Com Flávio, Brasil vai virar a Venezuela ou a Hungria?
Cientistas políticos como Steven Levitsky apontam que o segundo mandato de governantes autocráticos é sempre mais perigoso. Leia mais (10/07/2026 - 18h00)

Advogado, é professor de direito internacional e direitos humanos na FGV Direito SP. Doutor pela Central European University (Budapeste), escreve sobre direitos e discriminação
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Cientistas políticos como Steven Levitsky apontam que o segundo mandato de governantes autocráticos é sempre mais perigoso.
Bolsonaro pai tentou um golpe à moda antiga e foi condenado por isso; Bolsonaro filho, um pouco mais esperto, vai perdoar o pai no primeiro dia como presidente e tentar um golpe à moda contemporânea, refundando a Constituição.
Mal passou o primeiro turno, Flávio já cogita ampliar o mandato do presidente, no caso, o dele.

Foi assim na Hungria com Viktor Orbán , antes um político mediano e depois um autocrata que se embrenhou em alterar a Constituição, em 2011, reinventando a nação, inebriado com a supermaioria que ganhou em seu segundo mandato, eleição essa em que o tema da reforma constitucional nem sequer esteve em pauta.
Qualquer semelhança não é mera coincidência. Os laços entre Orbán, que ficou 16 anos no poder, e a família Bolsonaro são amplamente documentados; com visitas mútuas, hospedagem em embaixada e apelidos afetuosos.
Flávio conhece bem o playbook autocrático, à esquerda na Venezuela de Nicolás Maduro e à direita na Hungria de Orbán. O manual é o mesmo. Mudar a Constituição para reduzir freios e contrapesos é um deles.
Dizem que ninguém dá a mínima para a Constituição, exceto alguns democratas de plantão. Pois deveriam: Orbán fez uso da queda do Estado de Direito para distribuir contratos públicos a seus amigos corruptos, algo que deveria preocupar o empresariado; também fez seus amigos monopolizarem a imprensa, algo que deveria preocupar o povo do doisladismo na mídia.
Se Flávio decidir fazer o que quiser com a Constituição —de alterar regras eleitorais para favorecê-lo a acabar com casamento entre pessoas do mesmo sexo—, quem irá pará-lo? Ninguém.
Maduro e Orbán mostraram que, com Suprema Corte e Congresso governistas, não adianta chorar o leite derramado.
Cabe à imprensa cobrar de Flávio o que ele quer dizer com "alterar a Constituição para democratizá-la".
Normalizar esse discurso beira o proselitismo futebolístico de uma torcida organizada com a bola na cara do gol.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/thiago-amparo/2026/10/com-flavio-brasil-vai-virar-a-venezuela-ou-a-hungria.shtml.

Bolsonaristas invadem Esplanada dos Ministérios — Foto: Folha de S.Paulo
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