Brasil corre para ampliar medicina de desastres e fazer frente às mudanças climáticas e ao El Niño
Investimentos em prevenção e hospitais emergenciais devem superar R$ 9 bilhões até 2035, diz o Ministério da Saúde

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Na iminência de um El Niño que deve causar eventos climáticos extremos , o Brasil corre para aumentar sua estrutura da chamada medicina de desastres, setor responsável por planejar e atuar na resposta a catástrofes, como as enchentes que assolaram o Rio Grande do Sul em 2024.

O país prepara investimento bilionário com plano para expandir hospitais de campanha e equipes nos grandes centros urbanos, segundo Adriano Massuda, secretário-executivo do Ministério da Saúde . Na mesma linha, instituições privadas se mobilizam na capacitação de grupos com habilidades específicas para atuar em situações de desastres.
A discussão ganha força na saúde diante de duas possibilidades: tragédias ambientais, decorrentes de chuvas e secas , por exemplo, e o surgimento de novas epidemias, como ocorre atualmente com o surto de ebola na República Democrática do Congo .
A medicina de desastres é uma subespecialidade da emergência, voltada à atuação em ambientes geralmente desestruturados e com a demanda muito além do que o sistema local de saúde pode absorver. Guerras, acidentes aéreos e crises migratórias configuram algumas dessas situações.

Segundo Massuda, o país começou a se estruturar em 2011, com a criação da Força Nacional do SUS (Sistema Único de Saúde) em razão dos deslizamentos na região serrana do Rio de Janeiro .
"Naquela época, aproximavam-se a Copa e as Olimpíadas [no Brasil] e viu-se a necessidade de implementar uma equipe para atuar em tragédias. Temíamos, por exemplo, a possibilidade de um atentado", conta.
À Folha , Massuda afirma que a Força Nacional do SUS ganhou novas unidades nos estados neste ano, em Salvador , Porto Alegre e também no Rio de Janeiro. Outras cinco bases devem iniciar a operação em 2027: uma na região Nordeste, outra no Centro-Oeste e duas no Norte.

"O plano para aumentar a resiliência do sistema de saúde prevê aplicação de R$ 9,8 bilhões até 2035", afirma.
As bases contam com infraestrutura e insumos para a montagem rápida de hospitais de campanha . Esse é um dos principais pilares para responder a tragédias, sobretudo porque regiões atingidas por catástrofes podem perder parte de estruturas como hospitais e unidades de atenção primária .
No Rio Grande do Sul, segundo a pasta, foram instalados quatro hospitais de campanha com capacidade para atender 200 mil pessoas por um período de três meses.

Até 2022, a estrutura funcionava por demanda, isto é, não tinha uma operação própria. Atualmente, conta com 82 profissionais na gestão, atrelada ao Ministério da Saúde, e 70 mil profissionais voluntários, distribuídos em todas as unidades da federação —3.500 deles foram capacitados para atuação em tragédia. A equipe tem ainda 70 profissionais com qualificação aeromédica.
Segundo a pasta, com isso a ideia é montar um hospital em qualquer lugar do país em até 12 horas após uma tragédia.
A medicina de desastres ganhou força a partir dos anos 1980. O trabalho não se resume à atuação frente a episódios trágicos, e os profissionais dessa área são responsáveis por prever qualquer possível situação catastrófica, segundo o sanitarista Felipe Piza, responsável pelo setor de filantropia do Einstein Hospital Israelita.
A unidade possui um grupo de atuação em tragédias que participou de 20 missões desde 2008, entre as quais o terremoto no Haiti (2010), o incêndio da Boate Kiss (2013) e o rompimento da barragem de Brumadinho (2019).
"Não se pode mandar qualquer profissional de saúde para uma catástrofe porque é uma atuação particular. Primeiro porque não há o recurso hospitalar ou clínico com o qual o médico está acostumado. Depois, o profissional será testado em um ambiente de estresse contínuo, de adoecimento mental, de traumas dos pacientes. Exige uma capacitação prévia e posterior, continuada, mesmo após a missão", afirma Piza.
Há também situações que colocam profissionais e pacientes sob risco biológico ou decorrentes de conflitos.
"Isso exige do profissional uma criatividade para fazer o possível com o que tem, sem abandonar as evidências científicas, sem abandonar a gestão de risco", afirma Cláudia Laselva, diretora de serviços hospitalares, apoio e práticas assistenciais do Einstein.
"Quando estivemos em São Sebastião [no litoral norte de São Paulo] após os deslizamentos de 2023, vimos uma enfermeira que estava trabalhando havia 72 horas, sem descansar. Ela me abraçou e disse ‘vocês não sabem a alegria que tenho por recebê-los, pois agora vou poder descansar'", diz Cláudia.
Para ela, instituições privadas e entidades do terceiro setor também precisam se adequar à possibilidade de tragédias. A lógica parte, afirma, da impossibilidade de o sistema de saúde estar em todos os lugares.
"O [hospital] Einstein está a poucos metros do estádio do Morumbi, por exemplo. Nós aqui já estamos preparados para uma tragédia que possa ocorrer ali a qualquer momento, e isso tem que ser replicado mais rápido do que acontece hoje. Empresas, entidades e governos precisam avançar, partindo da premissa de que ele está à espreita a todo momento", afirma Cláudia.
Outra atuação da medicina de desastres se dá no pós-evento, focada nos resquícios deixados à população local.
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Uma análise da Folha a partir de dados do Datasus mostrou que as consultas e atendimentos relacionados a transtornos mentais em hospitais gaúchos cresceram 11,7% na média mensal nos dez meses posteriores à catástrofe. Foram 64,2 mil atendimentos públicos, o maior pico da década. Pacientes relataram crises de pânico e síndrome de estresse pós-traumático.
Para esses episódios, as equipes precisam manter os atendimentos até meses depois de restabelecido o sistema local, uma vez que a demanda não cabe nas estruturas disponíveis.
Segundo o Ministério da Saúde, o número de missões da Força Nacional do SUS cresceu nos últimos anos —foram 14 em 2023; 19 em 2024; e 45 no ano passado. Ainda não há dados fechados sobre as missões de 2026.
O projeto Saúde Pública tem apoio da Umane, associação civil que tem como objetivo auxiliar iniciativas voltadas à promoção da saúde.
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Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2026/08/brasil-corre-para-ampliar-medicina-de-desastres-e-fazer-frente-as-mudancas-climaticas-e-ao-el-nino.shtml.

O hospital HSPC, em Canoas, ficou inundando em maio de 2024 durante as enchentes no Rio Grande so Sul, comprometendo o apoio às vítimas - Pedro Ladeira - 14.mai.24/Folhapress · Pedro Ladeira - 14.mai.24/Folhapress — Foto: UOL
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