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    Carne de laboratório mira ração animal, sushi e chocolate para crescer

    Quando a carne cultivada em laboratório começou a atrair a atenção dos investidores, a promessa era simples: bife sem gado, frango sem aves -uma dieta carnívora livre de seu peso moral. Leia mais (10/01/2026 - 13h08)

    Folha de S.Paulo
    1 de outubro de 2026 às 16:08
    Carne de laboratório mira ração animal, sushi e chocolate para crescer
    Foto: Folha de S.Paulo

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    Londres | Financial Times Quando a carne cultivada em laboratório começou a atrair a atenção dos investidores, a promessa era simples: bife sem gado, frango sem aves —uma dieta carnívora livre de seu peso moral.

    Hambúrguer cultivado em laboratório foi produzido a partir de células-tronco de bovinos e recebeu suco de beterraba e açafrão para ganhar coloração avermelha - David Parry - 05.ago.13/Reuters · David Parry - 05.ago.13/Reuters
    Hambúrguer cultivado em laboratório foi produzido a partir de células-tronco de bovinos e recebeu suco de beterraba e açafrão para ganhar coloração avermelha - David Parry - 05.ago.13/Reuters · David Parry - 05.ago.13/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Uma década depois, o primeiro "alimento cultivado" está chegando ao mercado, mas em lugares menos óbvios: tigelas de cães, balcões de sushi, barras de chocolate e, se depender de uma startup de Londres, salsichas.

    A promessa de uma rápida migração das fazendas para as fábricas perdeu força. A nova aposta é mais específica: células cultivadas serão usadas primeiro em nichos do sistema alimentar em que o preço seja mais fácil de absorver ou em que as vantagens sejam mais simples de explicar.

    "A tecnologia existe, mas é uma tecnologia para produzir salsichas melhores, não bifes premium completamente novos", disse Max Jamilly, cofundador e diretor-executivo da Hoxton Farms, empresa londrina que cultiva gordura suína.

    Prato preparado com carne de origem vegetal e gordura suína na Hoxton Farms, startup que cultiva gordura de porco em laboratório, em Londres - Ben Stansall - 16.jul.25/AFP · Ben Stansall - 16.jul.25/AFP
    Prato preparado com carne de origem vegetal e gordura suína na Hoxton Farms, startup que cultiva gordura de porco em laboratório, em Londres - Ben Stansall - 16.jul.25/AFP · Ben Stansall - 16.jul.25/AFP — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O alimento cultivado começa com uma pequena amostra de células animais ou vegetais. Elas recebem nutrientes e são cultivadas em um ambiente controlado dentro de um biorreator — um processo que, se ficar barato e confiável, poderia romper a ligação da produção de alimentos com animais, terras agrícolas e pesca.

    Mas o setor tem sido prejudicado pelos custos elevados, pela lentidão da regulamentação, pelo ceticismo dos consumidores e pela dificuldade de transformar processos de laboratório em produção industrial em larga escala.

    Esses problemas ficaram mais difíceis de ignorar à medida que o financiamento secou.

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    Em 2021, no auge do boom das tecnologias climáticas, empresas de proteínas alternativas captaram mais de US$ 5 bilhões, (R$ 26,16 bilhões) segundo o Good Food Institute, enquanto startups como Upside Foods, Eat Just, Believer Meats e Mosa Meat prometiam levar frango e carne bovina cultivados em laboratório para a produção industrial.

    O setor captou US$ 881 milhões (R$ 4,61 bilhões) no ano passado, mas empresas de carne e frutos do mar cultivados atraíram apenas US$ 74 milhões (R$ 387,1 milhões). Agora, as startups tentam entrar em mercados iniciais antes de conseguir concretizar suas visões de transformação do setor.

    Jim Mellon, empresário e investidor britânico que apostou em uma série de empresas de alimentos cultivados e de fermentação por meio de veículos como a Agronomics, acredita que algumas empresas da primeira leva não entenderam o tipo de negócio que estavam construindo.

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    Algumas startups americanas, disse ele, "acharam que estavam no Vale do Silício", o que justificaria "salários muito altos" e "ambientes no estilo Google ou Meta". Mas o alimento cultivado era "um processo industrial", no qual as margens "não serão de 50%".

    A crítica de Mellon reflete uma reavaliação mais ampla entre fundadores e investidores: o setor precisa de fábricas, aprovações regulatórias, compradores e custos de produção suficientemente baixos para competir com alimentos produzidos da maneira tradicional.

    A Meatly, empresa financiada pela Agronomics cujo frango cultivado é derivado de "uma única amostra de células de um único ovo, uma única vez", tenta provar o modelo no mercado de alimentos para animais de estimação. No ano passado, a empresa testou o mercado com uma pequena produção de petiscos para cães, feita em parceria com a marca de alimentos vegetais para animais The Pack e com a varejista Pets at Home, que também é investidora.

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    "Achamos que o importante era ter um produto no mercado para começar a conversar com os consumidores", disse Owen Ensor, diretor-executivo.

    A startup, que captou 10,4 milhões de libras (R$ 71,45 milhões) para construir o que afirma ser a maior instalação de carne cultivada da Europa, acredita que o mercado de alimentos para animais oferece escala e um mercado inicial mais favorável. O setor global movimenta cerca de 120 bilhões de libras (R$ 828,58 bilhões), e os fabricantes dependem da cadeia de suprimentos de alimentos humanos para obter subprodutos de carne, que às vezes têm oferta volátil.

    Mas os desafios de engenharia continuam grandes. As empresas de carne cultivada ainda precisam demonstrar que as células conseguem crescer de forma confiável em grandes tanques, sem contaminação e em volumes que justifiquem o custo das instalações. Ensor diz que as células animais são frágeis: elas não têm paredes celulares e podem ser danificadas pela pressão, por bolhas ou pela mistura. Qualquer bactéria ou levedura que entre no tanque pode crescer rapidamente e superar as células. "O fundamental é provar que isso funciona em escala", disse ele.

    A Hoxton Farms segue um caminho diferente: vende gordura cultivada como ingrediente para fabricantes de carnes processadas. Jamilly afirma que a gordura é fundamental para o sabor e a textura da carne, mas costuma ser tratada como um elemento secundário.

    "Quando você come uma salsicha, pode ser que a carne magra venha de um país e a gordura, de um país completamente diferente", disse. A oferta de gordura pode, portanto, ser volátil, enquanto uma quantidade relativamente pequena de gordura cultivada poderia melhorar um produto muito maior.

    Nos primeiros anos do setor de carne cultivada em laboratório, disse ele, "havia um grande foco em veganos e vegetarianos, algo que sempre achei que fazia pouco sentido. Primeiro, porque, do ponto de vista climático, eles já são um problema resolvido. Segundo, porque são um mercado relativamente pequeno".

    A Hoxton captou cerca de US$ 35 milhões (R$ 182 milhões) e busca inicialmente aprovação na Ásia. A empresa apresentou no fim de 2025 um dossiê regulatório para gordura suína cultivada em Cingapura e tem uma parceria com a Sumitomo Corporation, no Japão. Jamilly espera que a primeira aprovação da Hoxton ocorra no próximo ano no leste da Ásia, seguida pelos Estados Unidos.

    Os frutos do mar oferecem outra oportunidade. A startup Wildtype, de San Francisco, começou a vender salmão produzido a partir de células depois de concluir uma consulta regulatória com a FDA (Food and Drug Administration) e afirma ser uma das poucas empresas de alimentos cultivados a enviar produtos todas as semanas.

    A proposta da empresa não se baseia apenas no clima ou no bem-estar animal, mas também na pureza: salmão sem parasitas, mercúrio, microplásticos ou antibióticos. "Ninguém quer poluição na própria comida", disse o cofundador Justin Kolbeck.

    A Wildtype escolheu o salmão para sushi, em parte, porque peixes premium conseguem suportar um preço mais alto que carnes de commodities. Mas Aryé Elfenbein, outro cofundador, disse que o formato também foi importante porque apresentar o salmão cultivado de uma forma reconhecível e atraente "nos permitiu realmente começar a conversa a partir do ponto de vista da comida, e não da ciência".

    A mesma lógica está surgindo além da carne e do peixe. A Celleste Bio, startup israelense apoiada pela Mondelez, produziu barras de chocolate usando manteiga de cacau cultivada a partir de células na fábrica da Cadbury em Bournville, em Birmingham. A proposta da empresa não é que os consumidores estejam clamando por chocolate cultivado em laboratório, mas que as fabricantes de confeitos precisam de uma oferta mais confiável depois de anos de volatilidade nos preços do cacau.

    Partindo de um ou dois grãos de cacau, a Celleste retira células da planta e as cultiva em tanques. Michal Beressi Golomb, diretora-executiva da empresa, descreve o processo como a criação de uma "nova árvore de cacau para células de cacau". A empresa afirma que sua manteiga de cacau tem perfil químico idêntico ao produto convencional e pode ser usada como uma "substituição direta" na fabricação de chocolate.

    A Celleste busca aprovações regulatórias nos Estados Unidos e em Israel até o fim de 2027 e pretende alcançar uma produção anual de 50 mil toneladas de manteiga de cacau até 2035 —ainda uma pequena parcela de um mercado que estima movimentar cerca de 2 milhões de toneladas.

    Os riscos para o setor continuam substanciais. Muitos consumidores ainda desconfiam dos alimentos "cultivados em laboratório", termo que a indústria não gosta, mas do qual não consegue escapar. Jamilly diz preferir "cultivado", argumentando que "cultivado em laboratório soa meio nojento".

    A regulamentação continua lenta, especialmente na Europa, e alguns estados americanos avançaram para restringir ou proibir a carne cultivada.

    Nenhuma empresa ainda provou que alimentos cultivados podem passar de lançamentos cuidadosamente controlados e instalações-piloto para a produção em massa, a preços que as empresas tradicionais de alimentos estejam dispostas a pagar.

    Mellon argumenta que, se as fábricas fossem construídas e os custos reduzidos, o setor poderia ajudar a enfrentar a insegurança alimentar, a volatilidade dos preços e os danos ambientais provocados pela agricultura intensiva. Mas afirma que a indústria só terá sucesso se conseguir se transformar em um negócio, e não em uma causa moral.

    "Se não tivermos o incentivo capitalista para fazer isso funcionar, não vai funcionar", afirma.

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://c-level.folha.uol.com.br/agro/2026/10/carne-de-laboratorio-mira-racao-animal-sushi-e-chocolate-para-crescer.shtml.

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    Hambúrguer cultivado em laboratório foi produzido a partir de células-tronco de bovinos e recebeu suco de beterraba e açafrão para ganhar coloração avermelha - David Parry - 05.ago.13/Reuters · David Parry - 05.ago.13/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo

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