Cédulas, apuração manual e fraudes: como era votar antes da urna eletrônica
Considerada um pilar da democracia brasileira, a urna eletrônica foi introduzida gradualmente a partir de 1996 e universalizada em 2000

A menos de um mês do primeiro turno das eleições gerais de 2026, marcado para 4 de outubro , milhões de brasileiros se preparam para depositar o voto na urna eletrônica. O cenário é bem diferente do que existia até poucas décadas atrás, quando o voto era feito em cédulas de papel, a apuração era manual e fraudes faziam parte dos problemas enfrentados nas eleições.
Alvo de questionamentos, críticas e ataques ao longo dos anos , a urna eletrônica começou a ser usada no Brasil em 1996 e foi adotada em todo o país a partir de 2000. Desde então, a urna passou por diversos aprimoramentos e testes realizados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que comprovam a integridade e a inviolabilidade do equipamento.
Antes da urna, o processo de votação passou por diferentes formatos e mudanças ao longo de mais de um século.

Mas como os brasileiros escolhiam seus representantes antes da era eletrônica? Para recontar essa história, o Metrópoles consultou o acervo do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e mostra as principais transformações pelas quais passou o voto no país.
Durante décadas, o voto no Brasil foi registrado em cédulas de papel. O modelo era utilizado desde a Proclamação da República, em 1889, e passou por diferentes mudanças ao longo do tempo.
Nas primeiras décadas do século 20, os próprios candidatos, por exemplo, podiam imprimir e distribuir as cédulas que seriam usadas pelos eleitores . Mas o papel não era a única característica do sistema. As eleições também estavam sujeitas a diferentes formas de pressão e manipulação.

Cédula das eleições de 1989. Primeiro turno para Presidente da República
Cédula eleitoral das Eleições Municipais de São Paulo de 1988
No fim do século 19 e durante parte do período republicano, os votos eram abertos e sofriam influência de lideranças políticas locais, os chamados “coronéis”. Em algumas regiões, essas figuras exerciam forte controle sobre os eleitores.

Foi somente a partir de 1945, com a reinstauração da Justiça Eleitoral, extinguida no período Getúlio Vargas (Estado Novo) , que o Brasil começou a trilhar um caminho mais democrático e a buscar formas de assegurar a legitimidade dos pleitos.
Em 1955, foi instituída a cédula única para as eleições de presidente e vice-presidente da República, uma tentativa de padronizar e formalizar o processo de votação.
Juscelino Kubitschek foi o primeiro presidente eleito com as cédulas oficiais do TSE , marcando uma nova era na organização das eleições brasileiras.

Em 1962, a cédula única foi estendida a todas as eleições, tornando-se o padrão até a chegada das urnas eletrônicas. As cédulas de papel eram depositadas em urnas físicas, que também evoluíram ao longo do tempo.
As urnas físicas também mudaram ao longo dos anos. Até a década de 1950, eram feitas de madeira, pesadas e trancadas para proteger os votos. Depois, deram lugar às urnas de lona, mais leves e fáceis de transportar.
Os modelos de lona eram brancos ou marrons e contavam com zíperes e lacres de chumbo. A partir de 1974, a urna marrom passou a ser o único modelo utilizado e se tornou uma das imagens mais conhecidas das eleições brasileiras antes da era eletrônica.

A contagem manual dos votos era um processo demorado e propenso a erros e manipulações.
Uma das práticas mais conhecidas ficou marcada pelo nome de “urna grávida”. A fraude consistia em colocar na urna cédulas previamente preenchidas antes mesmo de os eleitores começarem a votar.
O objetivo era adulterar o resultado e aumentar a votação de determinado candidato . Havia ainda outro problema: decidir o que era ou não um voto válido.

Cédulas preenchidas de maneira diferente do padrão podiam provocar longas discussões entre os fiscais. Dependendo da interpretação, o voto poderia ser considerado válido ou anulado.
As cédulas de papel também permitiam uma possibilidade que desapareceu com a informatização: escrever livremente o nome de alguém que não estava entre os candidatos.
A prática podia ser usada como forma de protesto ou simplesmente como brincadeira. Foi assim que animais de zoológicos acabaram entrando para a história eleitoral brasileira.

Foi assim que figuras como o macaco Tião, do zoológico do Rio de Janeiro, e a rinoceronte Cacareco, do zoológico de São Paulo, quase “foram eleitos” em 1988 e 1959, respectivamente.
Macaco Tião foi "candidato" a prefeito do Rio de Janeiro
Os dois casos se tornaram exemplos conhecidos do chamado “voto de protesto”.

A substituição das cédulas pela urna eletrônica veio após décadas de problemas com fraudes, demora na apuração e dificuldades de acesso ao voto.
Pessoas analfabetas e eleitores com deficiência visual, por exemplo, enfrentavam obstáculos para votar de forma independente. A urna eletrônica passou a oferecer recursos de acessibilidade, como teclado com identificação em braile e áudio por meio de fones de ouvido.
A mudança começou em 1996, quando o sistema eletrônico foi adotado em parte dos municípios, e foi concluída em 2000, com a implantação em todo o país.

Com isso, a apuração manual deu lugar ao processamento eletrônico e uma rotina baseada em cédulas, lacres e urnas de lona ficou para trás.
Receba notícias de Brasil no seu WhatsApp e fique por dentro de tudo! Basta acessar o canal de notícias do Metrópoles no WhatsApp .
Receba notícias do Metrópoles no seu Telegram e fique por dentro de tudo! Basta acessar o canal de notícias no Telegram .






Publicado originalmente por Metrópoles. Leia a matéria completa em https://www.metropoles.com/brasil/cedulas-apuracao-manual-e-fraudes-como-era-votar-antes-da-urna-eletronica.

Arte Metrópoles — Foto: Metrópoles
Compartilhe
Espalhe essa notícia

