Como assim você não sabia que a gente ainda gosta de você, Xuxa?
Como assim você não sabia que a gente ainda gosta de você, Xuxa? Leia mais (08/10/2026 - 19h15)

Reflexões sobre os múltiplos sentidos da morte e fim da vida
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Doutora em Direito, autora de 'A Vida Afinal: Conversas Difíceis Demais para se Ter em Voz Alta'
Como assim você não sabia que a gente ainda gosta de você, Xuxa?
Eu sempre imaginei que você entendia seu tamanho na minha vida. Segundo pesquisei, estima-se que mais de 30 milhões de brasileiros nascidos na década de 1980 ainda estejam vivos. Isso significa dizer, com segurança, que eu e milhões de adultos seríamos outras pessoas sem a sua existência por aqui.

Milhões de crianças forjadas em músicas que, anos depois, ainda nos primeiros acordes, transformam-se em sentimentos agridoces. Nostalgia tem a ver com a dor de não poder voltar para casa.
Eu me lembro de apertar os olhinhos, ali pelos 8 anos, quando ouvia que " é bom ser moleque enquanto puder. Ser super-humano ". Você fazia não existirem dúvidas, Xuxa, de que o mundo havia de se organizar para que ser criança fosse a melhor de todas as coisas. Para que, durante a infância, a vida fosse festa, praia, verão, sorvete e balão .
Eu fui essa criança. A criança que acreditou que sua existência feliz era muito importante e que deveria mobilizar uma sociedade inteira pra ser garantida. " Um dia a gente vai crescer, do mundo a gente toma conta ". Não há nada de especial em mim nisso. O que há de especial está em você. Toda a minha geração tem algo a te dizer. Todos nós fomos impactadas e impactados por você e seu céu enfeitado nas cores do amor .

Sei que muitos privilégios estão envolvidos aí também, e que a estética cruel dos programas de televisão de três décadas atrás só passou a ser criticada outro dia .
Já disse em outro texto que o universo Xuxa e paquitas é o lugar onde encontro alguns dos momentos mais felizes da minha vida , junto de pessoas que ainda estavam neste mundo. Se minha casa em Petrópolis, onde morei até os 13, tivesse um som, esse som seria o daquelas vozes femininas, agudas e afinadas, mesmo que artificialmente. Foi muito empoderador te ouvir dizer, tão cedo, que você não tinha voz para cantar. Acho que isso foi na época de "Lua de Cristal" . Se até cantar sem cantar e se tornar a Xuxa era possível, quem é que duvidaria de que tudo pode ser, e se quiser será?
Eu não sei qual mágica era necessária pra que sua voz saísse exatamente como marcou a nossa infância. Só sei que, nela, encontramos as crianças que um dia fomos. Pra muitas de nós, a casa para onde dói muito não poder voltar. Infância é chão que se pisa a vida inteira.

Posso estar sendo meio emocionada ao pensar isto, mas, talvez, se houvesse uma figura como você hoje, os recém adultos não se sentissem tão confortáveis praguejando na Internet que " sua criança só é importante para você ". Duvido, Xuxa, que no mundo em que você era a rainha, vingasse a ideia de que meninas e meninos não são bem-vindos em qualquer lugar. Ainda que, de vez em quando, só o moço entrasse e as crianças ficassem de fora .
Não estava em debate quanto importávamos. Ostentávamos, orgulhosas, nossa aura de esperança de futuro, não a de indesejadas com seus barulhos e comportamentos inconvenientes.
Ainda não fui ao último show da nave . Preciso me preparar para a emoção da nostalgia. Minha filha de 5 anos fala de você como se fôssemos próximas. "Vamos em frente que o amor leva a gente" foi uma das primeiras músicas que ela aprendeu a cantar, trinta anos depois da mãe. Trocamos o amor por "mamãe". Vamos em frente que a mamãe leva a gente.

Tentei conseguir minha própria nave pra festa de aniversário de 40, dois anos atrás. Sabe como é, se ficar à toa, a vida voa . Encontrei uma a 500 quilômetros de casa, mas não aceitaram entregar. Tive que optar por algo mais simples. Tinha até escadinha, soltava fumaça e piscava, mas era só uma capinha, sem interior. Vesti a Beatriz de paquita. Ela dançou com pompons. Minha pequena versão segue viva na minha filha.
Viva como cada criança que segue aqui com você, Xuxa, cada criança para quem você deu a certeza de que era importante, porque toda criança é.
Viva o mundo-parque, que roda gigante . Viva a alegria, viva a gargalhada, viva o bom humor .
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/blogs/morte-sem-tabu/2026/08/como-assim-voce-nao-sabia-que-a-gente-ainda-gosta-de-voce-xuxa.shtml.

Xuxa se apresenta na estreia da turnê "O Último Voo da Nave", durante show realizado no Nubank Parque - Adriano Vizoni - 25.jul.26/Folhapress · Adriano Vizoni - 25.jul.26/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo
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