Cinema de graça: projeto leva filmes a favelas e ocupações de BH
Projeto começa neste sábado (10/10) e segue até dezembro, com sete sessões de cinema gratuitas em diferentes regiões de BH

Belo Horizonte — Em um momento em que o cinema produzido nas periferias ganha cada vez mais visibilidade, um projeto de Belo Horizonte propõe uma reflexão: o que fica para uma comunidade depois que as câmeras vão embora?
A pergunta deu origem ao Cine Dorothy , iniciativa que leva sessões gratuitas de cinema a vilas, favelas e ocupações da capital mineira e que, em 2026, passa a circular por diferentes regiões da cidade.
A ideia surgiu entre 2022 e 2023, durante a preparação do curta-metragem Eva , escrito e dirigido por Franco Dafon, e produzido por Ana Gusmão e Fabiana Santos, realizado na Ocupação Irmã Dorothy , na Região do Barreiro. O filme conta a história de uma mulher interiorana, que vive em uma ocupação junto ao seu filho e marido.

Antes das filmagens, a equipe decidiu conhecer o território, conversar com moradores e entender a realidade da comunidade. Foi nesse processo que percebeu a falta de acesso a atividades culturais.
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“Muitas vezes, o cinema chega em comunidades e em territórios periféricos, realiza o seu filme, utiliza aquele espaço, aquelas pessoas e aquelas histórias, e depois vai embora. Não existe necessariamente um retorno para a comunidade”, explica o idealizador do projeto, Franco Dafon, que também é produtor, roteirista e diretor, sendo dono da Companhia de Cinema Vernuma.

A proposta, então, foi criar uma iniciativa que não terminasse com as filmagens: “A gente começou a pensar que aquela comunidade não poderia ser apenas o lugar onde a gente chegaria para abrir uma porta, filmar o que precisava e depois ir embora . A ideia era pensar o cinema junto com aquela comunidade”, afirma.
O projeto foi desenvolvido em 2024 e realizou sua primeira edição em 2025, com sete sessões na Ocupação Irmã Dorothy, que surgiu em março de 2010, partir da mobilização de famílias em busca de moradia.
A comunidade recebeu o nome em homenagem à missionária Dorothy Stang , que atuava na defesa de trabalhadores rurais e do meio ambiente e foi assassinada em 2005, no Pará. Segundo levantamento da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), a ocupação ocupa uma área de aproximadamente 21 mil metros quadrados e contava com 230 domicílios.
Neste ano, mantém o mesmo número de exibições, mas amplia a programação para outros espaços.
A decisão de tornar o Cine Dorothy itinerante veio depois que a equipe percebeu que havia público interessado nas sessões e que a proposta poderia ser levada a outras comunidades com dificuldades semelhantes.
“A escolha desses novos lugares parte, principalmente, das relações que a própria equipe do projeto já possui com diferentes regiões de BH. É uma equipe formada por pessoas que vivem, trabalham ou desenvolvem atividades em territórios periféricos e descentralizados da cidade. Então, essas pessoas também trouxeram para dentro do projeto demandas que já existiam nos lugares onde elas estavam inseridas”, disse.
Na Pedreira Padre Lopes , a favela mais antiga da capital, que fica na região da Lagoinha, na Região Noroeste , por exemplo, estão previstas duas sessões. Uma será realizada em uma Escola Municipal de Educação Infantil (Emei) , voltada às crianças. A outra acontecerá no Morro PPL , bar e ponto de cultura que recebe rodas de samba.
“A ideia é inclusive encerrar essa passagem aproximando cinema e samba, duas manifestações que já fazem parte da dinâmica daquele território”, explicou.
O projeto também chegará ao bairro Primeiro de Maio , na Região Norte, onde a equipe já participou de produções audiovisuais sobre a memória local e a história dos trabalhadores. Outra atividade está prevista no Centro Socioeducativo Feminino de BH, voltada a adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa.
“Existe uma preocupação nossa em pensar também o acesso ao cinema para pessoas privadas de liberdade, especialmente para jovens, entendendo que o cinema pode ser uma experiência de contato com outras narrativas, outras possibilidades de mundo e, de alguma maneira, também um instrumento de transformação”, explicou.
A programação também terá sessões no Parque do Palácio , na Região Centro-Sul, alcançando um outro tipo público. Confira as datas abaixo
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Uma das preocupações da equipe é fazer a programação considerando quem vai assistir aos filmes. “Ao longo das sessões [da primeira edição], fomos percebendo que esse filme não necessariamente dialogava com todos os públicos que frequentavam aquele espaço, até por não ser uma produção de classificação livre”, disse Dafon.
“ A gente realizou sete exibições e, já a partir da quarta, conseguimos perceber com mais clareza que o público que estava acessando aquelas atividades era majoritariamente infanto-juvenil . Então, a partir daí, essa informação passou a orientar a programação”, explicou.
Agora, antes de definir a programação de cada local, os organizadores procuram conhecer os espaços, observar quem os frequenta e entender as atividades dalí. A divulgação do filme ocorre uma semana antes da sessão, que acontece a partir deste sábado até 4 de dezembro.
A seleção dos filmes é feita por Yasmine Evaristo e João Pedro Diniz, responsáveis pela programação, com base nesse trabalho de pesquisa.
A primeira sessão será neste sábado (10/10), às 18h, na Ocupação Irmã Dorothy, ao lado do Centro Cultural Vila Santa Rita. Será exibido o filme A Fabulosa Máquina do Tempo , de Eliza Capai, que estreou mundialmente no Festival de Berlim. A organização recomenda que o público leve cadeiras ou bancos para assistir ao filme.
A primeira edição de 2025 começou com cerca de 15 a 20 espectadores por sessão, mas ganhou público ao longo da programação. A última exibição reuniu mais de 60 pessoas para assistir a Saneamento Básico, o Filme , de Jorge Furtado, seguida de uma conversa com os moradores.
A segunda edição tem como lema “A sétima arte é ordinária”, que vem para questionar a percepção do cinema como uma experiência distante, restrita a determinados espaços ou públicos.
“O cinema não precisa estar distante, nem acontecer apenas dentro de uma sala específica, para públicos específicos. Ele pode, e precisa, estar na rua, fazendo parte da vida cotidiana das pessoas”, explica Franco Dafon.
Todas as sessões são gratuitas e não exigem inscrição prévia. Basta chegar ao local e, se possível, levar algo para se sentar. “É aproximar a tela da casa, da rua, do bairro. É fazer um cinema ao ar livre na rua da sua casa. Porque cinema também é coisa da gente ”, acrescenta.
Entrada: gratuita, com exceção da sessão no Centro Socioeducativo, que será fechada ao público.
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Publicado originalmente por Metrópoles. Leia a matéria completa em https://www.metropoles.com/minas-gerais/cinema-de-graca-projeto-leva-filmes-a-favelas-e-ocupacoes-de-bh.

Fotos: @joaop_diniz/ Edição: @marcelllocamacho — Foto: Metrópoles
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