eu consegui voltar para casa", escreveu na publicação.

    Cinco estudantes com mochilas caminham em calçada de campus universitário ao entardecer. Ao fundo, prédio histórico de pedra com torre alta sob céu azul escuro com nuvens.
    Cinco estudantes com mochilas caminham em calçada de campus universitário ao entardecer. Ao fundo, prédio histórico de pedra com torre alta sob céu azul escuro com nuvens. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Por volta das 11h15, segundo ela, Jane Doe chegou em casa, ainda usando as "botas longas e o vestido curto" da noite anterior. Tinha consumido cetamina e mantido relações sexuais com vários homens, contou às duas colegas de quarto. Uma delas disse aos investigadores que Jane Doe ainda não usava as palavras "estupro" ou "agressão".

    Parecia que ela estava "em estado de choque", disse mais tarde a outra colega aos investigadores, "sem compreender de verdade a gravidade do que dizia".

    No dia seguinte, 21 de outubro, Jane Doe procurou sua "irmã mais velha" —uma mulher designada como mentora— na fraternidade feminina Tri Delta, de Cornell, e contou que circulavam boatos de que ela era uma "vadia". A irmã mais velha, estudante do terceiro ano, disse aos investigadores que Jane Doe acrescentou, rindo, que "infelizmente, eram verdade".

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    "Eu percebia, só com base em experiências pessoais, que ela ainda não havia assimilado o que tinha acontecido ", disse a irmã mais velha aos investigadores.

    Naquele mesmo dia, Jane Doe recebeu uma mensagem de texto de Jonathan Newell, um dos homens que ela viria a acusar de agressão sexual.

    "Eu só queria pedir desculpas por como as coisas aconteceram na outra noite", escreveu Newell. Em seguida, disse que ele e Matthew Ingalls, outro homem que ela mais tarde acusaria de agressão, se sentiam péssimos por estarem alterados demais por drogas e álcool para "interromper tudo e mandar as pessoas embora antes que a situação saísse completamente do controle".

    An Italian passport with a smartphone over a tourist magazine of South America, on a light background.
Foto:  Mario / adobe stock
    An Italian passport with a smartphone over a tourist magazine of South America, on a light background. Foto: Mario / adobe stock — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    "No fim das contas, nada do que aconteceu sexualmente foi ilegal e, sinceramente, eu gostei muito de ficar com vc e o Matt", escreveu.

    Um advogado de Newell não respondeu aos pedidos de comentário. Um advogado de Ingalls não quis comentar.

    No dia seguinte, 22 de outubro, Jane Doe marcou uma consulta no Cornell Health porque havia contraído uma infecção urinária e queria fazer exames para detectar infecções sexualmente transmissíveis. Ela disse à médica que havia contraído a infecção urinária "de uma forma traumática", segundo a transcrição de sua conversa com os investigadores.

    "Ela não perguntou mais nada sobre isso", disse Jane Doe a respeito da médica. "Apenas sugeriu que eu fizesse terapia."

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    Em 23 de outubro, Jane Doe enviou uma mensagem a Ingalls.

    Ela disse que o episódio estava "ARRUINANDO temporariamente" a sua vida e que sua reputação havia sido destruída. Disse que só conseguia "dormir e chorar o dia inteiro".

    Segundo os documentos, Ingalls garantiu que tudo logo seria esquecido, observando "como as bobagens se espalham rápido nesta universidade", e disse que ela não tinha "nada de que se envergonhar".

    "Você tem razão", escreveu Jane Doe. "Vai melhorar."

    Naquela semana, a irmã mais velha de Jane Doe na fraternidade recebeu uma mensagem: "Você ouviu o boato sobre a sua irmãzinha?"

    Enquanto isso, Jane Doe havia dado instruções rigorosas a uma de suas colegas de quarto: "Se alguém perguntar sobre isso", disse, segundo o depoimento da colega, " diga que não aconteceu ".

    A colega estava claramente preocupada. No início, disse ela, Jane Doe "meio que contava aquilo como uma coisa maluca que tinha feito".

    "Com o passar dos dias", continuou a colega, "acho que ela começou a perceber que tinha sido algo ruim. E que não havia realmente gostado do tempo que passou lá."

    Em 25 de outubro, Ingalls enviou uma mensagem a Jane Doe: "Vc está bem?"

    Jane Doe respondeu que Newell "com certeza contou para as pessoas".

    Dias depois, ela enviou a Ingalls uma imagem da publicação no fórum que acusava a Chi Phi de estupro coletivo.

    "Ridículo", escreveu Ingalls. "Vou denunciar a publicação."

    À medida que o Halloween se aproximava, disseram as colegas de quarto de Jane Doe aos investigadores, a compreensão dela sobre o que lhe havia acontecido parecia ter mudado.

    Por volta de 28 de outubro, Ingalls falava ao telefone com Jane Doe e, segundo uma de suas colegas de quarto, que afirmou ter ouvido a conversa, pediu desculpas a ela. Mas, em vez de garantir que estava tudo bem, Jane Doe adotou outro tom.

    " Como você pôde deixar isso acontecer? ", a colega se lembra de tê-la ouvido dizer.

    "Acho que ela queria que tivesse sido consensual", disse a colega aos investigadores, ao recordar como Jane Doe havia assimilado a suposta agressão. A colega disse aos investigadores que Jane Doe já havia sofrido agressão sexual antes, o que tornava especialmente difícil para ela falar abertamente sobre o que havia acontecido.

    "Eu conversava com ela, e ela descrevia uma parte do que aconteceu; então eu dizia que aquilo podia ser classificado como estupro", afirmou a colega.

    Na Chi Phi, a fraternidade se preparava para uma festa de Halloween, e Jane Doe estava ansiosa para comparecer. Mensagens de texto incluídas na investigação mostram Ingalls garantindo a Jane Doe que ele e outros membros da fraternidade queriam que ela estivesse presente.

    "A Chi Phi é a sua casa e você é bem-vinda aqui", escreveu ele, transmitindo a opinião do presidente da fraternidade, que não estava entre os acusados de agressão sexual.

    "Obrigada, agradeço muito", respondeu Jane Doe. "<3 amanhã levo meus cigarros"

    Mas então Jane Doe recebeu um telefonema do presidente da fraternidade, segundo as mensagens de texto.

    O convite para a festa foi retirado. Era para o próprio bem dela, disse ele.

    Jane Doe enviou uma mensagem contundente a Ingalls.

    "Eu sabia que isso ia acontecer", escreveu. "A mulher sempre leva a pior. Vocês não são meus amigos. Vocês estão tentando se proteger."

    Em 3 de novembro, Jane Doe parece ter concluído que havia sido vítima de agressão sexual na festa de outubro. Ela enviou uma mensagem a Newell.

    "Vamos deixar claro que 90% do que aconteceu naquela noite não foi consensual. me deram mais ‘key’ do que consigo lembrar", disse ela, usando uma abreviação para cetamina, "e sei que falei para você que estava desconfortável e que não conhecia ninguém na sala".

    Quatro dias depois, em 7 de novembro, segundo os documentos, Jane Doe foi a um pronto-socorro em Ithaca e solicitou a coleta de vestígios de violência sexual.

    Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site do The New York Times. Hurubie Meko e Claire Fahy contribuíram com a reportagem.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/10/como-estudante-vitima-de-estupro-fez-vergonha-virar-luta-por-justica-nos-eua.shtml.

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    Sede da fraternidade Chi Phi da Universidade Cornell em Ithaca, Nova York - Lauren Petracca - 29.set.2026/Reuters · Lauren Petracca - 29.set.2026/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo

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