Brasil

    Cientistas identificam vírus no esgoto que pode ser usado contra superbactéria

    Superbactéria produz enzima que neutraliza antibióticos potentes

    UOL
    10 de setembro de 2026 às 22:00
    Cientistas identificam vírus no esgoto que pode ser usado contra superbactéria
    Cultura de bactéria Klebsiella pneumoniae preparada pela biomédica Thais Rezende no Laboratório Especial de Microbiologia Clínica da Unifesp — Foto: UOL

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    Pesquisadores da Unesp ( Universidade Estadual Paulista) de Rio Claro e da USP (Universidade de São Paulo), em colaboração com a Manchester Metropolitan University, do Reino Unido , identificaram e isolaram um vírus capaz de "matar" duas cepas da Klebsiella pneumoniae. Nove cepas foram testadas.

    Cultura de bactéria Klebsiella pneumoniae no Laboratório Especial de Microbiologia Clínica da Unifesp - Léo Ramos Chaves - 9.jan.24/Revista Pesquisa Fapesp · Léo Ramos Chaves - 9.jan.24/Revista Pesquisa Fapesp
    Cultura de bactéria Klebsiella pneumoniae no Laboratório Especial de Microbiologia Clínica da Unifesp - Léo Ramos Chaves - 9.jan.24/Revista Pesquisa Fapesp · Léo Ramos Chaves - 9.jan.24/Revista Pesquisa Fapesp — Foto: UOL · Fonte: UOL

    O vírus é um bacteriófago (que infecta apenas bactérias) chamado KP47 e foi isolado em amostras de esgoto no Reino Unido .

    A superbactéria pode causar pneumonia , infecções urinárias e sanguíneas, problemas em feridas cirúrgicas e sepse . Multirresistente, ela produz uma enzima chamada KPC (sigla em inglês para Klebsiella pneumoniae carbapenemase ), que destrói antibióticos potentes.

    Essa característica torna o microrganismo um dos principais agentes de infecções hospitalares de difícil tratamento. Pacientes de UTIs são especialmente suscetíveis por estarem debilitados, submetidos a procedimentos invasivos e imersos em ambientes com alto uso de antibióticos .

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    O combate à resistência bacteriana a antibióticos é um desafio à saúde pública no Brasil e no mundo.

    Para isolar o KP47, os cientistas usaram uma bactéria específica chamada Klebsiella quasipneumoniae subsp. similipneumoniae (cepa KH1), um patógeno com relevância clínica.

    "Esse é um processo de isolamento em que a gente coleta a água e a processa dentro do laboratório, passando por uma filtragem. Depois, a colocamos em contato com a bactéria que queremos combater — usando-a como hospedeira para propagar o fago que venha a aparecer. Se ele for compatível e reconhecer aquela bactéria, vai usá-la como fábrica para propagar novos vírus e matá-la por lise [fazer a célula da bactéria se romper e morrer]", afirma uma das autoras do trabalho, Layla Farage Martins, PhD em bioquímica e biologia molecular, pesquisadora de biologia de fagos do Instituto de Química da USP.

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    Foto: UOL · Fonte: UOL

    O estudo revelou que o vírus KP47 elimina bactérias de forma rápida e inteligente. Primeiro, ele invade a célula, se multiplica e a destrói em poucos minutos para liberar novos vírus . Além disso, ele se fixa a 90% das bactérias em apenas seis minutos.

    O KP47 tem genes que produzem enzimas capazes de derreter a capa protetora de açúcar da bactéria, tirando o disfarce que ela usa para se esconder do nosso sistema de defesa.

    "Os bacteriófagos são abundantes. Onde tem bactéria, tem bacteriófago. Não sabemos qual que tem, mas a chance de achar —principalmente em esgoto—, é muito alta. São os locais ambientais com mais de 90% de chance de encontrar um fago contra uma bactéria que a gente tem interesse em eliminar ou usar como hospedeira e como uma ferramenta, por exemplo, biotecnológica ", explica Layla.

    A presença de vírus caçadores de bactérias em redes de esgoto não é exclusividade do Reino Unido. O Brasil possui um vasto ecossistema desses microrganismos, mapeado há mais de uma década pela ciência nacional.

    "Nosso grupo realiza esse trabalho há mais de dez anos e já publicou diversos estudos com bacteriófagos nativos voltados para combater bactérias de interesse clínico", explica.

    Os pesquisadores trabalham em parceria com a infectologista Silvia Costa, do Instituto de Medicina Tropical da USP, que fornece cepas bacterianas de alta resistência isoladas diretamente de pacientes do Hospital das Clínicas . A partir dessas amostras, os cientistas buscam fagos no esgoto e no meio ambiente brasileiro capazes de neutralizá-las.

    O KP47 tem limitações territoriais devido à sua alta especificidade. Embora tenha se mostrado uma arma promissora na Europa , os testes preliminares mostraram que ele não foi capaz de combater as superbactérias coletadas nos hospitais brasileiros.

    "Nas linhagens que testamos até o momento, esse fago específico não reconheceu as bactérias brasileiras como hospedeiras", diz a cientista.

    Agora, os cientistas pretendem afunilar a caracterização deste fago e fazer testes in vivo para saber o quão promissor ele é e também testá-lo em uma rede maior de bactérias. Layla Farage Martins argumentou que se trata de uma ferramenta biotecnológica promissora como alternativa ao antibiótico , principalmente para bactérias resistentes e intratáveis.

    Embora o uso de vírus contra bactérias seja um conceito antigo na ciência, principalmente no leste europeu — e já ter sido produzido no Brasil década de 1920 —, o avanço dessa tecnologia foi interrompido no país por decisões políticas do passado. Segundo a pesquisadora, os laboratórios e hospitais brasileiros ainda não contam com uma estrutura pronta e integrada para essa finalidade.

    O grupo tenta construir uma parceria com o Hospital das Clínicas .

    "Existem duas grandes vertentes de trabalho. Podemos isolar e clonar as enzimas dos fagos para testar seu desempenho em laboratório até que virem um produto, ou podemos utilizar a partícula viral completa. O vírus inteiro é comprovadamente seguro, algo já aceito na Europa e nos Estados Unidos , mas ainda precisamos avaliar sua eficácia real em pacientes antes de avançar nos testes clínicos", detalha a pesquisadora.

    O Comitê de Ética do Hospital das Clínicas já autorizou o chamado uso compassivo e exploratório de bacteriófagos para pacientes que já esgotaram todas as alternativas tradicionais de tratamento com antibióticos.

    "A estrutura está começando a sair do papel agora. Recentemente, um médico infectologista da equipe da professora Silvia Costa viajou para centros de referência na Bélgica e em Portugal para acompanhar a aplicação clínica da fagoterapia. Ele trouxe os protocolos internacionais e estamos nos organizando para iniciar os tratamentos nos pacientes elegíveis", finaliza a cientista

    A pesquisa foi publicada na revista científica BMC Microbiology .

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    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2026/09/cientistas-identificam-virus-no-esgoto-que-pode-ser-usado-contra-superbacteria.shtml.

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    Cultura de bactéria Klebsiella pneumoniae no Laboratório Especial de Microbiologia Clínica da Unifesp - Léo Ramos Chaves - 9.jan.24/Revista Pesquisa Fapesp · Léo Ramos Chaves - 9.jan.24/Revista Pesquisa Fapesp — Foto: UOL

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