Canetas emagrecedoras transformam corpo, mente e mercado da moda
Psicóloga avalia novos padrões de consumo e comportamento em função da popularização dos medicamentos GLP-1; mercado reage às mudanças

Não é novidade que as canetas emagrecedoras já fazem parte da realidade de milhões de pessoas em todo o mundo. Nos Estados Unidos, uma em cada cinco casas tem pelo menos um usuário ativo desses medicamentos , segundo pesquisa da consultoria PwC . Para muito além da saúde, os efeitos dessa nova “tendência” começaram a afetar negócios de diferentes setores , desde bares e restaurantes até lojas de roupas, que precisaram repensar os produtos vendidos em função do novo padrão de consumo .
No último ano, a Victoria’s Secret – famosa marca de lingerie – viu suas ações valorizarem cerca de 300% , mesmo em meio a uma recuperação operacional. Na última quinta-feira (3/9), a etiqueta registrou um crescimento de 10% nas vendas no segundo trimestre de 2026, com um faturamento de US$ 1,611 bilhão.
Muitos especialistas estão atribuindo esse fato ao “efeito Mounjaro”: por conta da popularização dos medicamentos GLP-1, milhões de pessoas tiveram seus corpos transformados e, consequentemente, precisaram renovar seus guarda-roupas .

De acordo com a Circana, empresa de pesquisa de mercado, 80% dos usuários das canetas emagrecedoras já esperam precisar comprar novas roupas por causa da mudança de tamanho, e mais da metade já o fez. A esse fenômeno, se deu o nome de “economia da transformação corporal”.
A psicóloga Marina Antonucci (CRP 01/22778), no entanto, alerta para as consequências mentais que a rápida perda de peso pode provocar . Ela explica que existe um intervalo de tempo – curto, porém decisivo – entre o corpo que muda e a mente que reconhece essa mudança.
“É nesse intervalo que mora boa parte do que estamos vivendo agora, em escala global, com a popularização dos medicamentos GLP-1”, afirma Marina. “Quando a mudança física acontece em poucos meses, é comum que a pessoa continue, por um tempo, se enxergando como era antes”, detalha. Determinados hábitos prejudicam o efeito dessas injeções Nesse intervalo, ainda é comum que as os indivíduos busquem roupas no tamanho antigo, hesitem em se olhar diante da vitrine e estranhem fotos recentes e antigas .

Esse descompasso tem nome na clínica: dismorfia perceptiva transitória , entendido como um atraso inicial de adaptação. “Isso não é sinal de ingratidão pela mudança, é o tempo psíquico tentando alcançar o tempo biológico, que as medicações fazem ser bem mais rápido do que anteriormente visto”, destaca.
A psicóloga ressalta, ainda, que, quando alguém emagrece de forma significativa e precisa trocar de guarda-roupa, o que está em jogo não são apenas os centímetros a menos. “ É uma negociação sobre como essa pessoa quer ser vista e, mais do que isso, sobre quem ela decide que é agora ”, acredita.
“Comprar é também uma forma de narrar, a partir da escolha pelo produto. Já sabemos há muito tempo que a compra de certos itens demarca um certo pertencimento. O risco é quando essa narrativa vira uma compensação: quando o guarda-roupa novo tenta preencher, à força de consumo, uma autoestima que a perda de peso, sozinha, não resolve. Emagrecer muda o espelho, mas não necessariamente cura a relação que a pessoa tem com o que o espelho reflete. O físico mudou… E o mental? E o emocional?”, reflete Marina. Caneta emagrecedora De escolha individual a expectativa social Nesse cenário, cresce a preocupação de que o emagrecimento deixa de ser uma escolha e passa a ser uma exigência silenciosa . Historicamente, a cultura ocidental opera sob um ideal de magreza persistente , mesmo quando inatingível para a maioria dos corpos.

“A diferença agora é que a ‘inatingibilidade’ perdeu parte de sua função separatista, ou seja, o modelo ideal que antes estava fora de alcance para a maior parte das pessoas tornou-se tecnicamente acessível a quem pode pagar por ele”, afirma a profissional.
Surge, então, o questionamento: que efeito tem, na saúde mental coletiva, a sensação de que um padrão corporal antes trabalhoso (ou impossível) se tornou “fácil” de alcançar?
Na visão de Marina, há, por um lado, um ganho real e documentado: menos ruído alimentar, mais controle percebido, mais autoestima relatada por quem usa a medicação de forma acompanhada. Por outro, a facilidade também achata a tolerância à diversidade de corpos .

“Quando um resultado estético se torna tecnicamente replicável, a régua social se movimenta e volta a colocar sob suspeita todo corpo que, por escolha, por condição de saúde ou simplesmente por não usar a medicação, permanece fora do novo padrão. A pressão não desaparece: ela apenas muda de fonte”, alerta. Hailey Bieber foi criticada por aparência em vestido O mercado observa a insatisfação Relatórios do setor não escondem que existe, de fato, um risco de transformar esse momento em combustível para mais consumo e insatisfação corporal . A PwC observa uma “oportunidade de mercado” de bilhões de dólares em torno da transição corporal dos usuários de GLP-1: moda, suplementação, fitness, aplicativos de bem-estar – tudo pensado para acompanhar e monetizar cada fase dessa mudança .
“Não há nada inerentemente errado em empresas responderem a uma necessidade real das pessoas”, acredita a psicóloga. “O problema está no ponto de virada: quando a oferta deixa de responder a uma necessidade e passa a alimentar a insegurança e um senso de urgência e necessidade que garante a próxima compra”, pontua. A pesquisa mostra, ainda, que 85% de usuários desses medicamentos sentem que as marcas ainda não os atendem bem , e “é exatamente essa lacuna, entre suporte genuíno e exploração comercial da insatisfação, que vai definir se essa nova economia vai cuidar das pessoas ou apenas vender para elas”, afirma Marina.
Por fim, a psicóloga destaca que as canetas emagrecedoras não são, isoladamente, o problema nem a solução . “Elas são um acelerador : aceleram a mudança do corpo, o consumo, a expectativa de que a identidade também deveria se ajustar no mesmo ritmo, e aqui está o ponto que mais importa clinicamente”, observa.








Publicado originalmente por Metrópoles. Leia a matéria completa em https://www.metropoles.com/colunas/ilca-maria-estevao/canetas-emagrecedoras-transformam-corpo-mente-e-mercado-da-moda.

Dimitrios Kambouris/Getty Images for Victoria's Secret — Foto: Metrópoles
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