'Cidades-pêndulo' podem ser decisivas na eleição presidencial
O debate sobre as eleições presidenciais no Brasil frequentemente gravita em torno da ideia de um país irremediavelmente dividido , com o eleitorado cristalizado em suas trincheiras ideológicas. Embora o diagnóstico da polarização territorial faça sentido no agregado, ele omite uma dinâmica essencial para a compreensão da disputa pelo Executivo federal neste ano de 2026: a resiliência dos chamados "municípios pêndulo". Leia mais (08/08/2026 - 22h00)

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Cientista político, é professor da Uerj e da PUC-Rio
O debate sobre as eleições presidenciais no Brasil frequentemente gravita em torno da ideia de um país irremediavelmente dividido , com o eleitorado cristalizado em suas trincheiras ideológicas. Embora o diagnóstico da polarização territorial faça sentido no agregado, ele omite uma dinâmica essencial para a compreensão da disputa pelo Executivo federal neste ano de 2026: a resiliência dos chamados "municípios pêndulo".
Uma análise dos seis segundos turnos realizados entre 2002 e 2022 revela que, em um contexto de forte consolidação de bases eleitorais à esquerda e à direita, o fiel da balança reside em um grupo de cidades marcadas pela volatilidade recorrente. Para dimensionar esse fenômeno, o INCT Representação e Legitimidade Democrática (ReDem - UFPR) examinou a evolução histórica da mobilidade do voto nos mais de 5.500 municípios do país.

A análise aponta para uma drástica desaceleração na taxa de oscilação dos votos. Na transição do pleito de 2002 para 2006, o país registrou uma taxa de pêndulo na qual 40,39% dos municípios alteraram o candidato vencedor da direita (2002) para a esquerda (2006), considerando os resultados de segundo turno. Desde então, vivemos uma espécie de engessamento contínuo.
No ciclo de 2018 a 2022 , tivemos a menor volatilidade da série: apenas 7,60% das cidades mudaram sua preferência. Essa retração, fruto de um ambiente político-eleitoral mais acirrado entre perfis de candidato à direita e à esquerda, indica que a margem de manobra para viradas eleitorais em todo o território ficou cada vez mais estreita.
Em toda a série, contudo, identificamos 1.091 municípios que se comportaram como pêndulos, alterando a direção do voto de duas a cinco vezes. Essas localidades reúnem um contingente de mais de 34 milhões de eleitores aptos para 2026. Esse volume representa 21,6% de todo o eleitorado nacional, consolidando-se como a arena decisiva em disputas de alta competitividade.

A distribuição demográfica das "cidades-pêndulo" apresenta também uma assimetria populacional. O estado de São Paulo abriga 41% dos eleitores que votam em municípios pendulares do país, somando quase 14 milhões de pessoas, o que equivale a 8,85% do eleitorado total. Esse fenômeno está mais concentrado na região metropolitana. A capital paulista, ao lado de municípios como São Bernardo do Campo, Osasco, Diadema e Mauá, registrou trocas sucessivas de lado ao longo da série histórica.
Em resumo, esses dados sugerem que a eleição presidencial de 2026 não será resolvida exclusivamente nos 1.489 municípios onde o PT venceu em todas as eleições nem no grupo das 546 cidades em que candidatos da direita e centro-direita foram dominantes nos últimos 20 anos.
Nesses clusters territoriais, os candidatos tendem a apresentar pouca margem para crescimento da massa de voto. O resultado da disputa passará, na verdade, pela capacidade de persuadir os eleitores de cidades pendulares, sobretudo aquelas da região metropolitana paulista. É aí que reside um perfil que ainda admite mudar a sua preferência eleitoral entre uma eleição e outra.

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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/08/cidades-pendulo-podem-ser-decisivas-na-eleicao-presidencial.shtml.

Eleitores fazem fila para votar na PUC, na zona oeste de São Paulo, uma das 'cidades-pêndulo' entre o período de 2002 a 2022 - Karime Xavier - 2.out.22/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo
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