BNDES desembolsa maior valor para crédito no 1º semestre desde governo Dilma
O BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) desembolsou R$ 75,6 bilhões em crédito no primeiro semestre de 2026, alta de 31,2% ante igual período do ano passado. Leia mais (08/21/2026 - 06h00)

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O BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) desembolsou R$ 75,6 bilhões em crédito no primeiro semestre de 2026, alta de 31,2% ante igual período do ano passado.

Os dados são da série histórica que o banco público disponibiliza em valores constantes –corrigidos pela inflação .
A quantia liberada é a maior para o intervalo de janeiro a junho desde 2015 (R$ 124,3 bilhões), no segundo governo Dilma Rousseff ( PT ).
Para uma parcela dos analistas, o estímulo à economia gerado pela alta nas operações pode representar um desafio para a política do BC (Banco Central) de combate à inflação. O BNDES rebate esse argumento.

Os desembolsos são a última fase do fluxo de financiamentos do banco. São os recursos liberados para as diferentes atividades econômicas.
O recorte setorial mostra que a instituição desembolsou quase R$ 28,5 bilhões para infraestrutura no primeiro semestre, o equivalente a 37,6% do total. É o principal valor entre as quatro atividades detalhadas pelo BNDES.
Agropecuária (R$ 17,7 bilhões), indústria (R$ 15,6 bilhões) e comércio e serviços (R$ 13,8 bilhões) vieram na sequência. Os quatro segmentos tiveram alta nos desembolsos ante o primeiro semestre de 2025.

O valor direcionado para infraestrutura aumentou 48,3%. Dentro desse setor, o transporte rodoviário foi a área que mais recebeu financiamentos –quase R$ 15 bilhões, um avanço de 190,4%.
Ao comentar a expansão dos desembolsos, o diretor de planejamento e relações institucionais do BNDES, Nelson Barbosa, diz existir uma recuperação dos investimentos em infraestrutura no país, puxados por concessões, especialmente de rodovias. Ele também lembra que o banco passou a operar programa de renovação da frota de caminhões e ônibus .
O diretor ainda cita o impacto de iniciativas como a política industrial do governo Lula (PT), os empréstimos após o tarifaço de Donald Trump e as enchentes no Rio Grande do Sul , os financiamentos a exportações da Embraer e os repasses a micro, pequenas e médias empresas.
Outra métrica que mostrou alta no primeiro semestre foi a das aprovações. É nessa etapa em que ocorre o aval do BNDES para a liberação dos recursos, antecedendo os repasses. Ou seja, as aprovações tendem a virar desembolsos ao longo do tempo.
De janeiro a junho, os pedidos de crédito aprovados somaram R$ 111,7 bilhões em valores constantes, alta de 44,9% ante igual período do ano passado. O montante é o maior para o primeiro semestre desde 2014 (R$ 168 bilhões), no primeiro mandato de Dilma.
O BNDES afirma que, no acumulado dos 12 meses até junho, as aprovações alcançaram o patamar equivalente a 2,1% do PIB (Produto Interno Bruto), enquanto os desembolsos chegaram a 1,4%.
As proporções subiram ao longo do terceiro governo Lula, mas seguem abaixo dos níveis verificados em gestões anteriores do PT. As aprovações ultrapassaram 5% do PIB em 2009, 2010 e 2012, e os desembolsos ficaram acima de 4% em 2009 e 2010.
Para o economista-chefe da consultoria MB Associados, Sergio Vale, os dados indicam que o atual incentivo do banco à economia não tem a mesma intensidade do passado petista. A ampliação das operações, porém, coloca "um pouco de preocupação" no cenário antes das eleições , diz ele.
O alerta, segundo Vale, ocorre porque a aceleração do crédito destoa da atuação do BC no momento. O BC recorre a uma taxa básica de juros ( Selic ) de dois dígitos para tentar esfriar a economia e, assim, conter a inflação.
"O BNDES está trabalhando de forma conjunta com o [lado] fiscal [do governo] para tentar manter um estímulo à economia no momento em que o Banco Central está tentando seguir no caminho contrário", diz.
"A gente está revivendo um pouco do passado, em um grau menor", acrescenta.
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Barbosa afirma que o BNDES está aberto a essa discussão e que os questionamentos são legítimos. Ele, contudo, diz considerar "infundadas" as preocupações no momento.
O diretor menciona que os desembolsos saíram da faixa de 1% do PIB no final de 2022 –último ano do governo Jair Bolsonaro ( PL )– para perto de 1,5%. Na visão de Barbosa, esse impulso à demanda, diluído em quatro anos, não é significativo a ponto de pressionar a Selic.
Para ele, o BNDES complementa recursos do mercado privado e contribui para a ampliação da capacidade produtiva da economia. Isso, diz, aumenta a oferta de bens e serviços no longo prazo, ajudando a conter a inflação.
Segundo o diretor, quase dois terços dos desembolsos da instituição ocorrem por meio de taxas de mercado. "O BNDES é muito mais afetado pela política monetária do que afeta a política monetária", afirma Barbosa, que foi ministro da Fazenda e do Planejamento no segundo governo Dilma.
Luis Miguel Santacreu, analista de instituições financeiras da Austin Rating, diz que o financiamento de longo prazo para infraestrutura é uma das marcas históricas do banco.
Nos últimos anos, porém, debêntures incentivadas também ganharam força como opção para a captação de recursos por empresas, aponta ele. As debêntures são títulos de dívida emitidos pelas companhias para financiar seus projetos.
"Se a gente comparar a época Dilma com hoje, o BNDES era meio hegemônico nesse segmento de infraestrutura. Todo mundo tinha que bater na porta da avenida do Chile [endereço da sede do banco no Rio]", afirma Santacreu.
"De lá para cá, teve um crescimento muito forte dos bancos privados e, principalmente, do mercado de capitais, através das debêntures de infraestrutura. Isso não substituiu o BNDES, mas também virou uma alternativa."
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2026/08/bndes-desembolsa-maior-valor-para-credito-no-1o-semestre-desde-governo-dilma.shtml.

Logo do BNDES na sede do banco, no Rio de Janeiro - Sergio Moraes - 8.jan.19/Reuters · Sergio Moraes - 8.jan.19/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo
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