Casa histórica da Vila Itororó passa por restauro e deve reabrir em novembro no centro de SP
Equipe recuperou madeiras originais do imóvel e descobriu, sob camadas de tinta, pinturas florais e paredes verdes que remontam à década de 1920

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Quando Adoniran Barbosa caminhou pelas ruas do Bixiga de braços dados com a cantora Elis Regina , em 1978, ele a levou para visitar a Vila Itororó, já com sinais de decadência.

Logo na entrada, os dois passaram diante da casa 8, onde ainda funcionava o Clube Éden Liberdade. Se, no samba "Saudosa Maloca" , o dono manda demolir a antiga moradia "em nome do progresso", a história desse imóvel histórico teve outro desfecho: está sendo restaurado.
A Vila Itororó é um conjunto arquitetônico do início do século passado localizado no bairro da Bela Vista, região central de São Paulo , às margens da avenida 23 de Maio. Foi construída por Francisco de Castro, descendente de imigrantes portugueses, e reunia casas de aluguel, jardins, um palacete e decorações reaproveitadas da demolição de outros prédios.
Dentro deste complexo, está a casa 8, construída num terreno de várzea desvalorizado (à época) para receber a sede do Éden Liberdade Futebol Clube, um dos primeiros times de várzea de São Paulo .

A equipe ocupava o amplo pavimento térreo, com quadra poliesportiva e vestiários, e destinado à convivência, além de atividades sociais e esportivas. Ali funcionava também a primeira piscina coletiva privada da cidade. Apenas sócios tinham acesso.
O amplo pavimento térreo foi pensado para esse tipo de uso, de socialização. "Essa característica faz todo sentido como um clube de lazer. Não à toa, a piscina é parte dessa casa extraordinária", afirmou Norton Ficarelli, diretor de projetos do Instituto Pedra, especializado em trabalhos na área de patrimônio cultural.
O térreo já foi restaurado na primeira etapa. O foco agora são os andares superiores. Esses dois pavimentos têm características residenciais e dois apartamentos, um em cada andar. Os apartamentos eram compostos por uma sala, dois quartos, uma cozinha e um banheiro.

"O acesso aos apartamentos é feito por uma escadaria independente, que também faz parte dessa etapa do restauro. Ela dá acesso a esses pavimentos", disse Ana Luiza Teixeira, arquiteta coordenadora do Instituto Pedra.
Segundo Ficarelli, os dois andares superiores foram usados como moradia, embora não se saiba ao certo quem viveu ali e se tinham alguma relação de trabalho com o Clube Éden Liberdade.
A intervenção nos pavimentos superiores, que começou em abril, inclui a renovação das instalações elétricas e hidráulicas, além da recuperação de pisos, forros, paredes e esquadrias.

O estado de conservação do imóvel varia entre os ambientes. A casa 8 é uma das que mais preserva aspectos originais na vila, de acordo com Érica Machado, arquiteta e gerente de obras da Concrejato, empresa de engenharia responsável pelas obras.
No pavimento mais próximo da cobertura, pisos e forros estavam muito deteriorados e não puderam ser reaproveitados. Em outras áreas, foi possível preservar elementos de madeira da própria casa, disse Érica.
O encarregado da obra, Weneilson Santos, 46, afirmou que um dos principais desafios foi identificar os danos nas portas e esquadrias, que pareciam conservadas, mas haviam sido deterioradas por cupins internamente. "Eles comeram as madeiras de dentro para fora."

A restauração não prevê a substituição de todos os elementos. Nos componentes de madeira, a equipe preserva o que pode ser reaproveitado. "A gente faz um enxerto de madeira e substitui apenas aquilo que estava danificado", contou Érica.
As peças que puderam ser reaproveitadas foram retiradas, identificadas e recolocadas nos ambientes, segundo ela. As esquadrias que estavam faltando serão reproduzidas com base em fotografias e registros das peças originais.
Durante a obra, também foram encontradas pinturas decorativas sob camadas de tinta. As prospecções revelaram desenhos florais feitos com molde e sobreposições de pinturas de diferentes períodos.

Em duas salas que funcionavam como cozinhas, a equipe encontrou paredes com duas cores e um friso entre elas. Uma das tonalidades mais antigas identificadas é esverdeada.
"A gente vai entregar as mesmas características, só que agora de uma forma conservada", disse Érica. Segundo ela, a configuração da casa não foi alterada.
Além do interior, a fase atual do restauro inclui três fachadas. Os serviços preveem limpeza e recuperação das alvenarias, incluindo o restauro dos tijolos aparentes e dos revestimentos. A obra está prevista para terminar até 30 de novembro, segundo a Concrejato.
Além das atividades esportivas, a casa 8 também recebeu festas, bailes e casamentos. O clube permaneceu no imóvel até meados de 1992.
Com o abandono progressivo da Vila Itororó pelos proprietários, o térreo foi alugado para uma lavanderia terceirizada que fazia tingimento de roupas. A atividade utilizava a água que brotava no próprio complexo, proveniente do antigo riacho Itororó, onde hoje está a avenida 23 de Maio.
Quando as obras de restauração da Vila Itororó começaram, no fim de 2014, ainda havia no local grandes tonéis, estruturas arredondadas de madeira, e um reservatório de água, da época da lavanderia.
O restauro atual é financiado por um projeto de R$ 2 milhões do ProAC (programa estadual de fomento), com recursos da lei Aldir Blanc (federal). O valor inclui obras, ações de divulgação e duas oficinas gratuitas de educação patrimonial.
Uma das oficinas já foi realizada. A segunda está prevista para novembro e será aberta ao público.
A primeira etapa desse restauro nos pavimentos superiores recebeu R$ 492 mil do ProMac (programa municipal de fomento), em 2023, para a recuperação da cobertura e a impermeabilização da laje. Infiltrações foram contidas, assim como o avanço da degradação.
O térreo continua recebendo eventos. Segundo a Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa, a casa 8 terá programações culturais gratuitas e semanais depois da conclusão do restauro. Atualmente, o espaço recebe entre 15 mil e 20 mil visitantes por mês.
A secretaria ainda definirá o uso dos dois pavimentos restaurados. Uma das possibilidades é que um dos apartamentos funcione como camarim para os espetáculos realizados no térreo. Também poderão ser realizadas oficinas e outras atividades abertas ao público.
A casa 8 não é o endereço de "Saudosa Maloca", mas poderia abrigar os personagens e a vida dos cortiços imaginados na canção. Décadas depois de Adoniran Barbosa passar pela vila, o imóvel foi escolhido como cenário de "Dá Licença de Contar" (2015), filme ambientado nos anos 1920, período em que a construção foi erguida.
Na produção, o espaço se transforma na moradia retratada na música , com Paulo Miklos no papel do compositor. O elenco conta ainda com Ney Matogrosso e Gero Camilo.
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Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/09/casa-historica-da-vila-itororo-passa-por-restauro-e-deve-reabrir-em-novembro-no-centro-de-sp.shtml.

Operário trabalho na restauração de elementos históricos da Casa 8 da Vila Itororó - Bruno Santos/Folhapress · Bruno Santos/Folhapress — Foto: UOL
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