Cada eleição reescreve nossa história
Existe um Brasil que luta há 500 anos para se fazer reconhecer

Diretora do Instituto Gerar de Psicanálise, autora de “Manifesto Antimaternalista”, “Felicidade Ordinária” (Jabuti 2025) e “Análise". É doutora em psicologia pela USP
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O Brasil é esse projeto destinado ao fracasso, que o brasileiro teima em desmentir.
Colônia extrativista, nosso país foi favorecido por um acidente histórico: a vexatória fuga da família real portuguesa por medo do exército de Napoleão. O rei fujão largou seus súditos na mão e transformou o Brasil em sede do império português, fato sem paralelo na história colonial.
A chegada da corte permitiu a criação de dezenas de instituições, entre bancos, tribunais, escolas superiores, bibliotecas, academias científicas e artísticas e órgãos administrativos que, de outra forma, sabe-se lá quando seriam criados. Tudo isso há pouco mais de 200 anos.

O país não perdeu seu veio extrativista e colonial, bem representado por aqueles que batem continência para Trump , que já negocia com a turma do tarifaço a comercialização de terras raras.
Tampouco abriu mão da herança escravagista, escancarada nos milhares de trabalhadores que todo ano são libertados de condições análogas à escravidão e na resistência ao fim da desumana escala 6x1.
Também exige a submissão feminina, verdadeiro eco da exploração da terra, como nos ensina a antropóloga Rita Segato.

A fantasia de nobreza se replica na fobia que a elite tem de compartilhar espaços com a classe operária. Fato que o ex-ministro da Economia Paulo Guedes não disfarça, pois lhe rende a simpatia de inúmeros brasileiros, inclusive de pobres identificados com o discurso colonial.
Extrativismo, escravidão, aspiração nobiliárquica, misoginia, identificação com a matriz imperial, representada hoje pelos EUA, fazem parte da nossa herança.
O Brasil dá raiva, dá medo, ao mesmo tempo em que revela uma alegria insensata. Como se conjuga tudo isso?
Antes de ir a Sarajevo, imaginava encontrar um povo amargurado pela guerra fratricida dos anos 1990, cujos horrores foram amplamente noticiados. Para minha grata surpresa, deparei com uma cidade encantadora, com uma população jovem, supereducada e sorridente. Entendi que quem passou pelo pior tem chance de apreciar com alegria redobrada a paz e a prosperidade alcançadas a duríssimas penas.
Talvez isso explique em parte a tendência do brasileiro de se esbaldar sempre que a vida dá uma trégua. Além disso, há o prazer de não dar ao algoz o gostinho de te ver sofrer. Onde nos querem derrotados e tristes, insistimos em sorrir, como na antológica cena de " Ainda Estou Aqui " (2024). "Sorriam, nós vamos sorrir", diz Eunice Paiva, cujo marido foi assassinado pelas forças da ditadura, para o jornalista que queria uma foto da família dilacerada. Nesse ponto, celebrar é resistir, mostrar que ao menos em algum lugar ainda decidimos o que fazer com nossos corpos e nosso desejo.
Existe um Brasil que luta há 500 anos para se fazer reconhecer. Ele aparece no português que falamos, transformado em brasileiro pelas línguas africanas e indígenas. Ele está na cultura alimentar; nos hábitos de higiene; nos traços, nos cabelos e nos tons de pele; na música e na arte em geral. É a parte que cria nossa identidade única, é a que sobreviveu, que resistiu sorrindo, apesar da tentativa perene de seu apagamento.
A cada eleição escolhemos qual parte da nossa herança histórica queremos vingar.
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Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/colunas/vera-iaconelli/2026/09/cada-eleicao-reescreve-nossa-historia.shtml.

Veja imagens de Sarajevo, capital da Bósia e Herzegovina — Foto: UOL
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