Brasil deve enviar carta à China para rever cota da carne bovina
Correspondência defende redistribuição das cotas e manutenção do fluxo comercial; governo também negocia abertura de novos produtos para compensar impacto sobre frigoríficos

O governo brasileiro abriu uma nova frente de negociação com a China para tentar reduzir os impactos da salvaguarda sobre as exportações de carne bovina . Uma correspondência deve ser entregue pessoalmente nos próximos dias pela diplomacia brasileira às autoridades do Mofcom (Ministério do Comércio da China).
O conteúdo do documento defende uma reavaliação da distribuição das cotas de importação, depois de o Brasil atingir o limite anual previsto para embarques com tarifa reduzida, apurou a reportagem.
As tratativas envolvem o Mapa (Ministério da Agricultura e Pecuária), o MRE (Ministério das Relações Exteriores) e o MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços).

A avaliação do governo é que, neste momento, interromper o fluxo comercial pode prejudicar tanto exportadores brasileiros, quanto compradores chineses.
Enquanto Brasil e Austrália já alcançaram praticamente 100% do limite anual permitido para exportação para a China , Argentina e Uruguai ainda teriam espaço disponível. Ao atingir o limite, os exportadores brasileiros terão de pagar uma alíquota de 67% — 12% da taxa que já era cobrada mais 55% de taxa extra — o que inviabiliza os envios para o gigante asiático.
Mesmo assim, o excedente produzido e que está em curso no mar para a China neste momento não deve retornar ao país . Segundo fontes ouvidas pela reportagem, os exportadores e compradores devem dividir o valor da cota para que os produtos fiquem por lá.

A avaliação do governo é que o desempenho brasileiro, com as cotas esgotadas bem antes de finalizar o ano, pode embasar uma revisão da distribuição das cotas para 2027, refletindo a demanda observada entre os principais fornecedores da China.
Por isso, a estratégia deixou de ser discutir a salvaguarda em si, prevista nas regras da OMC (Organização Mundial do Comércio), e passou a focar em formas de reduzir seus efeitos.
A principal tese apresentada pelo Brasil é que a cadeia da carne bovina opera de forma contínua e que uma interrupção repentina das compras pode provocar distorções tanto para exportadores quanto para importadores .

Frigoríficos programam abates, produção, logística e embarques com meses de antecedência. Caso as vendas para a China sejam interrompidas de uma só vez, empresas terão de redirecionar a produção para outros mercados, renegociar contratos e reorganizar toda a operação comercial.
Na avaliação do governo, isso pode gerar uma ruptura temporária no abastecimento justamente porque se trata de um produto perecível e de uma cadeia que não pode simplesmente ser interrompida de um dia para o outro.
Outro argumento levado à mesa é que parte das plantas frigoríficas brasileiras produz quase exclusivamente para atender ao mercado chinês, o que torna uma paralisação ainda mais sensível para o setor.

A negociação também considera o cenário entre os principais fornecedores da China. Enquanto Brasil e Austrália praticamente esgotaram seus volumes, Argentina e Uruguai ainda não utilizaram integralmente as respectivas cotas.
Esse cenário alimenta a avaliação de que existe espaço para discutir uma redistribuição dos volumes disponíveis ou outro modelo que preserve a continuidade das compras brasileiras.
A ofensiva brasileira não se limita à carne bovina.

Paralelamente às negociações sobre a cota, o governo trabalha para ampliar a lista de produtos autorizados a entrar no mercado chinês. A avaliação é que novos protocolos podem compensar parte das perdas enfrentadas pelos frigoríficos.
Nos últimos dias, Brasil e China concluíram a negociação para habilitar as exportações de cálculo biliar bovino , produto utilizado pela indústria farmacêutica e pela medicina tradicional chinesa e que possui elevado valor agregado.
Outros produtos também fazem parte das negociações em andamento. Em junho, a China reconheceu o Brasil como livre de febre aftosa sem vacinação, o que viabiliza a exportação de insumos como o couro wet blue, miúdos e carne com osso.

Os miúdos especialmente são um segmento que pode ganhar espaço no mercado chinês sem competir diretamente com a cota destinada à carne bovina.
Segurança alimentar pesam nas negociações
A avaliação do governo brasileiro é que a China continuará interessada em manter o Brasil entre seus principais fornecedores de carne bovina.

Nos bastidores, interlocutores envolvidos nas negociações afirmam que a segurança alimentar segue como uma das principais prioridades de Pequim e que uma interrupção prolongada das compras brasileiras não seria conveniente para o país asiático.
Outro ponto levado às conversas é que a China mantém estoques de carne bovina, o que reduz a pressão por uma solução imediata.
Ainda assim, integrantes do governo avaliam que uma interrupção no fluxo comercial pode trazer efeitos para o abastecimento ao longo dos próximos meses, caso frigoríficos brasileiros redirecionem parte da produção para outros mercados o que também pode afetar em cheio na inflação do país.
A China consome cerca de 11 milhões de toneladas de carne bovina por ano, mas só produz em torno de 8 milhões.
Nesse cenário, a expectativa é que a discussão sobre as cotas também considere o comportamento da demanda observado neste ano.
Mesmo assim, integrantes do governo brasileiro reconhecem que a decisão depende exclusivamente de Pequim e evitam trabalhar com qualquer expectativa de resultado.
Publicado originalmente por CNN Brasil. Leia a matéria completa em https://www.cnnbrasil.com.br/agro/brasil-deve-enviar-carta-a-china-para-rever-cota-da-carne-bovina/.

Cenário alimenta a avaliação de que existe espaço para discutir uma redistribuição dos volumes disponíveis ou outro modelo que preserve a continuidade das compras brasileiras • Reuters · • Reuters — Foto: CNN Brasil
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