Brasil

    China abandona sua principal estratégia para reduzir custos de logística

    Escritório do Logink vazio em Zhejiang simboliza declínio da plataforma estatal; EUA apontavam risco de espionagem

    UOL
    10 de outubro de 2026 às 03:00
    China abandona sua principal estratégia para reduzir custos de logística
    Três caminhões transportam contêineres coloridos (branco, vermelho e azul) em área de terminal portuário com guindastes vermelhos grandes ao fundo. — Foto: UOL

    Jornalista, mestre em Estudos da China pela Academia Yenching (Universidade de Pequim) e em Assuntos Globais pela Universidade Tsinghua

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    Caminhões colocam contêineres em um navio na cidade de Ningbo, no leste da China - 15.ago.26/AFP · 15.ago.26/AFP
    Caminhões colocam contêineres em um navio na cidade de Ningbo, no leste da China - 15.ago.26/AFP · 15.ago.26/AFP — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Quando repórteres da Reuters chegaram em setembro ao escritório do Logink em Wenzhou, na região portuária de Zhejiang, encontraram as luzes apagadas, ninguém na recepção e os cabos dos computadores retirados. Ali deveria pulsar uma plataforma que, quatro anos antes, Washington tratava como uma das armas comerciais mais perigosas da China . Agora só o silêncio.

    O Logink é um sistema estatal que conecta portos, alfândegas e transportadoras para trocar informações sobre carga. Em 2022, uma comissão do Congresso americano alertou que, com ele, Pequim poderia saber o que cada país compra, em que volume e a que preço.

    Pelo medo de ter entregas confidenciais (como ajuda militar à Ucrânia ou vendas de armas a Taiwan ), o Congresso proibiu o Pentágono de contratar empresas ligadas à plataforma, e o Departamento de Estado passou a pressionar aliados a evitá-la.

    Um robô chinês empilha arroz embalado para envio em uma fábrica, na cidade de Wuchang - Ji Hang - 31.ago.26/Xinhua · Ji Hang - 31.ago.26/Xinhua
    Um robô chinês empilha arroz embalado para envio em uma fábrica, na cidade de Wuchang - Ji Hang - 31.ago.26/Xinhua · Ji Hang - 31.ago.26/Xinhua — Foto: UOL · Fonte: UOL

    O projeto nasceu há cerca de 20 anos, longe de qualquer disputa entre potências, como iniciativa do governo de Zhejiang para coordenar o transporte de carga na província. Depois passou ao Ministério dos Transportes, conectou-se a sistemas do Japão e da Coreia do Sul e chegou a sondar portos europeus.

    Mas a investigação publicada pela agência de notícias mostra como essa expansão se desfez. A plataforma deixou a associação internacional em que portos combinam padrões para trocar dados, e o intercâmbio com japoneses e sul-coreanos emperrou.

    Desde janeiro de 2024, a empresa que opera o sistema acumulou ao menos 39 processos que já somam cerca de US$ 1,3 milhão (R$ quase 6,5 milhões) entre ações trabalhistas e contas atrasadas.

    Braço robótico branco movimenta caixas de papelão em esteiras transportadoras dentro de armazém automatizado. Caixas empilhadas e paletes azuis visíveis ao fundo.
    Braço robótico branco movimenta caixas de papelão em esteiras transportadoras dentro de armazém automatizado. Caixas empilhadas e paletes azuis visíveis ao fundo. — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Receba no seu email os grandes temas da China explicados e contextualizados

    Randall Schriver, que preside a comissão autora do alerta, disse à Reuters que a estratégia americana de expor publicamente quem usava o sistema ajudou a provocar a queda. A pressão certamente fechou portas, mas a explicação deixou de lado o que se passava em Pequim no mesmo período.

    Em novembro de 2025, dez órgãos chineses liderados pela comissão responsável pelo planejamento econômico e pela agência nacional de dados lançaram um plano para integrar as informações do transporte de carga. A meta é cortar um gasto que pesa sobre toda a economia porque transportar e armazenar mercadorias custou à China o equivalente a 13,9% do PIB em 2025.

    Imagem da matéria
    Foto: UOL · Fonte: UOL

    Já em junho deste ano, o Ministério dos Transportes pediu que o Logink fosse ligado a mais fontes de dados domésticos, como se a plataforma, derrotada lá fora, devesse voltar às origens. Dois meses depois, o ministério e o órgão de planejamento lançaram, com aval do Conselho de Estado (espécie de gabinete do regime chinês), um plano mais amplo para a logística.

    No lugar do Logink, a nova estratégia prevê um "espaço de dados confiável", ambiente em que empresas e governo compartilham informações sob regras comuns, além de incentivos a plataformas regionais e setoriais. O objetivo é baixar o custo logístico em dois pontos percentuais do PIB até 2030.

    Pequim não desistiu de usar dados para mover carga mais barato, mas parece ter perdido o interesse no veículo que escolheu para isso há duas décadas. Minha aposta é que o escritório às escuras em Wenzhou deve tanto à pressão americana quanto a esse novo arranjo, em que o Ministério dos Transportes divide o comando com o planejamento econômico e a agência de dados.

    LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Na página Colunas da Folha você encontra opinião e crônicas de colunistas como Mônica Bergamo , Elio Gaspari , Djamila Ribeiro , Tati Bernardi , Dora Kramer , Ruy Castro , Muniz Sodré , Txai Suruí , José Simão , Thiago Amparo , Antonio Prata e muito mais.

    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/colunas/igor-patrick/2026/10/china-abandona-sua-principal-estrategia-para-reduzir-custos-de-logistica.shtml.

    Imagem 1
    1 / 4

    Caminhões colocam contêineres em um navio na cidade de Ningbo, no leste da China - 15.ago.26/AFP · 15.ago.26/AFP — Foto: UOL

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)