Brasileiro vítima de tráfico humano relata fuga em Madagascar e luta para voltar para casa com outros 22: 'Estavam vendendo a gente'
Brasileiros são vítimas de tráfico humano após falsas vagas de emprego Arquivo Pessoal “Eu achei que não ia realmente estar vivo, porque, por vários momentos, tive a arma apontada para mim. Estavam vendendo a gente.” Foi assim que um paulistano de 27 anos descreveu o que passou depois de descobrir que a vaga de emprego no exterior para a qual havia sido recrutado fazia parte de uma rede de golpes financeiros. O jovem, que pediu para não ser identificado, afirma ter sido vítima de tráfico humano, ter sofrido pressão psicológica e ter sido ameaçado com armas durante uma tentativa de fuga em Mada
/https://i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/L/o/pB8RHNRgGAaaVB6V0nvg/fotojet-2026-08-31t214357.608.jpg)
Brasileiros são vítimas de tráfico humano após falsas vagas de emprego — Foto: Arquivo Pessoal
“Eu achei que não ia realmente estar vivo, porque, por vários momentos, tive a arma apontada para mim. Estavam vendendo a gente.” Foi assim que um paulistano de 27 anos descreveu o que passou depois de descobrir que a vaga de emprego no exterior para a qual havia sido recrutado fazia parte de uma rede de golpes financeiros.
O jovem, que pediu para não ser identificado, afirma ter sido vítima de tráfico humano, ter sofrido pressão psicológica e ter sido ameaçado com armas durante uma tentativa de fuga em Madagascar.

Ele é um dos 23 brasileiros de diferentes estados que estão em Antananarivo, capital de Madagascar , na África, depois de conseguirem escapar da organização criminosa que, segundo os relatos, era comandada por chineses.
Agora, o grupo tenta voltar ao Brasil, mas afirma estar sem os passaportes, que ficaram em poder das autoridades locais, e sem dinheiro para comprar as passagens. Um e-mail para o Itamaraty foi enviado em 29 de agosto pedindo repatriação, salvaguarda de passaportes e assistência consular.
"Estão todos assustados, querendo voltar para casa. Mas não estamos recebendo ajuda de quem deveria estar dando, que é o consulado e o Itamaraty. Estamos com medo e tendo que nos virar sozinhos. Tem gente de vários estados e cerca de cinco mulheres", afirmou.
Em nota, o Ministério das Relações Exteriores informou que, por meio da Embaixada do Brasil em Maputo, capital de Moçambique, responsável pelas relações com Madagascar, "vem prestando a assistência consular cabível aos nacionais e mantendo interlocução com as autoridades locais a respeito do caso" (veja abaixo).
Ao g1 , o paulistano contou que procurava emprego quando encontrou, em um grupo no Telegram, uma oferta de trabalho no exterior.
“Eu estava pesquisando empregos porque queria uma fonte de renda boa. Eu tinha perdido minha habilitação e não estava conseguindo emprego em São Paulo. Então fui procurar na internet. Nisso, caí em um grupo no Telegram que oferecia vaga de emprego no exterior.”
A proposta, segundo ele, parecia legítima: a empresa pagaria passagem, alimentação e moradia, além de oferecer treinamento. Inicialmente, o trabalho seria no suporte de aplicativos, que poderiam envolver jogos e apostas.
“Eu vim naquela ilusão de tipo: ‘Estou sem emprego, provavelmente vou conhecer um novo país, uma nova cultura, vou ter uma moradia, vou ter uma alimentação, vou ter um salário, vou conseguir resolver minha vida no Brasil e vou voltar no fim disso com algum dinheiro no bolso’.”
A pequena cidade de Sihanoukville, no litoral sul do Camboja — Foto: Getty Images
O destino informado aos brasileiros era o Camboja, no sudeste asiático. Ele chegou ao país em meados de abril e foi recebido no aeroporto. Segundo o relato, um policial o ajudou a passar pela imigração e, depois, ele foi levado de carro para o local onde funcionaria a suposta empresa, próximo à fronteira com a Tailândia.
A viagem de carro durou entre seis e oito horas. “Quando eu cheguei à empresa, onde seria essa empresa, era um prédio pequeno. Lá tinham várias pessoas de várias etnias. Tinham chineses, pessoas do próprio Camboja, brasileiros, pessoas de Angola.”
Já nos primeiros dias, porém, ele percebeu que a empresa não tinha uma rotina e isso chamou sua atenção: os funcionários não tinham horários fixos, a internet foi retirada, e os trabalhadores começaram a ser transferidos.
“Foi daí que eu comecei a perceber. Me perguntei: ‘Por que está se mudando?’. Aí me falaram que eles estavam fugindo da polícia, que estavam sob investigação.”
O passaporte do brasileiro havia sido recolhido assim que ele chegou ao Camboja. Segundo ele, um dos responsáveis disse que o documento seria necessário para regularizar o visto. Ele só voltou a ver o passaporte quando o grupo deixou o Camboja com destino a Madagascar.
O brasileiro conta que o grupo chegou a fugir da polícia duas vezes no Camboja. Depois, os responsáveis pela organização compraram passagens e transferiram os brasileiros para Madagascar.
“Eles vieram para Madagascar porque no Camboja já estava sendo investigado muito isso e estavam sendo perseguidos. Então eles tentaram mudar realmente de lugar para ver se seguiriam funcionando.”
Em Madagascar, o grupo ficou inicialmente em um hotel. Depois, foi levado a um complexo onde começou a trabalhar. Foi nesse momento que o paulistano descobriu a verdadeira atividade.
“Quando chegou lá, eu entendi o que era. Eles me deram um script, um roteiro, falaram para eu estudar esse roteiro. E eu vi que era uma central de golpes, através de ligações.”
Segundo o brasileiro, os golpes eram financeiros. Os trabalhadores precisavam permanecer horas em ligação com as vítimas para tentar obter dinheiro e, em alguns casos, continuar monitorando essas pessoas por dias para descobrir se tinham mais recursos.
Militares de Madagascar em frente ao palácio presidencial após anunciarem que estão tomando o poder, em 14 de outubro de 2025. — Foto: Luis Tato/AFP
Ele afirma que cada funcionário trabalhava 10 horas a 12 horas por dia, recebia metas e sofria punições quando não as cumpria. Ele diz também que não recebia o valor que tinha sido combinado. “Desde o momento em que eu cheguei, eu não recebi nada além de trabalho para fazer. Trabalho que eu não queria fazer.”
Entre as punições, estava a obrigação de fazer cópias manuscritas dos roteiros usados nos golpes após a jornada de 10 horas. “Eram duas, três, quatro, cinco [cópias], dependendo. Eram até 10 cópias daquele roteiro, e a gente tinha que entregar no dia.”
Além disso, segundo o relato, havia multas. Um atraso de 1 minuto na entrega poderia resultar em uma cobrança de US$ 200.
O brasileiro afirma que a circulação dos trabalhadores era controlada. O complexo contava com policiais malgaxes armados e, segundo ele, os brasileiros só podiam sair com autorização e supervisão.
“A gente nunca saía desse hotel. Tudo o que a gente precisava, de certa forma, tinha lá dentro.”
Os celulares também eram recolhidos durante o expediente. Ele conta que evitava contar à família o que estava acontecendo por medo de colocar parentes em risco. Segundo o relato, outros brasileiros diziam que os criminosos já haviam mostrado fotos das casas de familiares como forma de ameaça.
“Eu tentava ir conforme a banda tocava e dançava conforme a música para realmente evitar colocar minha família em risco. Até porque eu tenho um filho, tenho mãe, então eu não quero colocar a vida de ninguém em risco.”
A família só descobriu o que havia acontecido com ele depois que o grupo de brasileiros foi preso pela polícia de Madagascar sob acusação de golpes financeiros.
Antes da prisão, segundo o paulistano, outros três brasileiros haviam sido detidos depois de entrar em contato com o consulado. Ele afirma que os criminosos tiveram acesso às mensagens enviadas. Segundo o relato, o trio ficou cerca de um mês preso e depois conseguiu voltar ao Brasil.
A prisão dos 23 brasileiros ocorreu em 19 de agosto, segundo um documento enviado pelo grupo ao Itamaraty relatando o caso e pedindo ajuda. O paulistano afirma que os policiais de Madagascar chegaram ao local com uma lista indicando os quartos onde estavam os trabalhadores.
“Eles levaram todos nós, prenderam a gente. Eles acharam nosso passaporte no quarto de um chinês. Ele achou tudo, tudo, tudo: passaporte de todos juntos. Então levaram a gente para a prisão.”
Brasileiros vítimas de tráfico humano e escravizados há mais de três meses em Mianmar são resgatados e famílias comemoram Jovens escravizados em Mianmar eram obrigados a dar golpes pela internet em brasileiros Jovens escravizados eram obrigados a dar golpes pela internet em brasileiros
Ele afirma ter ficado quatro dias preso, inicialmente em uma cela pequena, escura e sem banheiro.
“A gente ficou totalmente no escuro, dormindo no chão. E era isso. A gente não tinha água. A gente não tinha alimentação.”
Segundo ele, os presos precisavam pagar pela água, pela comida e até pela lenha usada para cozinhar. Policiais chegaram a apontar armas contra ele. “Dois policiais, um com uma pistola e outro com um AK-47, apontando na minha cabeça, me empurrando, me batendo. Após isso, eles me amarraram.”
Em outro momento, quando tentou fugir, ele diz ter sido perseguido pela polícia pelas ruas de Antananarivo. “Eu fui cercado por vários policiais e só parei porque eles engatilharam a arma para mim. Eu escutei engatilhando a arma, então eu parei e me rendi. Eu falei: ‘Eu não vou pagar para ver’.”
Ele conta que foi colocado em uma viatura, revistado e teve o celular levado. Depois, foi levado para outra delegacia e, posteriormente, para um motel onde ficou sob vigilância. No dia seguinte, encontrou uma oportunidade para fugir.
“Eu falei: ‘Eu vou tentar fugir’. Eu me camuflei, peguei minha mala, peguei minhas coisas, fugi e me abriguei na casa da namorada de um amigo meu aqui.”
Depois de se esconder, conseguiu reencontrar os demais brasileiros.
Publicado originalmente por G1. Leia a matéria completa em https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2026/09/01/brasileiro-vitima-de-trafico-humano-relata-fuga-em-madagascar-e-luta-para-voltar-para-casa-com-outros-22-estavam-vendendo-a-gente.ghtml.

Brasileiros traficados estão em Madagascar e não conseguem voltar ao Brasil — Foto: G1
Compartilhe
Espalhe essa notícia

