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    Chorem, gritem, peçam ajuda, não desistam

    Ontem, soube que uma ex-colega de trabalho tirou a própria vida. Na última vez em que nos falamos, o que tem um mês, ela tinha me prometido ir a um lançamento de livro, no qual eu seria mediadora. Ela não apareceu. Mas, na nossa troca de mensagens, eu disse: "Assim eu posso te dar um abraço apertado". Ao que ela respondeu: "Vou querer muito! Trocar uma boa energia". Leia mais (09/11/2026 - 21h00)

    Folha de S.Paulo
    12 de setembro de 2026 às 00:00
    Chorem, gritem, peçam ajuda, não desistam
    Ilustração com fundo roxo escuro, mostra nadadora, de maiô e touca rosas, afundando para uma parte mais escura. Acima dela, vê-se as luzes refletidas na água. Sua expressão é de espanto. — Foto: Folha de S.Paulo

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    Ontem, soube que uma ex-colega de trabalho tirou a própria vida. Na última vez em que nos falamos, o que tem um mês, ela tinha me prometido ir a um lançamento de livro, no qual eu seria mediadora. Ela não apareceu. Mas, na nossa troca de mensagens, eu disse: "Assim eu posso te dar um abraço apertado". Ao que ela respondeu: "Vou querer muito! Trocar uma boa energia".

    Carolina Daffara · Carolina Daffara
    Carolina Daffara · Carolina Daffara — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

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    Eu sabia que ela tinha passado por um período muito difícil quando foi demitida de um trabalho que amava. Nos últimos tempos, no entanto, parecia animada com os novos projetos e desafios. Gosto sempre de lembrar que quem sofre de depressão nem sempre parece triste. Eu sei disso porque já estive muitas vezes nesse lugar muito escuro, sem saber como sair de lá, mas fingia que estava tudo bem para não ter que explicar uma tristeza que nem eu mesma sabia decifrar. O sorriso automático, a agenda cheia e a aparente normalidade, muitas vezes, são a armadura de quem está emocionalmente doente. Mas eu sempre pedi ajuda.

    Meu quadro da doença jamais me levou a esse extremo em que a única alternativa, o único jeito de calar o sofrimento, é acabar com a própria vida. Não consigo imaginar a dimensão da dor, o grau de desespero e de asfixia emocional para que esse desfecho pareça o único remédio possível. A depressão é uma doença perversa que sequestra a perspectiva de futuro. Ela mente, sussurrando diariamente na cabeça da pessoa que não existe solução.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Falamos muito sobre como os homens têm dificuldade de demonstrar vulnerabilidade, mas não são só eles que não sabem pedir ajuda. A maturidade e a rotina insana nos impedem de procurar nossas amigas quando a coisa aperta. Eu sempre acho que elas estão, assim como eu, ocupadas demais, estressadas demais, sobrecarregadas com seus próprios boletos, trabalhos e demandas familiares.

    Às vezes, a gente afunda numa solidão silenciosa. Os problemas, por menores que sejam, acabam se empilhando uns sobre os outros, e não queremos atrapalhar a vida de ninguém. A vida adulta nos empurra para um isolamento disfarçado de independência. Temos centenas de contatos no celular, mas hesitamos em ligar para alguém para dizer: "não estou dando conta".

    O baque da notícia me fez pegar o telefone e escrever para minhas amigas mais próximas. Foi uma necessidade de verbalizar o óbvio que a gente esquece na pressa dos dias. "Eu só peço uma coisa para vocês: se um dia a vida estiver tão, tão pesada, tão dura e difícil que vocês lembrem de mim, me procurem e saibam que podem contar comigo para qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo. Eu sei que nada disso é racional, a doença não avisa, mas acho importante falar isso para vocês saberem e se lembrarem sempre."

    A gente precisa estar mais atento às pessoas ao nosso redor. Não podemos esquecer que essa epidemia de solidão e de desesperança não está apenas nas estatísticas e nos recortes de jornais; ela respira muito mais perto do que a gente imagina. Nós não temos como adivinhar a dor profunda de ninguém, nem temos o poder de salvar o outro de si mesmo. Mas que a gente consiga, ao menos, deixar a porta escancarada para que as pessoas que amamos vejam que podem pedir socorro.

    Atenção: Se você está passando por um momento difícil, sentindo desesperança ou tendo pensamentos suicidas, não hesite em pedir ajuda. O CVV (Centro de Valorização da Vida) atende de forma gratuita, sigilosa e 24 horas por dia. Ligue para 188 ou acesse o chat pelo site cvv.org.br .

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marilizpereirajorge/2026/09/chorem-gritem-pecam-ajuda-nao-desistam.shtml.

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    Carolina Daffara · Carolina Daffara — Foto: Folha de S.Paulo

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