Bukele é o futuro da segurança no Brasil?
Desde 2023, ao menos 14 políticos brasileiros, entre eles os presidenciáveis Flávio Bolsonaro e Romeu Zema , visitaram El Salvador . Tarcísio de Freitas elogiou Nayib Bukele . Prometem mais presídios de segurança máxima. Leia mais (09/14/2026 - 11h00)

É diretor de pesquisa no CNRS e professor titular da Sciences Po
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Desde 2023, ao menos 14 políticos brasileiros, entre eles os presidenciáveis Flávio Bolsonaro e Romeu Zema , visitaram El Salvador . Tarcísio de Freitas elogiou Nayib Bukele . Prometem mais presídios de segurança máxima.
A queda da violência salvadorenha é mesmo de se estudar. Oficialmente, o país saiu de 105 homicídios por 100 mil habitantes em 2015 para 1,3 em 2025 . Há propaganda aí: os números de Bukele não contam mortos pela polícia, corpos em fossas clandestinas nem mortes nas prisões, admitidas até pelo governo. O Cecot, vitrine do regime , não representa as outras 21 prisões do país.
Ainda assim, é uma enorme redução. Já vimos outras: Medellín caiu de 396 homicídios por 100 mil habitantes em 1991 para 30 em 2005; São Paulo, de 61 em 1999 para 8 em 2010 . Nova York reduziu os homicídios em 70% nos anos 1990 . Nesses casos, a propaganda oficial dos governos foi cedendo, conforme os estudos avançaram. Em São Paulo e na Colômbia, organizações criminais haviam sido artífices dessa redução.

O que é novo no "modelo Bukele"? A ampliação do encarceramento, conhecemos de longa data: o Brasil foi de 90 mil presos em 1990 a 965 mil em 2025 (4,5 presos por mil habitantes). Bukele foi muito mais longe: essa taxa é hoje de 18 em El Salvador . Entre os homens, quase 9 por mil aqui e mais de 30 por mil lá . Bukele mata os bandidos? Em El Salvador, simplesmente não há dados. No Brasil também são ruins, mas oficialmente as mortes por intervenção policial quase triplicaram entre 2013 e 2023; só em 2025, foram 6.602 mortos pelas polícias.
Para chegar tão longe e tão rápido, Bukele virou um ditador : suspendeu garantias , subordinou o Judiciário e eliminou limites à reeleição. O Brasil tentou ir tão longe quanto, mas aqui não dá. Temos um território 400 vezes maior que El Salvador, uma população 35 vezes maior. El Salvador tem a população da Grande Belo Horizonte. Mas não dá não apenas só por isso. As "maras" obtinham renda do controle territorial, da extorsão e do varejo de drogas . Aqui, organizações como o PCC regulam cadeias ilícitas no atacado, são players globais. Retirar integrantes de bairros delimitados pode encerrar a extorsão local, como fez Bukele.
Mas aqui não dá certo porque há um mercado global por detrás dos meninos da esquina: eles são substituídos rapidamente. O massacre da Penha e do Alemão , prestes a completar um ano, melhorou a segurança no Rio, diminui a força das facções, ou apenas substituiu soldados?
A ditadura militar do "modelo Bukele" também nos é conhecida: as cadeias dos anos 1960 geraram a aliança de presos comuns e políticos, e o CV nasceu nelas nos anos 1970; o massacre do Carandiru, em 1992, ponto alto da era Fleury na segurança, gerou o PCC no ano seguinte. Qual será a reação criminal salvadorenha, das prisões para as ruas, na década que os espera?
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Em suma, o "modelo Bukele" tem tudo do que não deu certo no Brasil. É nosso passado. Nossa saída seria outra: falo sempre de quatro eixos de uma política de segurança democrática, utopia a construir: i) retomar a soberania estatal esclarecendo homicídios; ii) ampliar a regulação de mercados ilegais; iii) estrangular as finanças das facções; iv) impedir corrupção e letalidade policiais. Voltarei a esses eixos por aqui.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/gabriel-feltran/2026/09/bukele-e-o-futuro-da-seguranca-no-brasil.shtml.

Guardas e detentos no Cecot, o Centro de Confinamento do Terrorismo, em Tecoluca, El Salvador - Menly González - 15.dez.2025/Folhapress · Menly González - 15.dez.2025/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo
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