Cláudio de Oliveira celebra 50 anos de carreira com mosaico da política brasileira
Se o jornalismo é o primeiro rascunho da história, Cláudio de Oliveira já pode dizer que é, hoje, um dos mais longevos esboçadores dos rumos do Brasil em atividade desde o fim dos anos 1970. Ao mesmo tempo, é um dos mais jovens -aos 63, o cartunista nascido em Natal e na Folha desde 1993, completou 50 anos de carreira em julho. Leia mais (08/10/2026 - 10h00)

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Se o jornalismo é o primeiro rascunho da história, Cláudio de Oliveira já pode dizer que é, hoje, um dos mais longevos esboçadores dos rumos do Brasil em atividade desde o fim dos anos 1970. Ao mesmo tempo, é um dos mais jovens —aos 63, o cartunista nascido em Natal e na Folha desde 1993, completou 50 anos de carreira em julho.

O primeiro trabalho —uma charge sobre uma partida de futebol entre o ABC e o América, publicada no jornal potiguar Tribuna do Norte, aos 13— era bem menos cabeçudo e ácido do que aquele ao qual se dedica até hoje, com críticas políticas à quente nas páginas do jornal e no seu blog Cláudio Hebdô .
"O trabalho do chargista é como o desentupidor de fossa", diz Cláudio, às risadas, citando uma frase de Jaguar, cartunista morto no ano passado . "Todo dia tem que botar a mão na merda mesmo."
Prolífico, com novos desenhos praticamente todo dia, o artista estima ter feito mais de 14 mil charges nessas cinco décadas, grande parte já reunida em 36 livros. O mais recente deles é "Fogo Amigo 1 - A Economia no Governo Lula 3", disponível em ebook na Amazon .

É um mergulho nas tensões recentes entre o núcleo político do PT e a equipe econômica , num cenário com debates sobre juros altos, reforma tributária e meta de gastos, a partir dos trabalhos publicados na Folha . "O livro vai além de uma mera compilação. Você vê os fatos concatenados, faço uma interpretação", diz ele, que também é jornalista e redige textos de apoio que conduzem o fio do noticiário.
Já em preparação estão ainda "Fogo Amigo 2" e o volume "Amigo no Fogo", centrado no relacionamento do presidente com o Congresso. Eles vão se somar a um mosaico de publicações que já abordou desde os fracassos da ditadura, as Diretas Já e a Constituinte até as "brochadas", como descreve, do governo de Jair Bolsonaro , passando pelas eras de Fernando Henrique Cardoso , Lula e Dilma Rousseff , além das gestões de Paulo Maluf , Celso Pitta, Gilberto Kassab , Marta Suplicy , José Serra e Fernando Haddad na Prefeitura de São Paulo.
Com eles, Cláudio diz que, além do humor, cumpre com o "dever de crítica" aprendido desde seu início na profissão, colaborando com o lendário O Pasquim desde os 14 anos —mesmo que a publicação fosse considerada imprópria para menores de 16.

"Sou um filhote d'O Pasquim. O lema deles era a história do náufrago espanhol anarquista, que chega a uma ilha e pergunta: 'Hay gobierno en esta isla? Entonces, soy contra'", afirma Cláudio, lembrando que teve Henfil como um de seus mentores, na época em que o pai da Graúna foi morar em Natal por recomendação médica.
Durante quase três anos, Cláudio visitou o artista mineiro semanalmente, que deu dicas de como aprimorar seu trabalho e apresentou a ele a obra de Millôr Fernandes . O mestre foi implacável nas primeiras lições: "chargista tem que ler tudo, até receita de bolo" e "humor não é piada, é crítica".
Reflexo disso está no seu processo criativo até hoje —tudo começa pela leitura de cabo a rabo dos principais jornais do país, garantindo que sua charge, desenhada em papel e colorida digitalmente, seja uma "ponta do iceberg de um profundo trabalho de análise política". "A boa charge não é a boa ideia, mas a ideia oportuna", diz o artista, citando Ziraldo .

Apesar de ter experimentado nos quadrinhos —em publicações como a Maturi, revista produzida pelo Grupehq, o Grupo de Pesquisa de Histórias em Quadrinhos, em Natal—, a vocação da obra de Cláudio é fundamentalmente jornalística.
O aprendizado nas redações se somou ao curso na Universidade Federal do Rio Grande do Norte e, depois, em 1989, a uma bolsa para estudar artes gráficas em Praga, na então Tchecoslováquia .
"Vi a queda do regime do chamado socialismo real, convivi com gente de vários lugares do mundo. Volto para o Brasil com grande maturidade política. A democracia é uma questão central, inclusive para a própria sobrevivência do trabalho do cartunista."

Nesse retorno, firmou-se em São Paulo ao ser contratado como chargista pela Folha , em fevereiro de 1993. Começou desenhando para a primeira página dos cadernos regionais, que circulavam no interior de São Paulo, e depois passando pelo vespertino Folha da Tarde e pelo jornal Agora até o seu fim, em 2021 .
Nesse período, diz, viu o filme das crises brasileiras se repetir, mas ainda sente um grande prazer ao elaborar seus painéis —por vezes agraciados com a presença de seu cachorro Dante, uma espécie de voz da cidadania contra os desmandos retratados em seu traço caricatural.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/08/claudio-de-oliveira-celebra-50-anos-de-carreira-com-mosaico-da-politica-brasileira.shtml.

O cartunista Cláudio de Oliveira em sua casa no bairro da Barra Funda, em São Paulo - Pedro Affonso/Folhapress · Pedro Affonso/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo
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