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    Brasil pode aproveitar 'powershoring' com energia limpa para atrair empresas, diz estudo

    Às vésperas das eleições de 2018, o economista Bernard Appy percorreu comitês de campanha e grupos da sociedade civil ao lado de pesquisadores do CCiF (Centro de Cidadania Fiscal). O objetivo era colocar em pauta o tema da reforma tributária . Leia mais (09/03/2026 - 06h00)

    Folha de S.Paulo
    3 de setembro de 2026 às 09:00
    Brasil pode aproveitar 'powershoring' com energia limpa para atrair empresas, diz estudo
    Vista aérea mostra instalação industrial com três grandes tanques cilíndricos brancos à esquerda, diversas tubulações e equipamentos no centro, área com estruturas metálicas e equipamentos à direita, cercada por árvores e vias pavimentadas. — Foto: Folha de S.Paulo

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    Às vésperas das eleições de 2018, o economista Bernard Appy percorreu comitês de campanha e grupos da sociedade civil ao lado de pesquisadores do CCiF (Centro de Cidadania Fiscal). O objetivo era colocar em pauta o tema da reforma tributária .

    Imagem de drone de fábrica da produção de hidrogênio verde - Rubens Cavallari - 15.abr.26/Folhapress · Rubens Cavallari - 15.abr.26/Folhapress
    Imagem de drone de fábrica da produção de hidrogênio verde - Rubens Cavallari - 15.abr.26/Folhapress · Rubens Cavallari - 15.abr.26/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O assunto não virou tema quente no período eleitoral, mas quando a discussão foi pautada no Congresso Nacional, ao longo dos governos de Jair Bolsonaro ( PL ) e Luiz Inácio Lula da Silva ( PT ), as propostas do CCiF tiveram influência decisiva.

    Ao longo desta semana, uma equipe liderada pelo economista Luiz Awazu Pereira da Silva chega a São Paulo com objetivo semelhante: colocar um tema no debate público. Eles apresentarão em diversos fóruns —entre eles Fiesp, Febraban, ONGs e entidades ligadas ao agronegócio— o estudo "Crescimento liderado pelo investimento na transição ecológica do Brasil", realizado com o apoio do Cetex (Centre for Economic Transition Expertise) da LSE (London School of Economics), e da organização não-governamental ICS (Instituto Clima e Sociedade).

    O estudo defende que, se tomar as decisões certas, o Brasil pode se aproveitar do "powershoring", conceito desenvolvido pelo economista Jorge Arbache, um dos coautores do texto.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Indústrias que usam energia de forma intensiva estão se mudando para países ou regiões com oferta energética abundante. Num contexto geopolítico em que o acesso aos combustíveis fósseis é cada vez mais incerto, torna-se uma vantagem se essa oferta for de energia limpa.

    O estudo mostra que o Brasil tem várias condições para atrair elos de cadeias industriais que se beneficiam do "powershoring". Neutralidade geopolítica, distância de zonas de conflito, presença de minerais críticos , água e biomassa, e descoberta de novas reservas de petróleo que possam financiar a transição energética. Além, é claro, de abundância de energia hidrelétrica, eólica e solar.

    Seriam essas nossas "vantagens comparativas", segundo o conceito desenvolvido pelo economista britânico David Ricardo (1772-1823). O desafio seria transformar essas "vantagens comparativas" nas "vantagens competitivas" de que fala o americano Michael Porter, professor de Harvard.

     Programar investimentos é estratégia psicológica e traz mais disciplina financeira
    Programar investimentos é estratégia psicológica e traz mais disciplina financeira — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Isso envolveria transformar um "estoque passivo de riqueza" em "uma plataforma industrial de baixo carbono", para usar as palavras dos autores do estudo.

    "O desafio não é apenas explorar ou exportar esses recursos, mas industrializá-los: processar minerais, transformar biomassa em biocombustíveis e SAF (combustível sustentável de aviação), produzir aço verde, desenvolver a bioeconomia, agregar tecnologia e criar fornecedores e empregos qualificados no Brasil", enfatizam os autores.

    "Caso contrário, o país poderá cair numa nova ‘maldição verde dos recursos naturais’: exportar commodities mais limpas, mas continuar com baixa produtividade e pouco valor agregado". Os autores citam, entre outros, o exemplo do Canadá, onde plantas industriais estão se mudando para a região de Quebec para ficarem próximos de centros de produção de energia limpa.

    "Não é que estejamos inventando o ‘powershoring’, a gente está observando que existem esses novos fatores nas decisões de negócios", disse Awazu à Folha .

    Não é milagre, as coisas não vão vir espontaneamente, mas o Nordeste, por exemplo, tem um potencial eólico e solar enormes. No estudo temos uma tabela que mostra o custo baixo da energia renovável no Brasil. Isso entra como um fator de atratividade para o investimento estrangeiro direto

    Como os autores destacam, os investimentos para essa transformação teriam que vir principalmente do setor privado, num país que sofre com endividamento crescente e restrições orçamentárias.

    "A Europa e a China têm abundância de investimento estatal na transição energética, mas nós não temos espaço fiscal para isso", diz o economista Manoel Pires, coautor do estudo. Segundo ele, algumas ferramentas de financiamento já disponíveis no Brasil poderiam funcionar como catalisadores para uma "política industrial verde".

    "O ajuste fiscal é importante, mas a gente não acredita que tal ajuste, por si só, produza espontaneamente crescimento", afirma Awazu. Para ele, há na política brasileira um debate que enfatiza a importância do acerto das contas públicas de um lado, e de outro um modelo em que o crescimento vem do consumo das famílias, de transferências sociais e do orçamento público. "Nossa proposta, intermediária, é usar nossas vantagens para criar nossa inserção na economia mundial".

    A ideia de estabelecer o Brasil, no plano internacional, como uma "potência verde" —ancorada em agricultura sustentável, industrialização turbinada por energia limpa e preservação de ativos ambientais como a Floresta Amazônica — vem sendo desenvolvida há mais de uma década por coalizões que unem setores produtivos, universidades e organizações não-governamentais ligadas ao clima. Ela esbarra sempre na falta de lideranças capazes de colocar o tema no debate público.

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    Em entrevista na sexta-feira (28) ao Jornal Nacional , o candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL) questionou o consenso científico em torno da mudança climática, justificando a ausência do tema no próprio programa de governo.

    Já Lula usa a descoberta de petróleo na Margem Equatorial para conseguir apoio político, sem nunca fazer a ligação entre a exploração de combustíveis fósseis e a transição para energia limpa.

    "No fundo de recursos do pré-sal, que foi aprovado em 2010, já tinha um uso destinado para mudanças climáticas", relembra Manoel Pires. "Acho que podemos aproveitar a oportunidade atual para refazer isso, propondo o uso da Margem Equatorial para financiar a transição energética".

    "Pessoas do Tesouro, pessoas do BNDES , equipes do Ministério da Fazenda e do Ministério do Meio Ambiente já receberam o estudo", comenta Awazu.

    "Já tivemos também rodadas de encaminhamento prelimnar para pessoas do governo e pessoas que participam do debate público. A gente tem feito um trabalho bastante amplo e extenso de divulgação e coleta de impressões. A ideia é colocar esse tema na pauta".

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2026/09/brasil-pode-aproveitar-powershoring-com-energia-limpa-para-atrair-empresas-diz-estudo.shtml.

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    Imagem de drone de fábrica da produção de hidrogênio verde - Rubens Cavallari - 15.abr.26/Folhapress · Rubens Cavallari - 15.abr.26/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo

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