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    Bombardeios dos EUA na América Latina entram em perigosa normalização

    Intervenções americanas na América Latina não são novas, mas agora líderes da região abrem as portas para isso

    UOL
    15 de agosto de 2026 às 16:00
    Bombardeios dos EUA na América Latina entram em perigosa normalização
    Foto: UOL

    Historiadora e jornalista especializada em América Latina, foi correspondente da Folha em Londres e em Buenos Aires

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    O presidente dos EUA, Donald Trump, durante cúpula do Escudo das Américas, organização criada por ele para atuar na América Latina com apoio de governos aliados - Kevin Lamarque - 7.mar.26/Reuters · Kevin Lamarque - 7.mar.26/Reuters
    O presidente dos EUA, Donald Trump, durante cúpula do Escudo das Américas, organização criada por ele para atuar na América Latina com apoio de governos aliados - Kevin Lamarque - 7.mar.26/Reuters · Kevin Lamarque - 7.mar.26/Reuters — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Mais de 200 pessoas já foram mortas pelos bombardeios dos Estados Unidos contra embarcações suspeitas de transportar drogas no Caribe e no Pacífico. Entre elas há pescadores e civis humildes. Não houve acusação, defesa ou julgamento. Washington decidiu que eram "narcoterroristas" e que isso bastava para transformá-los em alvos militares.

    Mesmo que todos transportassem drogas —e isso não foi demonstrado—, desde quando o narcotráfico passou a ser crime punido com execução sumária?

    Pete Hegseth, secretário de Defesa, não esconde a intenção de ampliar a ofensiva. Em 12 de agosto, no Panamá, perguntado sobre a possibilidade de uma ação militar contra Cuba, respondeu: "Todas as opções, inclusive as militares, estão sobre a mesa". Pouco antes, anunciara que o governo colombiano de Abelardo de la Espriella autorizou operações militares conjuntas em seu território com forças americanas contra o chamado "narcoterrorismo".

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    Foto: UOL · Fonte: UOL

    O mais inquietante é a velocidade com que a região começa a normalizar algo moralmente condenável. A discussão deixa de ser se os EUA têm o direito de matar suspeitos sem julgamento e passa a ser onde poderão bombardear a seguir.

    A newsletter da Folha sobre América Latina, editada pela historiadora e jornalista Sylvia Colombo

    Daniel Noboa aprofundou a cooperação militar do Equador com Washington. De la Espriella foi além: convidou os EUA a participar de operações em solo colombiano.

    É difícil imaginar terreno mais perigoso para esse experimento. A Colômbia carrega décadas de conflito e milhões de deslocados. Grupos armados não vivem num território esterilizado, separado de camponeses e comunidades pobres. É um dos países mais povoados da região. A promessa de ataques "cirúrgicos" esbarra na geografia humana do conflito. Os camponeses colombianos passaram décadas pagando pela guerra dos outros. Agora correm o risco de pagar também pela guerra de Trump.

    A palavra "narcoterrorismo" ajuda a tornar aceitável essa mudança. Mistura chefes de cartéis, guerrilheiros, pequenos transportadores e suspeitos numa categoria de inimigos de guerra. O suspeito que deveria ser investigado e julgado passa a poder ser eliminado por um míssil.

    O México mostra que há alternativa. Claudia Sheinbaum coopera com Washington em inteligência e segurança, mas rejeita reiteradamente operações militares americanas em território mexicano: cooperação, sim; subordinação, não. "A última vez que os Estados Unidos vieram ao México com uma intervenção levaram metade do território", lembrou.

    Noboa e De la Espriella, portanto, fizeram uma escolha.

    E não se trata de episódios isolados. A Estratégia de Segurança Nacional de Trump fala em "restabelecer a preeminência" dos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental e ressuscita explicitamente a Doutrina Monroe, agora sob um "corolário Trump".

    A pretensão de Washington de decidir onde e contra quem pode usar a força na América Latina é velha conhecida da região. O que assusta agora é encontrar presidentes latino-americanos dispostos a abrir a porta, sendo que alguns convidam os Estados Unidos a entrar.

    Mais de 200 pessoas já morreram nessa nova guerra. Antes que o número aumente e os bombardeios se tornem apenas mais uma notícia, convém recuperar uma capacidade que estamos perigosamente perto de perder: a de nos escandalizar.

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    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/colunas/sylvia-colombo/2026/08/bombardeios-dos-eua-na-america-latina-entram-em-perigosa-normalizacao.shtml.

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    O presidente dos EUA, Donald Trump, durante cúpula do Escudo das Américas, organização criada por ele para atuar na América Latina com apoio de governos aliados - Kevin Lamarque - 7.mar.26/Reuters · Kevin Lamarque - 7.mar.26/Reuters — Foto: UOL

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