Brasil

    Capturar o Estado é mais rentável?

    É tentador olhar para Daniel Vorcaro como uma aberração do capitalismo brasileiro. Em poucos anos, um banqueiro relativamente desconhecido construiu uma extensa rede de relações com Brasília , enquanto seu banco crescia de maneira vertiginosa. Depois, tudo desmorona. O Banco Central liquida o Master e seu controlador acaba preso. Leia mais (09/07/2026 - 18h00)

    Folha de S.Paulo
    7 de setembro de 2026 às 21:00
    Capturar o Estado é mais rentável?
    Homem de terno escuro e gravata clara sentado em cadeira branca, segurando microfone e gesticulando durante palestra. Fundo azul com padrões ondulados e painéis com logo 'esfera'. — Foto: Folha de S.Paulo

    Ciclista, duas vezes vencedor do Prêmio Jabuti Acadêmico e doutor em economia pela USP. Coordenador no Insper, foi visiting scholar em Columbia, Stanford e Oxford

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    O banqueiro Daniel Vorcaro durante o Seminário Brasil Hoje, organizado pelo Esfera Brasil, no Palácio Tangará, em 2024 - Rubens Cavallari - 22.abr.24/Folhapress · Rubens Cavallari - 22.abr.24/Folhapress
    O banqueiro Daniel Vorcaro durante o Seminário Brasil Hoje, organizado pelo Esfera Brasil, no Palácio Tangará, em 2024 - Rubens Cavallari - 22.abr.24/Folhapress · Rubens Cavallari - 22.abr.24/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    É tentador olhar para Daniel Vorcaro como uma aberração do capitalismo brasileiro. Em poucos anos, um banqueiro relativamente desconhecido construiu uma extensa rede de relações com Brasília , enquanto seu banco crescia de maneira vertiginosa. Depois, tudo desmorona. O Banco Central liquida o Master e seu controlador acaba preso.

    Uma explicação corriqueira é considerar Vorcaro uma anomalia. O capitalismo brasileiro funcionaria normalmente e, de tempos em tempos, surgiria alguém disposto a ultrapassar os limites.

    Porém, tal explicação parece otimista demais.

    Imagem da matéria
    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Vorcaro provavelmente é excepcional pela escala. Poucos empresários conseguiram circular com tamanha facilidade por ambientes tão distintos do poder. Contudo, um empresário precisa cometer um crime para se beneficiar de suas conexões políticas? Evidentemente, não.

    E aqui cabe uma ressalva. Em diversas economias ricas, empresários também fazem lobby. Empresas americanas e europeias gastam fortunas tentando influenciar governos. A diferença relevante está no retorno dessas estratégias. Quanto maior o prêmio oferecido pelas relações políticas, maior o incentivo para que talento empresarial seja direcionado à construção de conexões em vez de empresas melhores.

    O Brasil possui uma gama de empresários extraordinariamente competentes em navegar pelo Estado e uma economia extraordinariamente ruim em aumentar a produtividade. Isso fez parte de boa parte de nossa história, na qual o Estado decidiu muito sobre quem poderia ganhar dinheiro. Para isso, escolheu setores protegidos, distribuiu concessões, criou barreiras à importação e escreveu regulações capazes de determinar vencedores e perdedores.

    Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha

    Então, criaram-se algumas grandes empresas. Mas também se criou um tipo particular de habilidade empresarial. Em certos mercados, entender Brasília pode valer mais do que entender o consumidor.

    Contudo, seria um erro concluir que todos os empresários se comportam dessa maneira. A maior parte das empresas sobrevive vendendo bens e serviços e enfrentando uma economia cheia de dificuldades.

    Em uma sociedade extremamente desigual, o acesso ao poder também é desigual. Um cidadão e um empresário comum até podem mandar um email para um deputado, mas um grande grupo econômico pode contratar uma equipe inteira para conversar permanentemente com deputados, ministérios e agências reguladoras.

    Se, de um lado, a democracia oferece formalmente o mesmo peso nas urnas a cada pessoa, do outro, a economia oferece capacidades muito diferentes de fazer essa voz ser ouvida durante os quatro anos seguintes.

    A desigualdade concentra recursos. Recursos ampliam a capacidade de influência. Influência pode ajudar determinados grupos a conquistar regras favoráveis. Essas regras protegem rendas e patrimônios. A concentração aumenta novamente.

    Chega um momento em que ser muito rico ajuda alguém a influenciar as regras que determinam quem ficará e permanecerá rico amanhã. Enquanto isso, o cidadão e o empresário comum participam da política principalmente por meio do processo eleitoral. Porém, grandes grupos econômicos participam dela todos os dias.

    O texto dessa coluna representa a continuação da série baseada no meu novo livro, "Os custos das desigualdades: uma carta às elites", e uma homenagem à música "Sambinha", interpretada por Marie So.

    LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Na página Colunas da Folha você encontra opinião e crônicas de colunistas como Mônica Bergamo , Elio Gaspari , Djamila Ribeiro , Tati Bernardi , Dora Kramer , Ruy Castro , Muniz Sodré , Txai Suruí , José Simão , Thiago Amparo , Antonio Prata e muito mais.

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/michael-franca/2026/09/capturar-o-estado-e-mais-rentavel.shtml.

    Imagem 1
    1 / 2

    O banqueiro Daniel Vorcaro durante o Seminário Brasil Hoje, organizado pelo Esfera Brasil, no Palácio Tangará, em 2024 - Rubens Cavallari - 22.abr.24/Folhapress · Rubens Cavallari - 22.abr.24/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)