São Miguel dos Campos

    Casarão em São Miguel dos Campos abrigou cabeças de Lampião e seu bando

    Chegada das onze cabeças dos cangaceiros a São Miguel ocorreu após o combate em Angicos

    Alagoas Web
    29 de março de 2026 às 18:34
    Casarão em São Miguel dos Campos abrigou cabeças de Lampião e seu bando
    Arquivo/ Reprodução

    A história de Alagoas e do Cangaço guarda em suas entrelinhas episódios que, mesmo macabros, tornam-se marcos fundamentais para a compreensão da cultura e da sociedade regional.

    Um desses episódios, ocorrido em 1938, envolveu a exibição das cabeças de Lampião e seu bando em São Miguel dos Campos, e o cenário para este evento foi a residência do Coronel Francisco da Rocha Santos, conhecido como Rochinha.

    Embora o casarão físico não exista mais, tendo sido demolido a pouco anos, a memória do que ali ocorreu permanece viva, preservada e recontada por historiadores e através de registros documentais.

    A principal fonte de informação para este resgate histórico é o escritor, poeta e historiador miguelense Ernande Bezerra.

    De acordo com Bezerra, o livro ‘São Miguel dos Campos - Fatos Históricos de Minha Terra’, escrito que preservar a memória local, destaca que a residência do Coronel Rocha Santos transcendeu sua função de moradia para se tornar um ‘importante marco histórico, palco de um episódio singular da história regional’.

    Exibição das cabeças

    A narrativa popular descreve a chegada das onze cabeças dos cangaceiros a São Miguel dos Campos. O evento ocorreu após o combate em Angicos, Sergipe, onde Lampião, Maria Bonita e outros membros do bando foram mortos.

    As cabeças, decapitadas e transportadas em latas de querosene contendo formol, foram inicialmente exibidas em frente à casa do Coronel Rochinha.

    Esta macabra exibição, que chocou e ao mesmo tempo atraiu a curiosidade da população, foi um momento crucial para o estado de Alagoas. A figura de Lampião, ora vista como herói popular, ora como bandido cruel, teve seu fim marcado por essa demonstração de força do poder público.

    Cabeças de integrantes do bando de Lampião, inclusive do próprio cangaceiro, foram exibidas em vários locais (imagem: reprodução)

    Posteriormente, as cabeças foram levadas para a escadaria da Igreja de Nossa Senhora do Ó, onde continuaram a ser expostas antes de seguirem para Maceió.

    O trajeto reforçou a centralidade da residência do Coronel na geografia urbana da cidade na época, localizada na rua que levava seu nome, Rua Cel. Rocha Santos, onde se encontra o primeiro edifício da cidade (prédio do Zé Cavalcante ou prédio da Caeté), e à descida para o mercado público, Travessa Sampaio Marques.

    Preservação da Memória

    A demolição do casarão do Coronel Rocha Santos é apontada por Ernande Bezerra como uma ‘perda lamentável do patrimônio histórico local’. A casa passou por diferentes proprietários após a morte do Coronel e de sua esposa, Dona Maria Júlia: o Dr. Mário Borges, seu filho Dr. Alcides, e finalmente, o Sr. Ben-hur. Cada troca de propriedade, de certa forma, diluiu a conexão material com o evento de 1938.

    Casarão foi demolido a alguns anos (imagem: Google Maps)

    No entanto, o historiador ressalta a força da ‘memória imaterial’, que resiste à destruição física. Além dos registros em livros, a história da residência e da exibição das cabeças de Lampião continua viva através de discussões em redes sociais e está documentada no Museu Histórico e Cultural Fernando Lopes.

    A atuação de Ernande Bezerra como guardião dessa memória é fundamental para que as gerações presentes e futuras de São Miguel dos Campos e de Alagoas possam compreender este capítulo complexo e marcante da história regional.

    O episódio da residência do Coronel Rochinha, por mais sombrio que pareça, é um lembrete da fragilidade do patrimônio material e da necessidade de preservar a história através de narrativas e registros escritos.

    A história de São Miguel dos Campos, com seus personagens e eventos singulares, continua a ser contada, e o casarão que recebeu as cabeças de Lampião, mesmo inexistente, permanece como um ponto de referência crucial nessa narrativa.

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