Brasil

    Cheiro de Nova York, 25 anos após o 11 de Setembro, é o da mudança

    Menos de um mês depois do 11 de Setembro , Uday Menon resolveu atender ao apelo do então prefeito Rudolph Giuliani para que os nova-iorquinos voltassem à vida normal, saíssem para jantar, fossem ao teatro, gastassem dinheiro. Leia mais (09/10/2026 - 23h00)

    Folha de S.Paulo
    11 de setembro de 2026 às 02:00
    Cheiro de Nova York, 25 anos após o 11 de Setembro, é o da mudança
    Menino de costas com as mãos na cintura observa as duas colunas de luz azul do memorial 11 de setembro na linha do horizonte de Manhattan, com a ponte do Brooklyn iluminada à esquerda e o rio East River à frente. — Foto: Folha de S.Paulo

    Expressa as ideias do autor e defende sua interpretação dos fatos​

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    Luzes iluminam o céu de Manhattan em homenagem que marca os 25 anos dos atentados às Torres Gêmeas, em Nova York - Ryan Murphy - 9.set.26/Reuters · Ryan Murphy - 9.set.26/Reuters
    Luzes iluminam o céu de Manhattan em homenagem que marca os 25 anos dos atentados às Torres Gêmeas, em Nova York - Ryan Murphy - 9.set.26/Reuters · Ryan Murphy - 9.set.26/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Menos de um mês depois do 11 de Setembro , Uday Menon resolveu atender ao apelo do então prefeito Rudolph Giuliani para que os nova-iorquinos voltassem à vida normal, saíssem para jantar, fossem ao teatro, gastassem dinheiro.

    Menon, consultor de tecnologia do banco JPMorgan, nascido na Índia e morador dos Estados Unidos desde 1986, telefonou para comprar dois ingressos para "The Producers", sucesso cômico da Broadway. Como não havia lugares disponíveis, aceitou entradas para o musical "Kiss Me, Kate". Durante a conversa, perguntou quantas fileiras separavam seus assentos do palco.

    A atendente interpretou as perguntas, o nome estrangeiro e o sotaque como sinais de uma possível ameaça de bomba e chamou a polícia. Na noite seguinte, quando Menon chegou ao teatro com a mulher, grávida de sete meses, foi cercado por quatro policiais e três agentes do FBI, jogado no chão e algemado.

    Veja fotos do 11 de Setembro
    Veja fotos do 11 de Setembro — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Segundo ele, 15 anos de vida nos EUA sem nem sequer uma multa de trânsito não haviam resistido a um sotaque.

    O episódio é um dos relatados no livro " Nova York – Antes e Depois do Atentado" (2002, Geração Editorial), fruto da extensa cobertura que fiz para a Folha daquela manhã de 11 de Setembro e seus desdobramentos nos meses seguintes.

    Nos Estados Unidos de então, bastava um telefonema para transformar um árabe ou muçulmano em suspeito de terrorismo , às vezes com consequências fatais. Foi o que aconteceu com Muhammad Rafiq Butt, paquistanês de 55 anos denunciado por um pastor que morava perto dele no Queens.

    O ex-prefeito de Nova York, Rudy Giuliani, durante cerimônia sobre o 11 de Setembro, em Washington - Chip Somodevilla - 8.set.26/Getty Images via AFP · Chip Somodevilla - 8.set.26/Getty Images via AFP
    O ex-prefeito de Nova York, Rudy Giuliani, durante cerimônia sobre o 11 de Setembro, em Washington - Chip Somodevilla - 8.set.26/Getty Images via AFP · Chip Somodevilla - 8.set.26/Getty Images via AFP — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Segundo relatos da época, o FBI descobriu em 24 horas que não havia indício de envolvimento com os ataques. Mesmo assim, Butt permaneceu preso por questões migratórias e morreu num centro de detenção em Nova Jersey, vítima de um ataque cardíaco, pouco mais de um mês depois.

    A islamofobia não foi um efeito colateral distante do 11 de Setembro. Surgiu quase imediatamente, alimentada pelo medo, pela ignorância e pela confusão deliberada entre uma religião seguida por cerca de 2 bilhões de pessoas e a ideologia fundamentalista da Al Qaeda , organização responsável pelos ataques executados pelos 19 sequestradores.

    Aos olhos de boa parte da população, Giuliani encarnava então a melhor resposta possível à catástrofe. Caminhava pelas ruas, informava os nova-iorquinos, confortava famílias e transmitia a sensação de que ainda havia governo em meio ao caos. Sua popularidade, até então em baixa, disparou. O prefeito de Nova York virou o "prefeito da América".

    Este é o democrata Zohran Mamdani, prefeito de Nova York
    Este é o democrata Zohran Mamdani, prefeito de Nova York — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O contraste com o personagem atual dificilmente poderia ser maior. Giuliani tornou-se uma caricatura do líder que foi, subordinou sua biografia a Donald Trump e emprestou reputação e conhecimento jurídico à tentativa de reverter o resultado da eleição presidencial de 2020 . Espalhou falsidades, foi expulso da Ordem dos Advogados de Nova York e foi condenado a indenizar duas funcionárias eleitorais que difamou.

    Agora Giuliani reaparece para sustentar que Zohran Mamdani , atual prefeito de Nova York, não deveria participar das cerimônias dos 25 anos do atentado. Mamdani nasceu em Uganda, é filho de indianos e foi criado nos Estados Unidos. Em novembro de 2025, tornou-se o primeiro muçulmano eleito para o cargo .

    Essa vitória teria sido difícil de imaginar naquele longínquo 2001 em que Uday Menon foi algemado por tentar assistir a um espetáculo e Muhammad Rafiq Butt foi mantido preso sem qualquer acusação relacionada ao terrorismo. É também a demonstração mais recente da extraordinária capacidade de Nova York de se reinventar.

    Imagem da matéria
    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Isso não significa que a islamofobia tenha desaparecido. Sem qualquer base factual, o prefeito Mamdani já foi chamado de terrorista, acusado de querer impor a sharia, ameaçado de deportação e associado ao 11 de Setembro.

    Uma petição em andamento já reuniu mais de 110 mil assinaturas para exigir que o prefeito não compareça à cerimônia no Marco Zero, nesta sexta (11), como se a religião de Mamdani o tornasse incompatível com a memória das vítimas.

    Um episódio é emblemático de como um fato pode ser deformado até adquirir o sentido oposto. Mamdani pediu que uma das canetas usadas para assinar decretos relacionados à memória do 11 de Setembro fosse entregue ao chefe de sua assessoria jurídica, Ramzi Kassem. Passou-se a afirmar que o objeto fora dado ao "advogado de um dos terroristas" responsáveis pelos ataques.

    Imagem da matéria
    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Não foi. Kassem nunca defendeu nenhum dos 19 sequestradores. Representou Ahmed al-Darbi, integrante da Al Qaeda que se declarou culpado por sua participação no planejamento de outro atentado, cometido contra um petroleiro francês no Iêmen em 2002. Al-Darbi havia sido preso em junho de 2002 e, portanto, já estava detido quando o atentado ocorreu, em outubro.

    A defesa judicial de um acusado, por mais repulsivo que seja o crime atribuído a ele, não significa endossar seus atos, mas preservar uma das garantias que distinguem o Estado de Direito do terrorismo que se pretende combater.

    Alvo de acusações de antissemitismo, que rejeita, e defensor de propostas controversas, como o congelamento de aluguéis, a criação de supermercados subsidiados e a tarifa zero no transporte público, Mamdani mantém elevada popularidade na cidade .

    An Italian passport with a smartphone over a tourist magazine of South America, on a light background.
Foto:  Mario / adobe stock
    An Italian passport with a smartphone over a tourist magazine of South America, on a light background. Foto: Mario / adobe stock — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Seu governo acaba de prestar um serviço importante à cidade, tornando públicas cerca de 170 mil páginas sobre a qualidade do ar depois da queda das torres, como parte de um acordo que encerrou duas longas disputas judiciais pelo acesso aos registros.

    Segundo a prefeitura, parlamentares e entidades que representam as vítimas, o material reforça as evidências de que autoridades dispunham de alertas sobre os riscos da poeira tóxica levantada naquela manhã enquanto estimulavam moradores, trabalhadores e empresas a retornar ao sul de Manhattan.

    Milhares de bombeiros, policiais, socorristas e civis, como os jornalistas que cobríamos in loco os eventos, foram expostos e muitos desenvolveram doenças relacionadas decorrentes deste contato. Vários morreram anos depois.

    O acervo também lança nova luz sobre a gestão Giuliani. O prefeito celebrado por liderar a reação imediata à tragédia comandou uma administração que não foi transparente sobre os perigos enfrentados por quem respirava o ar do Marco Zero.

    Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo

    Mamdani tinha nove anos no 11 de Setembro. Vivia em Manhattan, onde cursava o ensino fundamental, e acompanhou da própria cidade o ataque que transformaria Nova York. Um quarto de século depois, ocupa a cadeira do homem convertido em herói naquela manhã e traz a público documentos que ajudam a corrigir a narrativa produzida durante a gestão desse mesmo herói .

    A história raramente oferece simetrias tão perfeitas.

    No relato publicado pela Folha no dia seguinte aos ataques , eu dizia que o ar ao redor dos escombros estava tomado por pó branco e fumaça preta. Havia um desagradável cheiro doce de queimado que embrulhava o estômago, um odor que, cercado por corpos e destroços, remetia inevitavelmente à carne queimada.

    Vinte anos depois , ao refazer o percurso entre o East Village e o Marco Zero, outra Nova York se apresentou. O estado acabara de legalizar o uso recreativo da maconha, já oferecida sem licença em barracas na Union Square, ao lado de queijos de Vermont e mirtilos orgânicos. O cheiro da cidade era outro, inebriante.

    Hoje, passado um quarto de século do ataque, o cheiro mudou novamente.

    A cidade continua carregando seus mortos, seus doentes e as contradições daquele período, produzindo teorias conspiratórias, preconceito e oportunismo político. Mas foi capaz de eleger democraticamente um muçulmano apenas uma geração depois de um atentado cometido por terroristas da Al Qaeda que alegavam agir em nome do islã.

    O cheiro de Nova York, agora, é o da mudança.

    Receba no seu email a seleção de notícias feita pelo diretor de Redação da Folha, Sérgio Dávila

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Semanalmente, os principais fatos do globo, explicados de forma leve e interessante

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/09/cheiro-de-nova-york-25-anos-apos-o-11-de-setembro-e-o-da-mudanca.shtml.

    Imagem 1
    1 / 7

    Luzes iluminam o céu de Manhattan em homenagem que marca os 25 anos dos atentados às Torres Gêmeas, em Nova York - Ryan Murphy - 9.set.26/Reuters · Ryan Murphy - 9.set.26/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)