CNA defende mais responsabilidade fiscal e fortalecimento da mão de obra
Confederação busca discutir emendas parlamentares e arcabouço fiscal para sanar problemas estruturais do país

O diretor técnico da CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, Bruno Lucchi, afirmou nesta terça-feira (25) que o agronegócio brasileiro enfrenta desafios estruturais que vão desde a situação fiscal do país até a escassez de mão de obra no campo e os altos custos logísticos. As declarações foram dadas durante o evento “Agenda Brasil – Crescimento, Emprego e Competitividade”, realizado em São Paulo.
Segundo Lucchi, o desequilíbrio das contas públicas reduz a capacidade do governo de realizar investimentos em áreas consideradas essenciais para o setor, como infraestrutura e logística. Ele citou a relação entre dívida pública e PIB (Produto Interno Bruto), que, segundo as projeções apresentadas no evento, poderia passar de cerca de 82% atualmente para 95,5% até 2030 caso o modelo atual seja mantido.
“Sem investimentos, não se consegue resolver os problemas de escoamento da produção”, afirmou. Para o diretor da CNA, os custos logísticos estão entre os principais fatores que reduzem a competitividade do agronegócio brasileiro.

Lucchi defendeu uma revisão de aproximadamente dez pontos relacionados à eficiência do gasto público. Segundo ele, o objetivo dos estudos é identificar medidas capazes de gerar uma economia próxima de 3% do PIB.
Entre os temas que, na avaliação da CNA, precisam ser discutidos estão as emendas parlamentares, as regras do arcabouço fiscal, a vinculação do salário-mínimo a programas sociais e os chamados supersalários.
O diretor afirmou que a entidade pretende transformar os diagnósticos em propostas legislativas e medidas para o Executivo, mas que os projetos ainda não serão divulgados. A intenção é discutir as alternativas com parlamentares e candidatos antes da apresentação formal das propostas.

Para Lucchi, a responsabilidade pelo avanço das medidas não é apenas do Executivo. O Congresso também teria papel central na discussão de mudanças consideradas necessárias, ainda que possam gerar resistência política.
“São medidas duras. Você precisa rever a Previdência, tem os supersalários, as emendas parlamentares. Tudo isso são caixas de marimbondo que vão ter que ser mexidas com muito cuidado”, avaliou.
Outro ponto destacado por Lucchi foi a falta de trabalhadores no campo. Segundo ele, um levantamento realizado pela CNA com mais de 2 mil produtores identificou uma redução do contingente de trabalhadores na produção primária, apesar do crescimento do agronegócio como um todo.

O diretor contestou a ideia de que a mecanização seja a principal responsável pela redução da mão de obra no campo. Na avaliação dele, a mecanização é, em muitos casos, uma consequência da dificuldade de encontrar trabalhadores. “Pela falta de mão de obra, por não ter pessoas, o produtor é obrigado a investir em mecanização”, afirmou.
Lucchi relatou que alguns produtores estão mudando de atividade justamente pela dificuldade de contratação. Como exemplo, citou propriedades dedicadas à fruticultura e à horticultura, atividades que exigem grande quantidade de trabalhadores e apresentam menor possibilidade de mecanização.
Segundo ele, produtores têm migrado para culturas de grãos, que demandam menos trabalhadores devido ao elevado grau de mecanização. A falta de mão de obra também estaria levando produtores a adiar planos de expansão e investimentos em produtividade.

Entre os fatores apontados pela CNA para a escassez estão a redução da população rural, a migração para os centros urbanos e o aumento da escolaridade. De acordo com Lucchi, trabalhadores com maior nível de formação muitas vezes deixam a produção primária em busca de oportunidades em outros setores.
O problema seria ainda mais acentuado em algumas regiões. Lucchi citou o Nordeste, onde a taxa de desemprego seria de 8%, mas, considerando pessoas que não desejam trabalhar ou atuam apenas ocasionalmente, a parcela efetivamente disponível para contratação seria significativamente menor.
Apesar da escassez de trabalhadores, a CNA avalia que a tecnologia continuará sendo um dos principais vetores de transformação do agronegócio. O problema, segundo Lucchi, é garantir condições financeiras para que os produtores mantenham os investimentos tecnológicos.

“A tecnologia está presente e vai seguir trilhando o rumo do setor”, afirmou. A dificuldade, segundo ele, está em manter esse processo diante das condições de crédito, da situação financeira dos produtores e das taxas de juros .
Para o diretor da CNA, melhorar o ambiente de negócios é fundamental para preservar a capacidade de investimento do produtor rural.
Ele também defendeu a manutenção de políticas de crédito rural. Segundo Lucchi, os recursos destinados ao financiamento da produção não beneficiam apenas os produtores, mas têm impacto sobre toda a sociedade ao contribuir para o aumento da oferta de alimentos e para a estabilidade dos preços.

Lucchi afirmou ainda que o país precisa avançar em uma política de Estado para o seguro rural e outros mecanismos de gestão de risco. O objetivo seria oferecer maior proteção aos produtores diante de eventos climáticos e oscilações financeiras e de mercado.
No curto prazo, porém, a perspectiva para os produtores ainda é considerada desafiadora. O diretor citou os custos elevados, as dificuldades de crédito, a gestão de risco e possíveis impactos climáticos associados ao El Niño.
Para ele, momentos de crise também podem servir para discutir mudanças estruturais no financiamento e na proteção da atividade agropecuária.

Outro tema citado foi a dependência brasileira de fertilizantes . Lucchi defendeu a criação de um programa estruturado para reduzir a vulnerabilidade do país nesse setor.
Ao final, o diretor técnico da CNA apontou a segurança jurídica no campo como outro eixo fundamental para a competitividade do agronegócio.
Segundo Lucchi, problemas fundiários ainda dificultam o ambiente de negócios e precisam ser enfrentados juntamente com questões como logística, crédito e gestão de risco.
Na avaliação da CNA, esses temas devem integrar uma agenda de longo prazo para o setor. A entidade pretende usar os estudos apresentados no evento como base para discutir propostas com o Congresso Nacional, o Executivo e os candidatos nas eleições de 2026.
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Publicado originalmente por CNN Brasil. Leia a matéria completa em https://www.cnnbrasil.com.br/agro/cna-defende-maior-responsabilidade-fiscal-e-fortalecimento-da-mao-de-obra/.

Bruno Lucchi, diretor-técnico da CNA, em entrevista à CNN • Reprodução / CNN · • Reprodução / CNN — Foto: CNN Brasil
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