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    Canções românticas de Chico Buarque ecoam 'A Odisseia'

    Quando publicou o conto "Ulisses", em 1966, Chico Buarque transformou o herói grego num sujeito simplório, com dificuldades profissionais, sonhador, meio tolo, desamparado, infantil, que volta para casa de alguma viagem como caixeiro-viajante, inglório, contando desventuras nas quais berra e bebe e briga - mas só na fantasia ou de mentira ou por malandragem- com monstros que o derrotam. Leia mais (09/12/2026 - 10h00)

    Folha de S.Paulo
    12 de setembro de 2026 às 13:00
    Canções românticas de Chico Buarque ecoam 'A Odisseia'
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    Chico Buarque pelas lentes de Bob Wolfenson
    Chico Buarque pelas lentes de Bob Wolfenson — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Economista pela UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora) e doutor em ciência política pela USP. Autor de "Ladrilhadores e Semeadores" e "A Miséria da Economia e da Política"

    Quando publicou o conto "Ulisses", em 1966, Chico Buarque transformou o herói grego num sujeito simplório, com dificuldades profissionais, sonhador, meio tolo, desamparado, infantil, que volta para casa de alguma viagem como caixeiro-viajante, inglório, contando desventuras nas quais berra e bebe e briga — mas só na fantasia ou de mentira ou por malandragem— com monstros que o derrotam.

    Encontra sua esposa, Penélope, fria e distante, muda, fazendo infinitamente seu tricô (como a heroína clássica), sem lhe dar atenção —afinal, ele pensa, ela deve esperar outro Ulisses, um herói de verdade. Ele quer que ela o reconheça como rei, mesmo com seus defeitos, e o acolha, console e abrace; quer que ela o bote no colo, maternal e compreensiva, e enxergue suas grandezas.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Em muitas canções românticas, Chico Buarque realiza esse desejo do Ulisses do seu conto. Nelas o personagem masculino é o Ulisses comum; meio criança, meio homem feito; vadio, porém bom amante; cheio de defeitos e derrotas, que muitas vezes sai, viaja ou some por um tempo, mas que é amado e enaltecido, perdoado e acolhido pela mulher quando volta para casa. E a personagem feminina é a Penélope compreensiva, que o espera paciente e fiel e, amorosa, dá-lhe o leito, o peito, o prato, o regaço e o perdão, destacando suas virtudes.

    Pode-se até dizer que o protagonismo desse anti-herói odisseico redimido é uma característica distintiva de parte das canções de Chico. A obra de Homero parece tê-lo marcado de forma profunda. As referências diretas ao livro clássico —e às vezes por meio da recuperação de expressões e situações já usadas no conto ("ela e seu tricô", por exemplo)— são muitas nas suas letras. E as indiretas também, sobretudo nas imagens de navios, mares, navegantes, embarcações, faróis, portos e cais.

    As menções mais manifestas, inaugurais, daqueles personagens estão em " Ela e Sua Janela " (1966) e " Sem Fantasia " (1967). Elas definem, respectivamente, a Penélope sozinha na janela, paciente e fiel (ainda que atenta a alguns acenos), no período da ausência do amado, e o Ulisses aceito e aninhado, no momento da volta de seus infortúnios.

    SÃO PAULO / SP / BRASIL -11 /7/25 - Retrato da professora titular de Teoria Social do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp,  Walquíria Domingues Leão Rego. A professora lança o livro
    SÃO PAULO / SP / BRASIL -11 /7/25 - Retrato da professora titular de Teoria Social do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, Walquíria Domingues Leão Rego. A professora lança o livro — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Na primeira, ela o espera: "Ela e seu tricô/ Ela e sua janela, espiando/ Com tanta moça aí/ Na rua o seu amor/ Só pode estar dançando/ Da sua janela/ Imagina ela/ Por onde hoje ele anda/ [...] Ela e sua janela, esperando/ Com tão pouco dinheiro/ Será que o seu amor/ Ainda está jogando/ [...] Ela e sua janela, querendo/ Com tanto velho amigo/ O seu amor num bar/ Só pode estar bebendo".

    Na segunda, ela o recebe: "Vem, meu menino vadio/ [...], mas vem sem fantasia/ Que da noite pro dia/ Você não vai crescer/ [...] Vem que eu te quero fraco/ Vem que eu te quero tolo/ Vem que eu te quero todo meu". E ele então conta sua odisseia: "Ah, eu quero te dizer/ Que o instante de te ver/ Custou tanto penar/ [...] Eu quero te contar/ Das chuvas que apanhei/ Das noites que varei/ No escuro a te buscar/ Eu quero te mostrar/ As marcas que ganhei/ Nas lutas contra o rei/ Nas discussões com Deus". E pede a recompensa, que Penélope, na sua fala, já disse que dará: "E agora que cheguei/ [...] Eu quero a prenda imensa/ Dos carinhos teus".

    O papel de Penélope esperando é reiterado nas canções " Carolina " (1967), " Januária " (1967) e " Morena dos Olhos d'água " (1966). Nelas o foco está em possíveis competidores de Ulisses, que tentam convencê-la a deixar de esperá-lo à beira-mar. E também em " Nicanor " (1969), que é um Ulisses que deixa muitas Penélopes "viúvas" enquanto viaja pelos mares. São canções na voz masculina. Já em " Pedaço de Mim " (1977) a espera se frustra, Ulisses segue ausente e a dor é traduzida pelo barco que, quase na chegada, refuga e retoma o oceano.

    O Ulisses malandro, moleque e molambo que volta e é recebido de braços abertos reaparece, em roupagens variadas, em " Com Açúcar, com Afeto " (1966), " Sem Açúcar " (1975), " Teresinha " (1977) e, considerado o contexto da peça, " O Meu Amor " (1978) —todas na voz feminina.

    E também em três outras canções, mas em duas situações que merecem destaque. A primeira situação é a referência ao acolhimento maternal —de amante, em " Alumbramento " (1979), e de mãe, em " O Meu Guri " (1981). A segunda situação é a da reemergência do Ulisses do conto original, em que o anti-herói pede àquela Penélope indiferente ou relutante que o escute, receba e perdoe, apesar de seus defeitos, em " Fica " (1965).

    O fim dessa odisseia? Penélope ficou, recebeu e perdoou Ulisses. Eles fizeram samba e amor até mais tarde e —"Logo que a Aurora, de dedos de rosa, surgiu matutina"— tiveram muito sono de manhã.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2026/09/cancoes-romanticas-de-chico-buarque-ecoam-a-odisseia.shtml.

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