Cinemateca resgata o cinema de Andrzej Wajda, mestre por vezes esquecido
Como Fellini , Bergman e, talvez, Tarkovski , Andrzej Wajda parece estar fora de moda para a cinefilia atual. Mais ainda que os outros três, que vez ou outra são lembrados como exemplos de um cinema que já não interessa. Leia mais (08/13/2026 - 17h30)

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Como Fellini , Bergman e, talvez, Tarkovski , Andrzej Wajda parece estar fora de moda para a cinefilia atual. Mais ainda que os outros três, que vez ou outra são lembrados como exemplos de um cinema que já não interessa.
Por isso a pequena mostra "Andrzej Wajda: O Romântico", que a Cinemateca Brasileira promove em parceria com a embaixada e o consulado da Polônia e com a distribuidora polonesa Manãna, vem em boa hora. São apenas seis filmes para comemorar o centenário do cineasta e lamentar os dez anos de sua morte.
São os mesmos títulos que passaram pelo festival Olhar de Cinema , de Curitiba, em junho. Em comum, são filmes mais sintonizados com um tipo de cinema que prevaleceu nos últimos anos, em detrimento de obras até mais famosas, hoje consideradas, equivocadamente, antiquadas.

Três são dos anos 1960, "Feiticeiros Inocentes", de 1960, "Tudo à Venda", de 1968, e "Caça às Moscas", de 1969. Mais três da década seguinte, "Terra Prometida", de 1974, "As Donzelas de Wilko" e "O Maestro", ambos de 1979.
Dos seis, ao menos três são imperdíveis. "Feiticeiros Inocentes" mostra, no ritmo do jazz , a juventude de Varsóvia na virada para a década de 1960, em meio a um afrouxamento do regime pós-stalinista e uma promessa de liberdade na cortina de ferro.
"Tudo à Venda" troca o jazz pelo rock psicodélico ao mostrar a relação de um diretor com suas atrizes em meio a uma homenagem ao ator falecido Zbigniew Cybulski, espécie de James Dean polonês. É um dos mais inteligentes trabalhos de construção narrativa, em que realidade e ficção se misturam de modo que uma instância transforma a outra.

Por fim, "As Donzelas de Wilko", mais ainda que "Tudo à Venda", revela sensibilidade ímpar para os sentimentos das mulheres, que reencontram, depois de 15 anos, o jovem com quem flertavam no passado. O amor está no ar, num filme quase sempre dominado por calma e melancolia, retomando o tom de outro de seus melhores trabalhos, "O Bosque de Bétulas", de 1970.
Os outros três filmes da programação representam diferentes aspectos do cinema de Wajda, da comédia de "Caça às Moscas" ao retrato da industrialização da Polônia em "Terra Prometida", indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Há ainda o politicamente alegórico apelo por mudanças no país, em "O Maestro", em que o personagem do título, interpretado por John Gielgud , é uma representação do papa João Paulo 2º, que era polonês.
Admirado por Luis Buñuel e Ingmar Bergman, Wajda se tornou o mais celebrado cineasta da Polônia graças inicialmente aos seus três primeiros longas, que constituem a chamada " Trilogia da Guerra ". São eles "Geração", de 1955, "Kanal", de 1957, e principalmente "Cinzas e Diamantes", de 1958, um de seus trabalhos mais famosos, uma espécie de farol para o cinema moderno polonês.

Depois de um quarto longa decepcionante, "Lotna", ambientado na Segunda Guerra , Wajda promove uma mudança e fala pela primeira vez de seu próprio tempo em "Feiticeiros Inocentes".
O desejo de adaptar certos livros o leva à Iugoslávia, onde roda o impressionante "Lady Macbeth Siberiana", de 1962, a partir de um romance russo do século 19. Escrito por Nikolai Leskov, " Lady Macbeth do Distrito de Mtensk " foi publicado em 1865.
Dentro do mesmo movimento, realiza "Cinzas", de 1965, baseado no romance polonês homônimo de Stefan Zeromski. Marcado pela grandiosidade e pela beleza plástica, trata os poloneses como ingênuos na crença de que Napoleão os livrará do domínio russo. São quase quatro horas de puro deleite cinematográfico que, no entanto, rendeu a Wajda a pecha de revisionista, nada favorável naquele contexto do cinema polonês em que se buscava mensagens patrióticas.

O que vem depois revela um cineasta inseguro, mas ainda capaz de longas notáveis como "Tudo à Venda" e "As Donzelas de Wilko". Capaz também de filmes problemáticos em que o talento, contudo, é evidente, como "Paisagem Após a Batalha", de 1970, ou os da época do cinema da ansiedade moral, momento de intenso cinema político, entre os anos 1970 e 1980, em que Wajda contribuiu principalmente com "O Homem de Mármore", de 1977, e "O Homem de Ferro", de 1981, vencedor da Palma de Ouro em Cannes .
Num momento em que as artes polonesas estavam prejudicadas por uma lei marcial nefasta, foi ao estrangeiro realizar "Danton: O Processo da Revolução", de 1983. Falado em francês, com elenco multinacional, o filme falava da Polônia de maneira alegórica. É tido como um de seus melhores trabalhos. Fez também "Um Amor na Alemanha", que se ressente pela situação de exílio.
Apesar de trunfos como "Crônica de Acontecimentos Amorosos", de 1986, "Os Possessos", de 1988, "As 200 Crianças do Dr. Korczak", de 1990, e seu último longa, " Afterimage ", de 2016, sua carreira depois de "Danton" não teve a mesma recepção, o que ajudou no injusto esquecimento. Que a mostra e o centenário contribuam para reverter o processo.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/08/cinemateca-resgata-o-cinema-de-andrzej-wajda-mestre-por-vezes-esquecido.shtml.

O polonês Andrzej Wajda - Kacper Pempel/Reuters · Kacper Pempel/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo
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