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    Brasil tem febre de 42 graus, precisa ajustar fiscal e cuidar de suas instituições, diz Arminio Fraga

    Quando se considera a situação fiscal do país , a conclusão é que o Brasil é como um paciente cuja febre já atingiu os 42 graus, em um quadro insustentável que precisa ser enfrentado com reformas. Em meio à crise do STF (Supremo Tribunal Federal), o país precisa ainda garantir a força das suas instituições. Leia mais (09/24/2026 - 18h22)

    Folha de S.Paulo
    24 de setembro de 2026 às 21:22
    Brasil tem febre de 42 graus, precisa ajustar fiscal e cuidar de suas instituições, diz Arminio Fraga
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    São Paulo Quando se considera a situação fiscal do país , a conclusão é que o Brasil é como um paciente cuja febre já atingiu os 42 graus, em um quadro insustentável que precisa ser enfrentado com reformas. Em meio à crise do STF (Supremo Tribunal Federal), o país precisa ainda garantir a força das suas instituições.

    Conversa entre o ex-presidente do BC, Arminio Fraga, e o jornalista Fernando Canzian durante o lançamento do C-Level - Rubens Cavallari/Folhapress · Rubens Cavallari/Folhapress
    Conversa entre o ex-presidente do BC, Arminio Fraga, e o jornalista Fernando Canzian durante o lançamento do C-Level - Rubens Cavallari/Folhapress · Rubens Cavallari/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O diagnóstico foi feito pelo economista e ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga em entrevista ao jornalista Fernando Canzian durante evento de lançamento do C-Level , site de negócios e finanças da Folha , nesta quinta-feira (24).

    "O Brasil é um paciente que está mostrando uma febre maior, de 42 graus. Não dá para continuar", afirmou Fraga ao ser questionado sobre a situação fiscal brasileira . "E talvez seja um país que tenha uma doença muito grave também em outras áreas, o que agrava ainda mais o quadro."

    Ele disse acreditar que o próximo governo provavelmente adotará ações para conter o crescimento da dívida pública. "Alguma coisa terá que ser feita, o que já não é pouco. Mas eu estou mais preocupado ainda com o quadro institucional do que com o econômico", afirmou.

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    Ao falar sobre as responsabilidades do Congresso nesse cenário, Fraga disse que o Senado tem uma missão importante pela frente. "Aí vem essa dinâmica do Supremo. Acho que o Senado, particularmente, tem uma missão enorme pela frente, que é 'impichar' dois, três que são óbvios", disse.

    Sobre a situação econômica, Fraga avaliou que hoje a política fiscal está brigando com a monetária, em um cabo de guerra que empurra os juros para cima. "O governo brasileiro toma dinheiro emprestado a curto prazo pagando 9%, 10% acima da inflação . Tem o juro global também: o americano está pagando 3% acima da inflação para tomar dinheiro a 20 anos. Essa situação, com certeza, não se sustenta."

    O ex-presidente do BC apontou que o país não deveria arriscar-se a chegar a um ponto em que a situação fiscal se torne irreversível.

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    Ele fez um paralelo entre a economia brasileira e o aquecimento global, citando um artigo escrito pelos cientistas Carlos Nobre e Thomas Lovejoy. No texto, eles escrevem que não faz sentido descobrir qual é o ponto de não retorno ultrapassando esse limite. "A gente não quer testar isso", disse.

    Fraga indicou algumas questões principais que precisam ser enfrentadas para impedir que o país chegue a uma situação da qual não possa voltar.

    A primeira delas é uma nova reforma da Previdência . "A Previdência brasileira é gigante, é bastante generosa pelos padrões globais, levando-se em conta a nossa demografia. E ela vai continuar crescendo. Se a gente começar a cuidar também do que vai acontecer daqui a 10, 20, 30 anos, isso ajuda muito."

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    Ele citou uma proposta que apresentou em conjunto com especialistas na área , que propõe unificar em 67 anos a idade mínima para a aposentadoria de homens e mulheres. "O projeto que apresentamos foi espetacular, é uma proposta completa. É botar na mesa, discutir e votar."

    O segundo tema, na avaliação de Fraga, é a reforma administrativa, mirando o tamanho da folha de pagamentos do Estado brasileiro.

    "É um grande problema de estados e municípios. É difícil também porque em cima disso estão características antigas do nosso país: a relação com o Estado, o patrimonialismo, a captura do Estado."

    Como terceiro ponto, ele vê a necessidade de melhorias no sistema tributário brasileiro, reduzindo os gastos tributários. "É importante ter em mente que os gastos tributários há uns 30 anos eram de 2% a 3% do PIB . Hoje são de 5% a 6%", disse. Segundo Fraga, essa área grita por uma resposta. "É uma briga inglória. Não acredito em ideias de choque total, é preciso acontecer aos poucos."

    O economista ressaltou a necessidade de revisão dos gastos públicos, ponto em que há a possibilidade de gerar resultados no curto prazo.

    Para ele, essas melhorias devem ser implementadas de forma gradual, estipulando-se a entrega de resultados primários realistas. "Hoje um déficit bem medido deve estar mais perto de 1% do PIB. Seria bom passar relativamente rápido para o superávit, e sinalizar que vamos para um superávit maior. Precisa chegar uma hora em que o Brasil tenha um juro mais normal."

    Ele também apontou a preocupação com o fato de os juros americanos estarem elevados, o que reduz a atratividade do Brasil. "Quando isso se casa com a preocupação que eu tenho das qualidades institucionais do Brasil, vejo um grande problema. Pela pura aritmética da dívida, não tem solução fácil. Vamos ter que trabalhar e apresentar resultados qualitativos de grande importância."

    Na avaliação do ex-presidente do BC, todos esses pontos são de difícil implementação. "Não vai dar para empurrar com a barriga. O mercado de crédito está muito afogado porque a taxa é muito alta, o risco é grande. Essa crise está vindo. O aperto do crédito pegou o crédito pessoal, o varejo, as empresas."

    Segundo Fraga, há duas preocupações principais com os candidatos à Presidência que estão à frente nas pesquisas, o senador Flávio Bolsonaro ( PL ) e o presidente Lula (PT).

    " No campo bolsonarista assusta o lado institucional, e no caso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a condução econômica. Seria bom ter um segundo turno que permitisse um debate mais aprofundado. O cardápio diante das necessidades do nosso país é muito desafiador", afirmou.

    Fraga disse que o desaquecimento da economia brasileira está encomendado. "O Brasil segue com uma taxa de investimento muito baixa", disse. "Hoje o Brasil atrai capital, mas é pouco para o que poderia receber. Para isso se normalizar, você teria que ter um ganho de confiança."

    Para ele, há um risco significativo de frustração das expectativas da população com o ritmo da economia nos próximos anos.

    "O risco de frustração é real. Quando você tem um período de alívio momentâneo, mas a economia real desacelera logo em seguida, a distância entre a expectativa criada e o bolso do cidadão gera uma decepção profunda, que facilmente se converte em revolta social e instabilidade política", afirmou.

    Fraga concluiu a conversa afirmando que não é possível separar política fiscal de pobreza, informalidade e produtividade.

    "Tudo faz parte da mesma engrenagem. O Brasil construiu uma rede de proteção importante, mas com distorções evidentes", disse. "O Bolsa Família é essencial e deve ser preservado, mas a pergunta central é: o que vem depois? A assistência combate a miséria imediata, mas a verdadeira emancipação vem pela educação de base de qualidade, saúde preventiva e condições reais para a mobilidade social."

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://c-level.folha.uol.com.br/c-level-entrevista/2026/09/brasil-tem-febre-de-42-graus-precisa-ajustar-fiscal-e-cuidar-de-suas-instituicoes-diz-arminio-fraga.shtml.

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