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    Câncer de ex-comissária de bordo é reconhecido como doença do trabalho na França

    Uma ex-comissária de bordo da Air France conseguiu na França o reconhecimento de seu câncer de mama como doença profissional. A decisão, tomada pelo polo social do Tribunal Judicial de Bayonne, no sudoeste do país, no início de julho, é considerada uma primeira no setor aéreo francês e pode abrir caminho para pedidos semelhantes de outras profissionais da aviação . Leia mais (08/27/2026 - 16h00)

    Folha de S.Paulo
    27 de agosto de 2026 às 19:00
    Câncer de ex-comissária de bordo é reconhecido como doença do trabalho na França
    Foto: Folha de S.Paulo

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    Uma ex-comissária de bordo da Air France conseguiu na França o reconhecimento de seu câncer de mama como doença profissional. A decisão, tomada pelo polo social do Tribunal Judicial de Bayonne, no sudoeste do país, no início de julho, é considerada uma primeira no setor aéreo francês e pode abrir caminho para pedidos semelhantes de outras profissionais da aviação .

    Christian Hartmann/Reuters · Christian Hartmann/Reuters
    Christian Hartmann/Reuters · Christian Hartmann/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Sophie Lainault, de 59 anos, trabalhou para a Air France entre 1989 e 2019, primeiro como comissária de bordo e posteriormente como chefe de cabine, principalmente em voos de longa distância. Ao longo de três décadas, acumulou mais de 12 mil e 600 horas de voo, das quais mais de 6.500 durante a noite.

    O tribunal considerou que as condições de trabalho de Lainault apresentavam três exposições relevantes: trabalho noturno, radiação ionizante de origem cósmica e tabagismo passivo. A decisão também levou em consideração a ausência, no caso analisado, de fatores genéticos ou relacionados ao estilo de vida que pudessem explicar a doença.

    A exposição à radiação cósmica é uma particularidade do trabalho da tripulação aérea. Em altitude, os profissionais ficam expostos a partículas provenientes do espaço, e a exposição aumenta em determinadas rotas de longa distância, especialmente em voos que se aproximam dos polos.

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    O que você precisa saber sobre mamografia — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A ciência já investiga há décadas a possível relação entre trabalho noturno e câncer de mama. A Agência Internacional para Pesquisa sobre o Câncer (IARC), ligada à Organização Mundial da Saúde, classificou o trabalho noturno que envolve perturbação do ritmo circadiano como "provavelmente carcinogênico para humanos" (grupo 2A). Estudos específicos sobre tripulações aéreas também encontraram sinais de associação com câncer de mama, embora existam limitações e possíveis fatores de confusão nas pesquisas.

    No caso de Lainault, havia ainda uma terceira exposição que hoje pode parecer distante, mas fazia parte da rotina da aviação comercial durante grande parte de sua carreira: o fumo a bordo. A Air France permitiu fumar em seus aviões até 2000. Assim, durante os primeiros anos de sua carreira, a comissária esteve exposta ao fumo passivo dentro da cabine.

    A obtenção do reconhecimento não foi automática. Antes da decisão judicial, dois comitês regionais responsáveis pela análise de doenças profissionais haviam concluído que não estava estabelecido um vínculo entre o câncer e a atividade profissional.

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    Técnica de congelamento de células cancerígenas tem 100% de eficácia em estudo brasileiro — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Lainault, cuja doença hoje está em remissão, levou cerca de dois anos e meio para conseguir o reconhecimento, com o apoio de militantes da CFDT, sindicato que acompanhou seu processo.

    Sua advogada, Elisabeth Leroux, afirmou à AFP que, a seu conhecimento, esta é a primeira vez que o câncer de mama de uma profissional da tripulação aérea é reconhecido como doença profissional na França. Segundo ela, a situação é diferente em outros países: a Dinamarca reconhece desde 2008 uma relação entre câncer de mama e determinadas exposições ocupacionais de profissionais da aviação.

    A decisão de Bayonne tornou-se definitiva porque não houve recurso. Isso não significa que exista uma regra automática aplicável a todas as comissárias de bordo: cada pedido de reconhecimento continua dependendo da análise das condições concretas de trabalho e das evidências médicas e profissionais. Mas a decisão pode ser utilizada como referência em processos futuros.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O câncer de mama não consta dos quadros oficiais franceses de doenças profissionais. Isso torna particularmente difícil obter o reconhecimento quando a doença não corresponde automaticamente a uma categoria prevista na legislação.

    Na prática, a pessoa precisa demonstrar uma relação suficientemente forte entre sua doença e as condições de trabalho. É justamente nesse ponto que o caso de Lainault ganha importância.

    Para Lainault, a decisão tem também uma dimensão prática. O reconhecimento permite que ela tenha acesso à aposentadoria antecipada, segundo seu depoimento à AFP.

    A advogada afirma ainda que o reconhecimento de uma doença profissional pode resultar em uma renda mensal vitalícia, não tributável, paga pela Previdência francesa após a estabilização da doença, dependendo do grau de incapacidade reconhecido. Para mulheres ainda em idade ativa, isso pode representar uma diferença financeira importante, especialmente quando o tratamento ou as sequelas do câncer dificultam a retomada das mesmas condições de trabalho.

    O caso também coloca em discussão como os riscos profissionais relacionados ao câncer de mama são identificados. Segundo Leroux, a investigação médica frequentemente se concentra em fatores individuais, como idade da primeira menstruação, menopausa, peso, consumo de álcool, tabagismo, número de filhos, amamentação e histórico familiar, enquanto o percurso profissional pode receber menos atenção.

    A questão é particularmente relevante para profissões que combinam trabalho noturno, alterações frequentes do ritmo circadiano e exposição à radiação, como ocorre com tripulações de longa distância.

    A decisão de Bayonne não constitui o primeiro reconhecimento judicial de câncer de mama como doença profissional na França. Em 2023, uma enfermeira que havia trabalhado durante a noite por 28 anos e também estivera exposta a radiações conseguiu reconhecimento semelhante.

    Mais recentemente, em março de 2026, o Tribunal Administrativo de Marselha reconheceu um "vínculo direto" entre o câncer de mama de outra enfermeira e quase 25 anos de trabalho exclusivamente noturno. O tribunal considerou, entre outros elementos, a duração da exposição e a ausência ou baixa presença de outros fatores de risco conhecidos.

    O que diferencia o caso de Sophie Lainault é, portanto, a profissão e a combinação de exposições consideradas pela Justiça: trata-se, segundo sua advogada e a CFDT, da primeira vez que o câncer de mama de uma integrante da tripulação aérea é reconhecido como doença profissional na França.

    A Air France informou que não era parte do processo e que não havia sido comunicada das razões apresentadas pelo tribunal para sua decisão. A companhia afirmou que a saúde e a segurança dos empregados constituem uma prioridade.

    O julgamento, portanto, não estabelece que a Air France tenha sido considerada responsável por uma falha específica de segurança ou prevenção. A decisão reconhece a origem profissional da doença de Lainault, dentro do sistema francês de reconhecimento de doenças relacionadas ao trabalho.

    O caso ocorre em um contexto no qual o câncer de mama continua sendo o câncer mais frequente e a principal causa de morte por câncer entre mulheres na França. Segundo os dados mais recentes do Instituto Nacional do Câncer francês, foram registrados 61 mil e 214 novos casos em 2023 e 12 mil e 765 mortes naquele ano.

    Para Sophie Lainault, o significado da decisão vai além de sua própria situação. À AFP, ela afirmou esperar que o reconhecimento permita que outras mulheres do setor aéreo que desenvolveram câncer de mama e não haviam considerado a possibilidade de uma origem profissional também possam reivindicar esse reconhecimento.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2026/08/cancer-de-ex-comissaria-de-bordo-e-reconhecido-como-doenca-do-trabalho-na-franca.shtml.

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