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    “Carnaval na Quaresma”: blocos de BH ameaçam boicotar desfiles

    Mudança foi aprovada em votação entre representantes de escolas de samba e blocos caricatos, mas agremiações alegam que não foram convidadas

    Metrópoles
    26 de agosto de 2026 às 05:30
    “Carnaval na Quaresma”: blocos de BH ameaçam boicotar desfiles
    Foto: Metrópoles

    Belo Horizonte — A decisão de transferir os desfiles das escolas de samba e dos blocos caricatos de Belo Horizonte para depois do Carnaval abriu uma crise entre as agremiações. O Leão da Lagoinha, um dos blocos mais antigos da capital, ameaça não entrar na avenida em 2027 caso a programação seja mantida durante a Quaresma .

    Grupos contrários à mudança também levaram o caso ao Ministério Público de Minas Gerais (MPMG). Eles alegam que nem todas as agremiações foram convidadas para a reunião que aprovou o novo calendário e questionam a transparência da votação.

    Desde 2025, os desfiles de passarela são realizados na segunda e na terça-feira de Carnaval, na Avenida dos Andradas, diante da Praça da Estação. Em 2027, a programação foi marcada para ocorrer entre 12 e 14 de fevereiro, de sexta-feira a domingo. O período começa três dias depois da terça-feira de Carnaval, em 9 de fevereiro, e já está dentro da Quaresma.

    PBH/ Divulgação
    PBH/ Divulgação — Foto: Metrópoles · Fonte: Metrópoles

    A alteração foi aprovada por 13 votos a 9 em uma reunião realizada na sede da Empresa Municipal de Turismo de Belo Horizonte (Belotur), em 17 de agosto.

    “Ela quer transferir o desfile de passarela para a sexta-feira de Quaresma. Isso aconteceu numa votação dentro da própria Belotur, entre os representantes de escolas de samba e blocos caricatos. Porém, alguns atores desse desfile não ficaram sabendo dessa reunião e nem foram convidados. Posso dizer em nome do bloco Leão da Lagoinha, que é o primeiro bloco de BH. Nós abrimos o desfile de passarela desde 1947”, disse Jairo Nascimento Moreira, presidente do bloco.

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    O Leão da Lagoinha foi fundado em 1947 e é apontado pela própria PBH como o primeiro bloco de rua de Belo Horizonte
    O Leão da Lagoinha foi fundado em 1947 e é apontado pela própria PBH como o primeiro bloco de rua de Belo Horizonte — Foto: Metrópoles · Fonte: Metrópoles

    Representantes são contra a mudança e citam, entre os motivos, a tradição religiosa de integrantes das agremiações e o risco de redução do público.

    “Nós, dos blocos caricatos, não aceitamos. Queremos desfilar no Carnaval. O dia oficial é segunda e terça-feira. […] No meu bloco, hoje, de 80% a 85% dos componentes são católicos e de 10% a 15% são da Umbanda. Os dois segmentos religiosos guardam a Quaresma . Como vamos fazer Carnaval, a Festa da Carne, na Quaresma?”, questiona um representante de um dos blocos que não foi convidado para a reunião e preferiu não se identificar.

    Jairo, do Leão da Lagoinha , também acredita que a mudança pode afastar o público e prejudicar comerciantes e ambulantes.

    “Vai impactar muito a cidade de BH e causar grandes prejuízos financeiros para o comércio e para os ambulantes, porque as pessoas respeitam a religiosidade, guardam a Quaresma. Então, o Leão da Lagoinha já tomou uma posição: se mantiverem esse desfile na sexta-feira de Quaresma, o bloco, em respeito à religiosidade, não irá para a avenida”, afirmou.

    Fundado em 1947, o Leão da Lagoinha é considerado o primeiro bloco de BH e, tradicionalmente, abre os desfiles oficiais de passarela da cidade. Ao longo de sua história, o bloco teve ligação com nomes marcantes da capital, como Juscelino Kubitschek e Hilda Furacão. Os blocos também argumentam que retirar os desfiles do período oficial do Carnaval pode reduzir o público e enfraquecer a produção carnavalesca local.

    Ainda segundo os blocos, não houve transparência na votação. Ele afirma que, antes da reunião, representantes de escolas de samba e blocos caricatos já usavam camisas em apoio à mudança, o que, para ele, indica uma articulação prévia.

    “Antes da votação, alguns representantes de escolas de samba e blocos caricatos estavam usando uma camisa preta escrita ‘Nós apoiamos a mudança’. Então, presume-se que houve uma articulação nos bastidores para que essas escolas de samba e blocos caricatos votassem a favor. Quando algumas agremiações não são convidadas, não há transparência”, disse Jairo

    A Liga Independente das Escolas de Samba de Minas Gerais (LIES-MG), que representa Bem-Te-Vi , Acadêmicos de Venda Nova , Triunfo Barroco , Estrela do Vale e Imperatriz de Venda Nova , também se posicionou contra a mudança e questionou a transparência do processo.

    A entidade afirma que pediu, sem sucesso, dados técnicos que comprovassem os benefícios da alteração.

    O representante, que preferiu não se identificar, disse que o conflito com a Belotur começou há alguns anos. Até 2024, os blocos caricatos desfilavam na Avenida Afonso Pena . Em 2025, os desfiles foram transferidos para a Avenida dos Andradas , em frente à Praça da Estação, onde também ocorreram em 2026.

    Segundo ele, as agremiações aceitaram a mudança após a promessa de um terceiro dia de desfiles e de uma estrutura melhor , mas o acordo não teria sido cumprido . Atualmente, a programação é concentrada em apenas dois dias, o que prejudicaria principalmente as escolas de samba do grupo de acesso, que acabam desfilando durante o dia ou de madrugada.

    “Queriam que o Leão da Lagoinha concentrasse ao meio-dia, debaixo de um sol escaldante, para desfilar por uma hora. Nós questionamos porque no bloco há idosos e crianças, e, no horário de almoço, era inviável desfilar”, afirmou Jairo.

    Segundo ele, em outros anos, houve escolas que entraram na avenida “às 6h, 7h da manhã, com a passarela vazia. Não tinha ninguém nas arquibancadas, jurados com sono, jurados até dormindo para fazer os julgamentos.”

    “Foi prometido que teríamos três dias se aceitássemos sair da Afonso Pena. […] Nós aceitamos porque seria para melhorar o Carnaval, ter três dias e uma estrutura melhor. O que aconteceu? A Belotur não cumpriu. Fomos para a Andradas, não tivemos o terceiro dia e depois fomos comunicados de que não haveria essa possibilidade ”, afirmou Janjão, presidente do Bloco Caricato Unidos da Zona Norte.

    Jairo afirmou que as agremiações contrárias à mudança começaram a colher assinaturas on-line. “Colocaremos uma barraca na Praça Sete para colher assinaturas da população de Belo Horizonte”, disse.

    O documento enviado ao MPMG, assinado por Fernando Fernandes de Abreu, em nome da Associação Brasil Legal (ONG Brasil Legal), e protocolado em 20 de agosto de 2026, afirma que a mudança foi decidida sem transparência e questiona a forma como as votações foram realizadas . Segundo a petição, a nova data pode causar prejuízos para quem trabalha na folia, reduzir o público e enfraquecer a tradição dos desfiles.

    A representação também pede que sejam avaliadas propostas para reconhecer os desfiles como patrimônio cultural imaterial de BH e garantir recursos públicos para a realização da festa.

    “Os blocos caricatos são uma cultura de Belo Horizonte. No ano que vem, serão 130 anos de história, e o poder público não reconhece essa cultura. Está jogando a nossa cultura para o canto”, afirmou um dos representantes.

    A reportagem entrou em contato com a PBH e com o MPMG e aguarda retorno.

    Publicado originalmente por Metrópoles. Leia a matéria completa em https://www.metropoles.com/minas-gerais/carnaval-na-quaresma-blocos-de-bh-ameacam-boicotar-desfiles.

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