Brasil

    Canadá disse não aos Estados Unidos, e as consequências vão muito além de suas fronteiras

    A sexta-feira, 21 de agosto, pode entrar para a história como o Dia da Libertação do Canadá . Foi o dia em que os Estados Unidos vieram atrás de nós, e nós dissemos não. Leia mais (08/24/2026 - 19h24)

    Folha de S.Paulo
    24 de agosto de 2026 às 22:24
    Canadá disse não aos Estados Unidos, e as consequências vão muito além de suas fronteiras
    Homem de cabelos grisalhos, vestindo terno escuro e gravata azul, fala gesticulando com as mãos em púlpito. Três bandeiras do Canadá estão posicionadas ao fundo contra parede de madeira. — Foto: Folha de S.Paulo

    Expressa as ideias do autor e defende sua interpretação dos fatos​

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    Mark Carney enfrenta Trump e aposta na resistência canadense mesmo diante dos riscos econômicos do conflito - Chris Tanouye/- 24.ago.26/Reuters · Chris Tanouye/- 24.ago.26/Reuters
    Mark Carney enfrenta Trump e aposta na resistência canadense mesmo diante dos riscos econômicos do conflito - Chris Tanouye/- 24.ago.26/Reuters · Chris Tanouye/- 24.ago.26/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Canadense, é romancista, ensaísta e apresentador do podcast 'Gloves Off'

    A sexta-feira, 21 de agosto, pode entrar para a história como o Dia da Libertação do Canadá . Foi o dia em que os Estados Unidos vieram atrás de nós, e nós dissemos não.

    As negociações comerciais entre Estados Unidos e Canadá vinham avançando nas semanas seguintes à primeira ameaça do presidente Donald Trump de impor tarifas de 50% sobre produtos canadenses. Mas, pouco antes da meia-noite, o primeiro-ministro Mark Carney rejeitou a proposta americana. "As mudanças de última hora nos termos propostos pelos Estados Unidos eram injustas, antieconômicas e colocavam em dúvida a confiabilidade de qualquer acordo", disse Carney em comunicado. "O Canadá igualará essas tarifas, dólar por dólar, para proteger nossos trabalhadores e empresas."

    Conheça as cidades de Vancouver e Calgary, no Canadá
    Conheça as cidades de Vancouver e Calgary, no Canadá — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Foi uma decisão aparentemente tomada de última hora, mas a longa história do país abriu caminho para esse gesto decisivo —um histórico "não".

    As tarifas de Trump sobre cerca de US$ 20 bilhões (R$ 103 bilhões) em produtos canadenses entraram em vigor imediatamente após o fim do prazo estabelecido. Para o Canadá, a escolha se resumia a enfrentar uma instabilidade econômica grave, mas temporária, ou se amarrar a um Estado fiscalmente falido e pseudodemocrático, cuja única política externa aparente passou a ser a dominação para satisfazer a vaidade improvisada de seu presidente.

    Mas Carney não apenas rejeitou uma proposta comercial na sexta-feira. Ele desafiou abertamente a nova onda de agressividade americana. "Não permitiremos que nenhuma nação determine nosso futuro", afirmou.

    Imagem da matéria
    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Foi uma declaração singular para qualquer líder canadense. O país há muito se define por sua participação nos sistemas globais, vendo-se como um ponto de conexão nas grandes estruturas do mundo, na ordem transatlântica do pós-guerra e, antes dela, no Império Britânico. Carney está levando o Canadá em outra direção, enfatizando a soberania nacional em todas as frentes —econômica, política, militar e tecnológica.

    Embora a abordagem do primeiro-ministro seja certamente nova, ela emerge de profundas reservas do espírito canadense. Durante quase uma década, fui colunista da revista Esquire. Nesse período, uma das maiores diferenças que percebi entre canadenses e americanos —e entre homens canadenses e americanos, em particular— estava na ideia básica sobre o que conquistava respeito. Para os americanos, a capacidade de projetar poder, de fazer as coisas acontecerem e de vencer são é a principal virtude. No Canadá, a virtude definidora é a resistência, a capacidade de suportar.

    A diferença é sutil, mas profunda. A obra de crítica literária de Margaret Atwood que definiu o nacionalismo canadense dos anos 1970 se chama Survival (sobrevivência). Os coureurs des bois ( corredores dos bosques), os grandes comerciantes da Nova França que avançavam pelo Norte inóspito em canoas em busca de peles, mediam a si mesmos pela capacidade de sobreviver com o mínimo possível em meio a uma vasta e indiferente natureza selvagem.

    Ilustração para Economia - Governo vai implantar sistema de chamadas verificadas contra fraudes telefônicas - Ferramenta será capaz de indicar se ligação partiu ou não de origem confiável
    Ilustração para Economia - Governo vai implantar sistema de chamadas verificadas contra fraudes telefônicas - Ferramenta será capaz de indicar se ligação partiu ou não de origem confiável — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Esses valores profundamente arraigados, raramente expressos de forma aberta, estão por trás da rejeição canadense aos Estados Unidos na semana passada. A proposta apresentada, ou pelo menos os detalhes que vieram a público, ia muito além de questões puramente econômicas. Aparentemente, um dos últimos pontos de impasse foi uma exigência americana para que Quebec revogasse suas leis de proteção à língua francesa e à cultura francófona. O francês, no Canadá, não é uma questão comercial. Seu lugar na identidade nacional transcende absolutamente qualquer consideração de mercado. Não é algo que se "coloca na mesa".

    Embora a decisão de resistir seja tipicamente canadense, o gesto de Carney terá repercussões muito além das fronteiras do país. Um banqueiro discreto —e não qualquer banqueiro, mas um dos principais banqueiros do mundo— levantou-se e disse que há coisas mais importantes na vida do que um pouco de dinheiro. A força desse reconhecimento, neste momento da história, não pode ser subestimada. O mundo de Trump —um mundo de transações e submissão— não é o único mundo em que todos nós temos de viver.

    Os impactos econômicos do regime tarifário de Trump ainda precisam ser conhecidos , especialmente diante de seu histórico de reverter políticas tarifárias por capricho. Mas nós vamos sofrer. Os Estados Unidos continuam sendo o principal parceiro comercial do Canadá. Carney escolheu o sofrimento, mas fez o que os canadenses o elegeram para fazer: defender o Canadá. É curioso acordar aliviado por saber que você está prestes a apanhar. Não vamos ceder para manter as aparências.

    O presidente americano claramente não sabia com quem estava lidando. Ele está seguindo a grande tradição dos líderes americanos que começam guerras com pessoas que não compreendem e depois se perguntam o que deu errado.

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    De 2ª a 6ª pela manhã, receba o boletim gratuito com notícias e análises de economia

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2026/08/canada-disse-nao-aos-estados-unidos-e-as-consequencias-vao-muito-alem-de-suas-fronteiras.shtml.

    Imagem 1
    1 / 4

    Mark Carney enfrenta Trump e aposta na resistência canadense mesmo diante dos riscos econômicos do conflito - Chris Tanouye/- 24.ago.26/Reuters · Chris Tanouye/- 24.ago.26/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)