Brasil

    Chile passa aniversário do golpe sem ato oficial pela 1ª vez desde redemocratização

    Governo de José Antonio Kast rompe tradição de cerimônias institucionais que relembram início da ditadura militar

    UOL
    12 de setembro de 2026 às 00:00
    Chile passa aniversário do golpe sem ato oficial pela 1ª vez desde redemocratização
    Centenas de pessoas participam de protesto em rua ao lado de edifício com janelas gradeadas. Grupo carrega faixa preta com texto em espanhol e uma bandeira vermelha. Presença de policiais ao fundo. — Foto: UOL

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    O Chile chegou nesta sexta-feira (11) aos 53 anos do golpe militar que derrubou o presidente Salvador Allende sem uma cerimônia oficial ou qualquer ato institucional do governo para marcar a data, algo inédito desde o retorno da democracia ao país, em 1990.

    Manifestantes fazem marcha em homenagem às vítimas da ditadura de Augusto Pinochet, em Santiago - Javier Torres/AFP · Javier Torres/AFP
    Manifestantes fazem marcha em homenagem às vítimas da ditadura de Augusto Pinochet, em Santiago - Javier Torres/AFP · Javier Torres/AFP — Foto: UOL · Fonte: UOL

    O presidente José Antonio Kast , expoente da ultradireita chilena e apoiador da ditadura de Augusto Pinochet no passado, manteve sua agenda habitual e viajou à região de Los Ríos, no sul do país. Não houve ato no Palácio de La Moneda nem pronunciamento do mandatário à nação, algo que ocorreu anualmente nos últimos 35 anos.

    Kast afirmou nesta sexta que a história "não pode ser apagada", mas defendeu que o país olhe para o futuro. Segundo ele, há entre os chilenos diferentes sensibilidades sobre o que ocorreu há 53 anos, e o país não pode ficar condenado pelo que chamou de divisões do passado.

    O discurso segue a linha adotada pelo governo nos últimos dias para justificar a ausência de uma cerimônia. O subsecretário do Interior, Máximo Pavez, afirmou que o dever da administração é "olhar os próximos 50 anos". Uma missa realizada pela manhã em La Moneda tampouco foi tratada pelo Executivo como uma homenagem às vítimas —segundo Pavez, tratou-se de uma atividade religiosa que ocorre habitualmente no palácio.

    Conheça personagens marcantes da história da ditadura no Chile
    Conheça personagens marcantes da história da ditadura no Chile — Foto: UOL · Fonte: UOL

    A decisão rompe uma tradição mantida pelos governos chilenos desde o fim da ditadura, inclusive pelas gestões da direita tradicional de Sebastián Piñera. A data lembra o bombardeio de La Moneda e a derrubada de Allende, em 1973, que deram início aos 17 anos de regime militar comandado por Pinochet.

    A ausência de um ato oficial ocorre em meio a uma disputa renovada no Chile sobre a memória da ditadura. Em agosto, parlamentares do Partido Nacional Libertário, legenda fundada pelo ultradireitista Johannes Kaiser, apresentaram um projeto para criar um "Museu da Verdade" , concebido como contraponto ao Museu da Memória e dos Direitos Humanos, em Santiago .

    A proposta pretende apresentar a narrativa dos autores sobre crise econômica, desabastecimento e violência política durante o governo Allende, período anterior ao golpe. O Museu da Memória, criado durante o governo da ex-presidente Michelle Bachelet, documenta as violações de direitos humanos cometidas durante a ditadura.

    Casal perseguido pela ditadura brasileira se exilou no Chile de Allende
    Casal perseguido pela ditadura brasileira se exilou no Chile de Allende — Foto: UOL · Fonte: UOL

    O cientista político Cristóbal Rovira Kaltwasser, da Universidade do Chile, afirmou à Folha em agosto que iniciativas desse tipo fazem parte de uma disputa cultural sobre o passado do país e precisam ser compreendidas à luz das origens autoritárias de parte da direita chilena. Kast, segundo ele, tornou-se o principal símbolo da ala que rejeitou a moderação adotada pela direita tradicional durante a redemocratização.

    A newsletter da Folha sobre América Latina, editada pela historiadora e jornalista Sylvia Colombo

    O próprio presidente fez campanha pelo "Sim" no plebiscito de 1988, opção que defendia a permanência de Pinochet no poder. Antes de chegar à Presidência, também publicou mensagens favoráveis ao golpe. Durante a campanha que o levou ao poder, porém, passou a evitar o tema e, já no cargo, tem apenas dito que sua posição sobre o período é conhecida.

    Imagem da matéria
    Foto: UOL · Fonte: UOL

    A oposição organizou seus próprios atos nesta sexta. Partidos contrários a Kast programaram uma homenagem no mausoléu de Allende, no Cemitério Geral de Santiago, e depositaram flores diante da estátua do ex-presidente nos arredores de La Moneda.

    O ex-presidente Gabriel Boric participou das homenagens e reagiu à ausência de uma cerimônia do governo. Disse que os chilenos não precisam de atos oficiais para recordar o passado e afirmou que a história do país permanece na memória de sua população.

    Algumas das principais feridas da ditadura permanecem abertas. Mais de mil pessoas seguem desaparecidas, e há mais de mil casos sob investigação nos tribunais, a maioria relacionada a torturas. O governo Kast manteve o Plano Nacional de Busca, Verdade e Justiça criado por Boric para localizar desaparecidos, mas demitiu seus principais responsáveis semanas depois de assumir o poder.

    An Italian passport with a smartphone over a tourist magazine of South America, on a light background.
Foto:  Mario / adobe stock
    An Italian passport with a smartphone over a tourist magazine of South America, on a light background. Foto: Mario / adobe stock — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Pinochet comandou o Chile de 1973 a 1990. Segundo dados oficiais citados pela imprensa chilena, mais de 40 mil pessoas são reconhecidas como vítimas da ditadura, entre executados, desaparecidos, presos políticos e torturados. O ditador morreu em 2006, aos 91 anos, sem ter sido condenado pelos crimes dos quais era acusado.

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Semanalmente, os principais fatos do globo, explicados de forma leve e interessante

    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/09/chile-passa-aniversario-do-golpe-sem-ato-oficial-pela-1a-vez-desde-redemocratizacao.shtml.

    Imagem 1
    1 / 5

    Manifestantes fazem marcha em homenagem às vítimas da ditadura de Augusto Pinochet, em Santiago - Javier Torres/AFP · Javier Torres/AFP — Foto: UOL

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)