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    Cancelamento é para sempre?

    O recuo do Met Gala em transformar John Galliano na grande estrela da sua próxima festa nos faz um questionamento importante nos novos tempos: o cancelamento tem data de validade? Ou, no tribunal da opinião pública, a pena de morte civil deve ser perpétua? Vamos concordar que cancelamento é pena de morte. Leia mais (09/01/2026 - 15h02)

    Folha de S.Paulo
    1 de setembro de 2026 às 18:02
    Cancelamento é para sempre?
    Homem de cabelos presos em coque, usando jaleco branco sobre camisa social e gravata, sentado em cadeira clara em ambiente interno. — Foto: Folha de S.Paulo

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    O recuo do Met Gala em transformar John Galliano na grande estrela da sua próxima festa nos faz um questionamento importante nos novos tempos: o cancelamento tem data de validade? Ou, no tribunal da opinião pública, a pena de morte civil deve ser perpétua? Vamos concordar que cancelamento é pena de morte.

    O estilista britânico John Galliano na conferência Forces of Fashion, da Vogue, em Nova York - Dimitrios Kambouris - 12.out.2017/AFP
    O estilista britânico John Galliano na conferência Forces of Fashion, da Vogue, em Nova York - Dimitrios Kambouris - 12.out.2017/AFP — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O caso do estilista britânico é um bom exemplo. Em 2011, no auge da sua carreira e do estrelato na Dior , Galliano foi gravado num café parisiense cuspindo ofensas antissemitas e xenofóbicas e declarando amor a Hitler. "Sua cadela judia. Pessoas como vocês estariam mortas. Suas mães, seus antepassados seriam todos mortos nas câmaras de gás." Pois é.

    Foi demitido sumariamente, julgado e condenado pela Justiça francesa, internou-se numa clínica de reabilitação, pediu desculpas públicas e passou anos no purgatório fashion. Uma década depois, reinventou a Maison Margiela e voltou a vestir meio mundo no tapete vermelho.

    Separar a obra do criador é muito mais palatável quando o autor já virou adubo. Podemos ouvir Wagner e Michael Jackson ou admirar Picasso e Gauguin cientes de seus caráteres, com aquele distanciamento histórico confortável. Com os vivos, qual deveria ser a régua? No Estado de Direito, quem comete um crime é julgado, cumpre a pena e tem o direito de voltar ao jogo. Negar isso seria abraçar o punitivismo selvagem que condenaria o transgressor a desaparecer da face da Terra.

    John Galliano
    John Galliano — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Mas veja o paradoxo dessas duas situações: Woody Allen , que jamais foi condenado por tribunal algum —pelo contrário, há evidências de que tenha sido acusado injustamente—, virou pária na indústria do cinema . Galliano, cujo delito está posto, ganhou o perdão de um mundinho cínico que se rende a quem garanta manchetes e cifras milionárias.

    Galliano tem todo o direito de costurar, vender roupas e viver do seu talento extraordinário. O erro está em confundir reabilitação profissional com redenção moral. Uma coisa é permitir que o homem trabalhe, a outra é estender o tapete vermelho do Met Gala para consagrá-lo no altar da moda.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marilizpereirajorge/2026/09/cancelamento-e-para-sempre.shtml.

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