Busca por produtividade extrema pode levar a transtornos mentais; entenda
Incapacidade de relaxar sem culpa por não fazer algo “útil” gera picos de ansiedade na rotina, aponta psicólogo

A necessidade de otimizar cada minuto do dia e a sensação de estar em dívida com a própria rotina são características cada vez mais comuns para a população. A exaustão decorrente dessa busca pela produtividade extrema pode ser uma porta de entrada para transtornos mentais e condições como o estresse crônico e o burnout.
Em entrevista à CNN Brasil , o psicólogo do trabalho Lucas Freire, autor do livro Exaustos, alertou que a sociedade contemporânea tem transformado a lógica do esforço em algo sutil e cotidiano.
Ele explica que há uma diferença entre o esforço e a exaustão. O esforço, por si só, pode reenergizar as pessoas, mas o esforço excessivo e a sobrecarga roubam o tempo e o lazer de forma contínua.

Nós estamos a serviço de uma esteira contínua de produtividade e desvaziamento da experiência. Isso se tornou um elemento cultural de uma era. Hoje em dia, tudo o que não aparenta ter uma função produtiva é rechaçado.
O psicólogo elenca como um dos principais motivos do esgotamento o que ele chama de “metrificação da vida”. O fenômeno se baseia na aplicação de metas, números e indicadores para medir tanto o trabalho quanto momentos que deveriam servir como lazer e relaxamento.
Enquanto realiza atividades que seriam simples e divertidas, o cérebro continua trabalhando sob pressão. O especialista usa como exemplos o ato de fotografar obrigatoriamente todas as refeições, ou até a necessidade de praticar esportes, como corrida, sempre utilizando um relógio para medir o desempenho .

Aos poucos, de acordo com Lucas, os indicadores colocados empobrecem a experiência genuína , classificando o fenômeno como um “cativeiro neurológico”.
Quando constante, esse estado de alerta compromete a capacidade fisiológica do organismo de se recuperar. O estresse, que seria uma resposta natural e necessária para a população, torna-se um problema crônico.
“O estresse é uma reação natural e necessária, não existe vida sem ele. O que acontece é que a sobrecarga de estresse é a porta de entrada para os transtornos de ansiedade. E aí a gente vai ter as fobias, a depressão e a ansiedade generalizada”, diz o psicólogo.

A constante pressão de rotinas produtivas também gera o que ele chama de “stresslaxing” , a incapacidade de relaxar sem sentir um pico de ansiedade pela culpa de não fazer algo “útil”.
Além disso, se tornam comuns sintomas físicos decorrentes de inflamações corporais, como problemas gastrointestinais e queda de cabelo (alopécia).
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Lucas afirma que a sociedade vive uma atrofia lúdica . “O lúdico tem um papel crucial no desenvolvimento humano, na descompressão, na regeneração, no desenvolvimento de habilidades de resiliência, na nossa capacidade de elaboração emocional.”
Ele defende a necessidade de reintroduzir na rotina adulta o conceito que ele denomina de “play” –– verbo no inglês que engloba algumas ações lúdicas, como jogar, brincar, tocar ou interpretar.
O ato de brincar, explorar a arte, praticar esporte ativamente e sem métricas, cria espaços onde o estresse pode ter outro significado, sem a exigência de retorno financeiro, alta performance ou resultados.

“Hoje, muita gente fala: ‘trabalhe com o que você ama’. Eu discordo totalmente. Digo: trabalhe com o que você ama e muito em breve você vai deixar de amar, pela maneira como nós estamos vivendo. A gente precisa voltar a ser amador, tirar a carga de necessariamente ser bom nas coisas. Vá fazer alguma coisa em que você possa ser ruim, não tem problema, faz parte da vida” afirma o psicólogo.
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Publicado originalmente por CNN Brasil. Leia a matéria completa em https://www.cnnbrasil.com.br/saude/busca-por-produtividade-extrema-pode-levar-a-transtornos-mentais-entenda/.

Estresse crônico pode resultar da pressão por produtividade extrema • Rawpixel/Freepik · • Rawpixel/Freepik — Foto: CNN Brasil
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