Candeia queria entender o Brasil de dentro para fora, diz autor de livro sobre sambista
O sambista Antônio Candeia Filho, o Candeia , completaria 90 anos em 2025, quando Stephen Bocskay finalizava seu livro sobre ele. A obra reúne documentos, registros e análises da história do músico carioca, que se confunde com a trajetória do samba no Brasil e do ativismo político por meio da arte . Leia mais (08/19/2026 - 15h30)

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O sambista Antônio Candeia Filho, o Candeia , completaria 90 anos em 2025, quando Stephen Bocskay finalizava seu livro sobre ele. A obra reúne documentos, registros e análises da história do músico carioca, que se confunde com a trajetória do samba no Brasil e do ativismo político por meio da arte .

Após 15 anos de pesquisa em arquivo, encontros com músicos e gente do convívio de Candeia, o pesquisador americano publica agora uma miscelânea que se esforça para retratar parte da história do samba brasileiro, mesmo a partir de um olhar estrangeiro.
"Ele queria entender o Brasil de dentro para fora e não de fora para dentro", diz Bocskay. Em "Candeia, o Samba, o Quilombo e o Ativismo Negro", o autor faz esse mesmo exercício.
Candeia foi fundador do Grêmio Recreativo de Arte Negra Escola de Samba Quilombo, parte central de sua história e da obra de Bocskay. Além da música , o grupo exercia um papel político, funcionando como um centro de pesquisas da arte negra, com palestras sobre a situação socioeconômica do negro, rodas de partido-alto e exibições de filmes. Candeia fundou a agremiação ao lado de Paulinho da Viola , Martinho da Vila e Elton Medeiros.

Entre as principais posturas políticas de Candeia está a recusa em aceitar financiamento da Riotur para sua organização. A entrada no espaço era franca, um gesto contra a comercialização do Carnaval que se instalava a partir da década de 1970.
Na obra, o autor recorre a teses de Abdias Nascimento e outros importantes intelectuais negros como Lélia Gonzalez e Beatriz Nascimento para discorrer sobre o fenômeno criando por Candeia e pelo grêmio Quilombo.
Bocskay cita a perspectiva do quilombismo , de Nascimento, para traduzir a vida do sambista. Essa ideia pode ser definida como um movimento de emancipação dos negros baseado na comunidade — característica basilar do trabalho feito pelo músico.

No livro, o autor aborda a ideia com trecho do folheto "90 Anos de Abolição", publicado pela escola de samba em 1978. "Foi através do Quilombo, e não do movimento abolicionista, que se desenvolveu a luta dos negros contra a escravatura."
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Ao planejar a pesquisa em torno de Candeia, o americano se encontrou com personagens-chave da história de seu biografado e do próprio samba brasileiro. Sua primeira conversa com Martinho da Vila se deu de modo pouco planejado em um botequim no Rio de Janeiro.

A preocupação de Bocskay foi fazer uma pesquisa e escuta detalhada de um fenômeno ao qual é alheio, sendo um pesquisador branco dos Estados Unidos.
Apesar do distanciamento, o pesquisador não deixa de conectar os fenômenos musicais do negro no Brasil e nos Estados Unidos, com o devido destaque às distâncias entre as duas realidades. Já na epígrafe, lemos um comentário de Quincy Jones sobre a música brasileira após 1956.
No livro, Bocskay mescla essa exposição sobre as trocas de referências entre as culturas com a afirmação de que o trabalho de Candeia e seus contemporâneos construía uma imagem de soberania nacional.

"Ele dialoga com músicas afrodiaspóricas de outros países, entre os quais Estados Unidos", conta. "Tinha uma visão política sobre a sociedade brasileira e a importância de reconhecer as artes negras, mas acima de tudo, o próprio negro brasileiro, a luta do negro para conquistar espaços na sociedade"
Em entrevista, o autor traça um paralelo com o momento atual. "Ele não está falando só sobre samba, está falando sobre o país. Essa fórmula musical é uma fórmula sobre o país inteiro", afirma.
"Essa questão não muda, só um pouco a cara, é a máscara que se troca. Hoje em dia [a máscara] seria a presença nociva dos Estados Unidos, do trumpismo no Brasil. Aí o Candeia iria dizer a mesma coisa. ‘Tá vendo? Então, soberania, cara, soberania que é importante’".
"O Brasil ensina muitas coisas ao mundo e uma delas é a importância da sensibilidade comunitária, da coesão", diz. "Obviamente é uma questão muito bifurcada, porque a sociedade é violenta também, mas o Brasil tem a roda: a roda de capoeira ou roda de samba. E isso é uma linguagem inclusiva."
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/08/candeia-queria-entender-o-brasil-de-dentro-para-fora-diz-autor-de-livro-sobre-sambista.shtml.

Foto de Candeia de 4 de junho de 1970, que ilustra capa do livro "Candeia, o samba, o quilombo e o ativismo negro". - Reprodução/Jornal do Brasil · Reprodução/Jornal do Brasil — Foto: Folha de S.Paulo
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