Brasil de instituições em ruína e mal-estar econômico facilita projetos autoritários
O Brasil prepara a cama para quem venha a tentar uma solução autoritária? Para um autocrata eleito pela coalizão dos desesperados com os espertos do status quo? Leia mais (09/19/2026 - 14h13)

Jornalista, foi secretário de Redação da Folha. É mestre em administração pública pela Universidade Harvard (EUA)
Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

O Brasil prepara a cama para quem venha a tentar uma solução autoritária? Para um autocrata eleito pela coalizão dos desesperados com os espertos do status quo?
Imagine-se uma situação em que seja extensa a sensação de baderna e descontrole , de expansão do crime e de ameaça a valores que constituem a identidade de seu grupo; um ambiente de notícias de corrupção, de padecimento socioeconômico e de cinismo em relação ao sistema de governo, sentimentos então exacerbados por pânicos político-morais manejados de modo a dar sentido a tudo isso.
Em escala menor, havia ingredientes dessa lista entre os mal-estares que precederam a revolta de 2013. Nenhum grupo político deu consequência imediata às insatisfações de então, de resto voltadas contra os partidos que estavam ali. No entanto, passou a se organizar um movimento que viria a se valer do desgosto antissistêmico, aprofundado pela Grande Recessão . Tal movimento chegou ao poder em 2018, com Jair Bolsonaro . Desde então conta com o apoio de um terço a metade do eleitorado.

O risco de autoritarismo vai além daquele representado pela candidatura de Flávio Bolsonaro ( PL ), que em parte se baseia na ideia de restauração de Bolsonaro 1 e, pois, de negação de que houve tentativa de golpe e de afirmação do plano de controlar instituições como polícia e Justiça. Além disso, tal candidatura elogia autocratas, de Bukele a Orban , passando por Trump , ou a eles se associam.
Para certos grupos sociais, o bolsonarismo seria apenas um Cavalo de Troia no qual galopariam para defender reformas ou interesses econômicos —em vez de cavalcantes, podem ser cavalgados. Não é destino. Graças, artimanhas e reconfigurações da política e até do ambiente econômico podem dar em resultados diversos. Mas o campo arruinado está aberto para aventuras políticas diversas.
O Supremo, quase metade sob suspeita de corrupção , está dividido entre grupos que disputam a maioria de votos pelo poder de controlar a política, seus acordões, favores empresariais e o que passa por Justiça —o conflito vai além desta eleição. A disputa eleitoral de 2026 também é corrida para subverter ainda mais o STF .
O crime das facções entranhou-se no poder em estados como o Rio de Janeiro e infiltra-se em cidades como São Paulo. Domina a amazônia, aproveitando-se da destruição, e por ali também organiza a empresa bandida (associada a empresas "legais") de drogas, armas, minérios, gado e madeira.
Entrincheirou-se nos combustíveis e tem domínios na finança , a mesma que administra o dinheiro da corrupção política e empresarial. O Congresso é disputa de feudos para a apropriação de recursos estatais a fim de eternizar dinastias e grupos políticos, empresariais ou puramente criminais. A facilidade com que Daniel Vorcaro comprou a elite no poder reforça a ideia de que o comércio político seja ainda mais extenso.
O país passará no mínimo por um período de dificuldades econômicas . Parte da solução do problema envolve a disputa mais acirrada pelo Orçamento —no curto prazo, perdas e ganhos, embora vá muito além disso, o que a desinformada esquerda não entende. O cinismo ou a revolta em relação ao sistema político não vai diminuir em tempos de dureza econômica e instituições destruídas. Diante da paisagem arruinada e do conflito sociopolítico, a ideia de solução autocrática pode atrair adeptos das piores intenções ou das piores ilusões.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!
Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?
Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.
Na página Colunas da Folha você encontra opinião e crônicas de colunistas como Mônica Bergamo , Elio Gaspari , Djamila Ribeiro , Tati Bernardi , Dora Kramer , Ruy Castro , Muniz Sodré , Txai Suruí , José Simão , Thiago Amparo , Antonio Prata e muito mais.
Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/viniciustorres/2026/09/brasil-de-instituicoes-em-ruina-e-mal-estar-economico-facilita-projetos-autoritarios.shtml.

Sessão plenária do STF (Supremo Tribunal Federal) - Rosinei Coutinho -15.set.26/Divulgaçao STF · Rosinei Coutinho -15.set.26/Divulgaçao STF — Foto: Folha de S.Paulo
Compartilhe
Espalhe essa notícia

