Cientistas mapeiam possível segredo da longevidade de Jonathan, tartaruga de 194 anos
Cientistas podem ter identificado um dos segredos da longevidade da tartaruga Jonathan, 194, o animal terrestre mais velho de que se tem notícia. Um estudo publicado nesta quarta (7) indica que o réptil tem marcadores genéticos associados ao envelhecimento , como outros organismos de idade avançada, mas preserva uma baixa "desordem" em áreas que controlam genes ligados à função mitocondrial, semelhante à encontrada em indivíduos jovens. Leia mais (10/08/2026 - 06h00)

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Cientistas podem ter identificado um dos segredos da longevidade da tartaruga Jonathan, 194, o animal terrestre mais velho de que se tem notícia. Um estudo publicado nesta quarta (7) indica que o réptil tem marcadores genéticos associados ao envelhecimento , como outros organismos de idade avançada, mas preserva uma baixa "desordem" em áreas que controlam genes ligados à função mitocondrial, semelhante à encontrada em indivíduos jovens.

Tal característica, chamada de baixa entropia de metilação, pode ser uma das chaves para a longevidade da tartaruga-gigante-de-Aldabra ( Aldabrachelys gigantea ), sugerem os 22 autores do estudo publicado na revista Science Advances . Os autores do trabalho são de instituições nos Estados Unidos , Alemanha , Dinamarca , Reino Unido e Santa Helena.
O trabalho foi coordenado por Stephen Clark, do Centro de Câncer Vanderbilt-Ingram. Ele preside a Fundação Kallel , organização sem fins lucrativos que pesquisa intervenções contra doenças relacionadas ao envelhecimento e formas de ampliar a longevidade humana.
A idade exata de Jonathan é desconhecida, mas fotografias de 1882, ano em que foi levado à ilha de Santa Helena, no Atlântico Sul, indicam que o espécime já tinha pelo menos 50 anos. Assim, sua data de nascimento estimada seria 1832.

Como não foram autorizados a coletar sangue pelo potencial risco à saúde do animal, os pesquisadores obtiveram o DNA dele a partir de raspagem de células do interior da boca. Depois, compararam suas sequências genéticas com as de quatro indivíduos da Aldabrachelys gigantea , dois jovens de 5 e 12 anos, e dois adultos de cerca de 90 anos.
Os cientistas analisaram também o epigenoma, conjunto de modificações químicas que ajudam a controlar quais genes ficam ativos ou inativos sem alterar a sequência do DNA.
Uma delas é a metilação, que funciona como pequenas marcações químicas no DNA, quase como post-its inseridos nas páginas de um livro. Com o envelhecimento, a distribuição dessas marcas tende a ficar menos organizada. É o que os pesquisadores chamam de aumento da entropia de metilação.

"Entropia significa desordem", disse Clark à Folha . Ele compara o fenômeno a um quarto inicialmente arrumado que, depois de alguns dias de uso, fica cheio de roupas e objetos espalhados. "A metilação é uma marca química adicionada ao DNA que ajuda a regular como os genes são ligados e desligados."
Foi justamente aí que Jonathan surpreendeu. Na maior parte do genoma, sua entropia era alta, compatível com a idade. "Jonathan, nesse aspecto, parece muito velho", diz Clark.
Contudo, em 272 regiões promotoras que ajudam a controlar a atividade dos genes, a entropia era tão baixa quanto na tartaruga de cinco anos. Muitos desses genes estão ligados às mitocôndrias, estruturas celulares responsáveis pela produção de energia.

A hipótese é que manter organizadas essas regiões ajude a preservar a atividade de genes ligados à função mitocondrial. A produção eficiente de energia, por sua vez, favorece processos como reparo do DNA, manutenção dos telômeros, que protegem as extremidades dos cromossomos, e processamento de RNA. Outros genes entre os 272 encontrados estão ligados justamente a essas funções.
O artigo, portanto, não pode ser traduzido como a descoberta de um "gene da longevidade", segundo Clark. É um primeiro passo para compreender quais características genéticas e epigenéticas podem estar associadas à idade excepcional de Jonathan.
"Não sabemos se isso é o que o mantém jovem ou se é apenas uma consequência", afirma. Será preciso estudar outras tartarugas longevas para descobrir se Jonathan é realmente excepcional ou se outros animais compartilham essas características.

Para a geneticista Mayana Zatz, que pesquisa centenários e supercentenários brasileiros no Centro de Estudos do Genoma Humano e Células-Tronco da USP e comentou o artigo a pedido da reportagem, o estudo reforça a importância de olhar além da sequência do DNA nas pesquisas sobre longevidade .
"A diferença entre você ver só o DNA e ver o epigenoma é que na metilação você vê a expressão, como os genes se expressam, se estão ativos ou silenciados", afirma. O grupo dela também investiga metilação, função mitocondrial e reparo do DNA em pessoas que ultrapassaram os cem anos .
Assim, espécies excepcionalmente longevas podem oferecer pistas sobre mecanismos de envelhecimento compartilhados entre animais. Outros estudos similares encontraram características epigenéticas associadas a raças de cães, indicando que raças menores e as fêmeas tendem a viver mais do que cães maiores e machos, de acordo com a pesquisadora. "Eu acho muito legal a dedicação a estudar esses animais longevos, porque isso vai poder trazer informações relevantes para o estudo de humanos."

Esse também é um dos objetivos da Fundação Kallel. Segundo Clark, a organização pretende estudar animais longevos em busca de novos alvos e, no futuro, testar em humanos medicamentos já existentes que possam atuar em mecanismos associados ao envelhecimento . "Como uma fundação sem fins lucrativos, dependemos de financiamento de doadores."
Para a pesquisa inicial com Jonathan, ele e sua equipe tiveram um financiamento de US$ 50 mil (cerca de R$ 250 mil). Agora, pretendem novos apoios para investigar formas de prolongar os anos de vida saudável e prevenir doenças crônicas associadas à idade.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2026/10/cientistas-mapeiam-possivel-segredo-da-longevidade-de-jonathan-tartaruga-de-194-anos.shtml.

Jonathan em frente a uma casa de plantação na ilha de Santa Helena, em 2013 - Joe Hollins · Joe Hollins — Foto: Folha de S.Paulo
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